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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Nevoeiro

 

Sittikorn Pokpong

 

Recolho-me em nevoeiro no todo cinzento da negação

no presente mais que passado sem futuro.

Recolho-me atrás do mundo no todo ausente de inspiração

no limite da selva para além do muro.

 

Tal como em ilhas de isolamento prisioneira de mim e da rotina

espaço-me despojo-me em sono lento

afasto desejos

desço a cortina.

 

Um dia como os outros (116)

(...) Mas se é assim tão evidente, porque nunca se deu este passo como deve ser? Porque será que a concretização se revela tão difícil? Porque será que as famílias e os alunos evitam esta escolha? A resposta está no projeto macabro de Nuno Crato. De acordo com o ministro, quem irá para estes cursos? Ora bem, além dos voluntários - coitadinho, tem 14 anos, mas não dá para mais... -, os que chumbarem duas vezes no ensino secundário também têm o destino traçado. É um castigo: és uma besta, vais já para jardineiro; sim, terás mais uma oportunidade para voltar ao ensino regular, mas para já ficas-te por aqui. Depois, se passares os exames do 9.º ou 12.º anos, logo veremos. (...)


André Macedo



Portugal vai pôr em experiência no terceiro ciclo do ensino básico o regresso à concepção do ensino de há meio século. A experiência-piloto anunciada no DN de hoje, que de facto só pode ser um teste à aceitação social da medida, contém todos os erros das concepções ultrapassadas de ensino vocacional:
1. Diz aos jovens que ir aprender uma profissão é sinal de insucesso escolar, em vez de promover as aprendizagens vocacionais de todos os alunos;
2. Cria a ilusão de uma certificação profissional sub-escolarizada, numa Europa em que já nenhum jovem é diplomado profissionalmente antes da conclusão do ensino básico;
3. Reforça a ideia de que o ensino profissional é "fácil" e é para jovens que não têm sucesso escolar, apesar do insucesso escolar ser essencialmente nas disciplinas que, por serem fundamentais, terão que continuar a existir nesses cursos. Ou imagina-se um diplomado do 9º ano que não saiba português e matemática por ser "profissional"? Dito de modo mais cru, já é bom certificar a ignorância se for numa via profissional? (...)


Paulo Pedroso


À porta

 

Ai Weiwei

 

Ficar à porta sempre à porta.

Vislumbrar contornos sombras

ouvir sons indistintos familiares

o morno em coisas conhecidas seguras

perfumes vagos de conforto.

Ficar à porta como ladrão faminto

ansiando por migalhas de carinho.

Que não se nos apague a memória

 

Salvador Dali 

 

Na próxima semana o governo será de novo avaliado pela Troika quanto ao cumprimento da última versão do memorando de entendimento.

 

Tendo em conta que a Troika é co-responsável pela situação em que estamos e que Portugal é a última oportunidade para que esta política se justifique, a avaliação, por muito que todos saibamos que é negativíssima, será positiva.

 

Convém que não nos esqueçamos da instabilidade política que levou à queda do governo de Sócrates, eleito em 2009, empurrado por toda a oposição, que tinha a receita milagrosa para o crescente desemprego, a depressão económica, enfim, a resposta para a crise instaurada por Sócrates.

 

Da extrema-esquerda à direita mais reaccionária, de tudo se usou para assassinar as políticas entretanto defendidas pelo PS. A irresponsabilidade do BE e do PCP, que continuam a defender o paraíso na terra, sem que para isso se sintam obrigados a explicar a forma de o atingir, para além das promessas de ataque ao capital que explora os indefesos trabalhadores, assim como a irresponsabilidade do PSD e do CDS, cuja ideia de sociedade não inclui o serviço público, o estado como garante da igualdade de oportunidades, os direitos dos cidadãos à saúde e à educação, fizeram aprofundar o binómio crime / castigo para quem ousou aspirar à ascensão social e aos bens materiais, disponíveis apenas para quem tem berço.

 

Convém não nos esquecermos de todas as promessas desfiadas na campanha eleitoral, em que a mais emblemática foi a desvergonha da negação de redução dos rendimentos das famílias. Mas também convém lembrar o que foi dito que se faria e que está a ser feito por esta maioria, como a destruição do estado social, da escola e da saúde públicas, o esvaziamento das funções do estado, o empobrecimento da população mais carenciada e da classe média, a alienação de tudo o que pode ser privatizado, o assalto aos cargos públicos, o desrespeito pelo papel fulcral que uma informação liberta dos interesses económicos representa para o regime democrático.

