Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Penacova

 

 

Da janela parede envidraçada, em frente ao vale do Mondego, o olhar perde-se. Este pequeno intervalo no nevoeiro quotidiano, mesmo que o sol não brilhasse e o dia não estivesse tão esplendoroso, seria gota de mel em língua amarga, sequiosa de doce.

 

Para além da vista deslumbrante, a chanfana estava muito boa, com batatas e repolho cozido, embora temperado com um pouco de azeite a mais. A nevada de Penacova foi a novidade menos satisfatória - um pouco seca; o café rematou muito bem a refeição. Além disso não foi preciso pedir fatura, pois saía automaticamente.

 

A mulher da erva

 

José Afonso 

 

 

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia
Saia rota
Subindo a estrada
Inda a noite
Rompendo vem
A mulher
Pega na braçada
De erva fresca
Supremo bem
Canta a rola
Numa ramada
Pela estrada
Vai a mulher
Meu senhor
Nesta caminhada
Nem m'alembra
Do amanhecer
Há quem viva
Sem dar por nada
Há quem morra
Sem tal saber
Velha ardida
Velha queimada
Vende a fruta
Se queres comer

A noitinha
A mulher alcança
Quem lhe compra
Do seu manjar
Para dar
A cabrinha mansa
Erva fresca
Da cor do mar
Na calçada
Uma mancha negra
Cobriu tudo
E ali ficou
Anda, velha
Da saia preta
Flor que ao vento
No chão tombou
No Inverno
Terás fartura
Da erva fora
Supremo bem
Canta rola
Tua amargura
Manha moça
.. nunca mais vem

 

Canta camarada canta

 

José Afonso 

 

Canta camarada canta
canta que ninguém te afronta
que esta minha espada corta
dos copos até à ponta

Eu hei-de morrer de um tiro
Ou duma faca de ponta
Se hei-de morrer amanhã
morra hoje tanto conta

Tenho sina de morrer
na ponta de uma navalha
Toda a vida hei-de dizer
Morra o homem na batalha

Viva a malta e trema a terra
Aqui ninguém arredou
nem há-de tremer na Guerra
Sendo um homem como eu sou

 

A preocupação por Olivença

 

 

Não consigo perceber o que leva António José Seguro a atacar Passos Coelho por não ser um dos subscritores da carta de David Cameron, cujas sugestões são, pensava eu, o contrário do que o PS defende. Pelo contrário, António Jósé Seguro, que eu saiba e tenha encontrado após pesquisa pela internet, não se pronunciou sobre qualquer dos dois manifestos de que falei no post anterior.

 

Mas o PS e, provavelmente o seu líder, está preocupado com Olivença.

 

Europa em debate

 

 

Alguma coisa está a mexer na Europa. E isso são, por si só, boas notícias.

 

No espaço de uma semana tivemos conhecimento de um manifesto escrito por Eduardo Paz Ferreira (entre outros): Um Tratado que não serve a União Europeia, outro subscrito por membros dos partidos socialistas, trabalhistas e sociais-democratas de vários países da EU: For a European Socialist Alternative, e hoje de uma carta de David Cameron, Primeiro-ministro do Reino Unido, endereçada ao Presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy e ao Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

 

O primeiro manifesto, a propósito do projeto de tratado internacional (Tratado sobre a Estabilidade, a Coordenação e a Governação na União Económica e Monetária), e o segundo, com uma alternativa à austeridade imposta pela direita Europeia, ambos apelam a uma revalorização do que serviu de base à constituição da União Europeia, nomeadamente a manutenção da paz, de um estado social que dignifique e defenda os direitos humanos, uma Europa de progresso e prosperidade, igualdade de oportunidades, crescimento e bem-estar. Chamam a atenção para a perigosa rota descendente de todos estes valores, que soçobraram pela desregulação financeira, pelo recurso não regulado nem controlado aos mercados emergentes, pelo pactuar com países não democráticos, pelo aumento das desigualdades e da pobreza, pelo não investimento em energia limpas e no controlo das alterações climáticas. Urgem à tomada de consciência de que a solução só poderá ser europeia, sugerindo um aprofundamento da integração política europeia, e que deverão ser acionados mecanismos de compensação entre países com mais e menos recursos, com sustentabilidade económica diferente.

 

A carta de David Cameron tem uma visão totalmente diferente, em que sugere que a EU deve implementar medidas de liberalização do setor dos serviços, apelando ainda para uma maior abertura e implementação de relações comerciais a nível global, estendendo os mercados e a globalização a parceiros, tal como o Mercosul e o Japão.

 

O que nenhum dos textos aborda é a urgente e absoluta necessidade de refazer, reconstruir, remodelar, reformar, a forma de legitimação das instituições europeias, de forma que os cidadãos se revejam e reconheçam nessas instituições, dando-lhes uma capacidade política que não têm. Neste momento quem se assume como decisor em tudo o que diz respeito à EU é a Alemanha. Enquanto não houver respeito pelas decisões democráticas internas e não se implementar uma vivência democrática no seio da EU esta continuará a desagregar-se e os povos europeus tenderão a considerar a EU como um organismo estranho, exterior às suas necessidades e aspirações.

 

Desemprego - nova abordagem, precisa-se

 

Não é sério culpar este governo pelo aumento do desemprego. Já seria sério dizer que esta política não vai resolver o problema do desemprego, como a política do governo anterior também não conseguiu.

 

A verdade é que, para além das recessões, das crises e dos défices, tal como aconteceu aquando da revolução industrial no século XIX, também a enorme evolução tecnológica, com o desenvolvimento da internet, da banda larga, de sofisticadíssimos equipamentos e ferramentas informáticas, capazes de fazer rapidamente e sem intervenção humana coisas que requeriam muito mais recursos e muito mais tempo, o tipo de trabalho e o número de pessoas envolvidas mudou radicalmente. Além disso, com a redução da natalidade e o aumento da esperança de vida nos países desenvolvidos, há uma cada vez maior incapacidade de criar emprego para quem chega de novo ao mercado de trabalho, com o fator adicional de serem homens e mulheres a disputá-lo, e não apenas homens.

 

Por isso as ideias para mitigar as consequências destas alterações têm que ser totalmente diferentes das que todos os dias ouvimos falar – diminuição do custo do trabalho, para que se possa competir com estruturas sociais que não tenham atingido o nível de desenvolvimento da ocidental. Aquilo a que temos assistido é a uma crescente penúria e a uma filosofia de neo-esclavagismo, assumindo a classe empregadora, seja ela privada ou o estado, tiques de autoritarismo e direito de posse sobre os cidadãos que têm a sorte de ter emprego.

 

É claro que a especialização e a qualificação poderão gerar oportunidades de trabalho, precisamente para criar e aprofundar as tecnologias que vão surgindo e que nos vão sendo cada vez mais imprescindíveis, em todas as áreas do conhecimento e de atuação. Mas também a ocupação em atividades de apoio social e de lazer, precisamente para os mais idosos e para os tempos livres, caso que se pondera na ideia de que aqui falei há algum tempo – a acentuada redução de todo o horário de trabalho, mesmo que isso signifique uma redução da remuneração líquida mensal. O aumento de tempo livre levaria a equacionar outra forma de estar na sociedade, outra organização familiar e outras necessidades de preenchimento no campo do lazer, da arte e da cultura.

 

Onde estão os pensadores, os políticos, na verdadeira aceção da palavra? Do que as sociedades democráticas precisam é de soluções, mas de soluções de fundo, em que as conquistas de bem-estar não sejam postas em causa, até porque são a fundação de uma sociedade humanista que zela pelos direitos dos cidadãos. A reação europeia à crise, com uma ideologia desadaptada da realidade tecnológica, científica e social, apenas aumentará o desencanto e a crise, com o perigo de novas estratégias totalitárias, às quais as populações aderirão, mesmo que rapidamente se arrependam.

 

Que Presidente?

 

Lembro-me bem do incentivo de Cavaco Silva às manifestações da sociedade civil, que ele considerava vitalidade. Lembro-me bem dos protestos arranjados pela oposição a Sócrates, sempre que algum dos governantes se deslocava a alguma localidade em visita oficial. Até me lembro de invasões inaceitáveis de reuniões partidárias.

 

Lembro-me de fugas dos ministros e de trocas de saídas, mas não me lembro de qualquer Presidente da República ter cancelado uma visita oficial por saber que haveria contestação.

 

Não gosto deste tipo de tentativa de intimidação dos governantes. Nunca gostei, mas a liberdade de manifestação é total. Gosto ainda menos de um Presidente da República que se recusa a enfrentar os seus cidadãos.

 

Tocando em frente

 

Almir Sater & Renato Teixeira

canta Maria Bethânia

 

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

 

A todo o custo

 

 

A Grécia continua o seu calvário para a exclusão do euro, que fará implodir o que resta do mito da Europa. Ontem assistimos a uma selvajaria destruidora em Atenas, aplaudida pelos saudosistas das lutas de massas. É outra versão do a todo o custo. Violência, incêndios a prédios, confrontos com a polícia, cerco ao parlamento, nada disto me parece justificável, mesmo que a raiva seja compreensível. Não é assim que espero ver a dignidade portuguesa defendida.

 

Faltam as alternativas, gente com ideias diferentes, que coloque à opinião pública escolhas autênticas, por muito duras que sejam de encarar. Por isso a ideia do referendo grego era boa, importante e democrática. Tal como democrática é a decisão do Parlamento grego em aceitar o acordo para o resgate. O problema é que a liberdade do Parlamento grego está condicionada por imposições de um colectivo que é um conjunto único, não pelo bem da Europa mas pelo bem da Alemanha. É não haver quem, na Grécia ou em Portugal, desenhe um outro futuro – fora deste simulacro de União Europeia, sem dinheiro, com desemprego, com enormes dificuldades, e tente recomeçar o que se destruiu.

 

Mas a esquerda está mais preocupada em mostrar-se de esquerda, com manobras de má publicidade, abraçando tudo o que é alarmismo e desgraça. Pois ela aqui está, a desgraça, desgraçadamente globalizada neste canto que desejávamos especial e imune.

 

Pág. 1/3