 

Convém lembrar que a estabilidade política é, de facto, um bem, que a demissão deste governo e deste ministro das finanças não traria melhores soluções, pois não há alternativas. O PS de António José Seguro está mais preocupado em negar, mesmo que pela omissão, a existência de um passado recente, do que em demarcar as diferenças. Foi o PS que negociou, como governo demissionário e com os partidos desta maioria, o memorando de entendimento com a troika. Está obrigado a honrar esse compromisso e a apoiar as medidas que constam desse memorando ou das que são indispensáveis para que se cumpra. Mas o PS deve pugnar porque a sua voz, para além da troika, se oponha a tudo o que tem vindo a ser feito, a reboque da crise, da austeridade e da sua auto flagelação.

 

Convém lembrar que esta maioria foi votada em liberdade, para constituir governo e salvar Portugal, nas inspiradas palavras do nosso herói mais recente. Tem quatro anos para o fazer e nós todos, os eleitores, deveremos somar os prejuízos para apresentar a nossa conta, na tentativa de saldar a imensa dívida de que já somos credores.

 

É bom que não nos permitamos esquecer.

 

Do viço da esquerda

 

 

Requisitos mínimos para se pertencer à esquerda enérgica: 

Nunca usar gravata

Falar sempre com as sílabas muito abertas e bem soletradas

Abrir muito os olhos

Dizer sempre companheiras e companheiros, homens e mulheres, pessoos e pessoas

Utilizar sempre superlativos de quantidade

Acentuar BANca, BANQUEIros, capiTAL, eNORme, esQUERda

Ter muitos dentes na boca

Induzir envelhecimento precoce a quem ouvir a militância

À beira da sublevação

O verdadeiro desastre nacional, pelo qual a sublevação popular é certa, está na hipótese de cessarem os jogos de futebol todos os santos domingos.

 

Ignomínia desta jamais se admitirá. E logo após a torpe cena de mau teatro, protagonizada pelo árbitro do jogo entre o Benfica e o Dusseldorf, insinuando maldosamente uma agressão da parte de um jogador que apenas mostrou a sua indignação inocente e mansa, tal como o Presidente do mesmo clube, herói que não deixa que se ataque tão respeitador e desportivo homem.

 

Que se acautele o governo. Não há nada pior que o povo ficar com tempo para pensar.

Novo amor

Maria Rita

A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.

Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.


A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.


Doze sardinhas

 

Olhou para a travessa com doze sardinhas. Um exagero e um desperdício. Deveriam ter pedido uma dose para os dois. Dava e sobrava. Bem, sempre poderiam levar as que sobrassem para casa. Com um molho qualquer de cebolada dava uma refeição para um deles.

 

Deu-se conta de uma figura meio amarfanhada, uma sombra à sua frente. Um Homem um tanto curvado, de estatura média, a nadar dentro de uma camisa acinzentada e de umas calças puídas. Salmodiou algo incompreensível, num eslavo mesclado de sons portugueses, com gesto brando apontou para as sardinhas. Tinha fome.

 

Indicaram-lhe a cadeira ao lado e acenaram-lhe que se sentasse. Deram-lhe a salada e as sardinhas que restavam. O Empregado pôs-lhe na mesa um prato, um garfo e uma faca, aqueceu-lhe as sardinhas e encheu-lhe a travessa de batatas.

 

Levantou-se e agradeceu-lhes da mesma forma ininteligível. Deixou o prato totalmente limpo, apenas com os restos das cabeças das sardinhas. Encostados às ombreiras da porta, os Empregados comentavam que já há algum tempo que não aparecia e que, por vezes, era muito mal-educado. Mas desta vez, não tinha sido.

A crise no feminino

 

Chiara Bigatti

 

Elas deitam-se a fazer contas, dormem a sonhar com números e acordam a dividir.

Elas dividem-se entre a frutaria, o talho, os mercados, as marcas brancas.

Elas despedem as empregadas domésticas e impregnam-se do ser doméstico.

Elas aprendem a fazer pão, a demolhar feijão, a planear a refeição.

Elas inventam receitas, repartem a comida, enchem as lancheiras.

Elas desistem do cabeleireiro, do verniz das unhas, das águas-de-colónia.

Elas reciclam a roupa, lavam a roupa, passam a roupa.

Elas fazem bolos, compotas e carinho.

Elas transpiram, conspiram e suspiram.

Elas revoltam-se e resignam-se, resignam-se e revoltam-se.

Elas não têm trabalho e fartam-se de trabalhar.

Elas não têm salário nem direitos a reivindicar.

Elas deitam-se derrotadas e levantam-se esperançadas.

Elas perdem o que tinham e dão o que têm.

Elas deprimem-se, calam-se, entristecem.

Elas desenfeitam-se e enfeiam.

Elas desintegram-se.

 

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