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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Espartilho

 

Nos tempos que correm é difícil discutir outros assuntos que não se prendam com o receio do futuro, a capacidade de lutar pela sobrevivência. O dia a dia das pessoas é cada vez mais difícil, o emprego é cada vez mais escasso, os impostos são cada vez mais altos, os rendimentos são cada vez mais reduzidos. A vida afunila-se com a praça, os sapatos, a carne, os transportes, a chuva, o acordar a fazer contas, o deitar a fazer contas, olhos abertos fixados lá na frente sem se ver nada para lá do dinheiro, ou da falta dele, e da certeza de que se piora todos os dias.

 

Como se pode pensar noutras coisas, ler livros, assistir a colóquios, conversar sobre pintura, cinema, viagens, personagens históricas, personagens de romance, distanciamentos, religião, escritores, músicos, concertos, passeios? Como se poderá alterar as prioridades da existência? Estas preocupações, quase obscuras, quase obscenas para quem tem obrigatoriamente as comezinhas mas indispensáveis tarefas de angariar fundos para se manter, para levar uma vida com um mínimo de segurança, estas preocupações fazem parte da essência da liberdade.

 

Que liberdade numa sociedade que se espartilha entre o somatório dos débitos e dos défices e das crises? Onde está o indivíduo e o seu espaço de procurar, comparar, conhecer, escolher? A mentalidade da servidão alimenta todas as ditaduras. Mas como se pode sacudir o sentimento de impotência, a dependência das migalhas diárias com que temos de nos contentar?

As vozes dos outros (2)

 

(...) e penso que o hábito precoce da solidão é um bem infinito. Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. Ensina-nos também a amar mais os seres. Além disso, há um fundo de indiferença na criança que muito raramente é descrito. Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas fico impressionada quando observo as crianças: vivem num mundo muito próprio. (...) Creio que os escritores, nas sua maioria, mesmo os "sérios", que falam da infância, se enganam sempre. Vêem a criança do seu ponto de vista de adultos, ou fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do que imaginam ser uma criança. Tudo isto é demasiado sistemático, está demasiado próximo das nossas próprias convenções. Julgo que a criança se orienta na vida de forma muito vaga, com a surpresa do animal jovem, que vê ou encontra qualquer coisa pela primeira vez. As pessoas grandes que a rodeiam, cuja identidade nem sempre é muito clara - uma dizem-lhe ser, ao que parece, o pai, que se chama "papá" (mas o que é para ela um pai?), outra a mãe, e a terceira a criada, a cozinheira ou o carteiro - são todas "pessoas grandes", que têm uma certa importância mas, ao mesmo tempo, não estão muito ligadas à criança nem à sua vida própria, aliás impenetrável para aquelas pessoas. (...)

 

 

De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley

Relógio D'Água Editores, Junho de 2011

As vozes do outros (1)

 

(...) Quando falamos de amor pelo passado é preciso ter atenção, pois é do amor à vida que se trata. A vida está muito mais no passado do que no presente. O presente é um momento sempre curto, mesmo quando a sua plenitude o faz parecer eterno. Quando se ama a vida, ama-se o passado, porque é o presente tal como sobreviveu na memória humana. O que não significa que o passado seja uma memória de oiro: tal como o presente, é ao mesmo tempo atroz, soberbo ou brutal, ou apenas vulgar. (...)

 

 

De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley

Relógio D'Água Editores, Junho de 2011

 

Se cuidas de mim

Tiago Bettencourt & Manta

Inês Castel-Branco 

 

 

Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Dentro da minha mão
Eu guardo te bem
Se amarmos do princípio
Se perdermos tudo outra vez
Vou marcar-te bem
Como um sonho vão
Dentro da minha mão

 

Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Se vens em paz
Eu venho por bem
Se formos bebendo
O chão deste caminho
Vou guardar-te bem
Agora que sei
Que não vou sozinho

 

Há uma praia depois da sombra
Uma clareira p'ra iluminar
Há um abrigo no meio das ondas
Tu a caminho p'ra iluminar

 

Por isso vem

PCP - partido antidemocrático

 

O PCP é um partido que, ao longo das décadas pós 25 de Abril, se assume como a verdadeira esquerda, um partido antifascista e anti-imperialista, defensor das mais amplas liberdades para o povo.

 

O PCP é, no entanto, um partido completamente anacrónico e, ao contrário do que diz, defensor de uma ideologia totalitária e antidemocrática. Na blogosfera, por exemplo, se alguém se arrisca a questionar as suas posições políticas, a criticar os sindicatos afectos, pode de imediato contar com a caixa de comentários pejada de insultos, em que o menor é anticomunista primário.

 

Vale a pena ler os textos intitulados Sobre os acontecimentos de 19 de Agosto de 1991 na URSS, de 18 de Agosto, não assinado, no site do PCP, e Agressão imperialista à Líbia - Tripoli cai afogada em sangue*, de 25 de Agosto, também não assinado, no site do Jornal Avante!.

 

Passaram já 20 anos desde a queda do regime, mas o PCP não aprendeu nada e a História, para o PCP, é uma fatia formatada à sua imagem, em que o anticomunismo e o imperialismo das nações afectas aos EUA são a raiz de todos os males, numa cegueira absolutamente incompreensível e inigualável:

 

(…) Historicamente o que é relevante não são os acontecimentos de 19 de Agosto mas a veloz escalada contra-revolucionária encabeçada por Ieltsin que, contra a expressa vontade do povo soviético – no referendo de 17 de Março desse ano, e apesar da confusão já então instalada na sociedade, 76% dos soviéticos votaram pela continuação da URSS – conduziu ao desmantelamento da URSS e à destruição do seu sistema sócio-económico socialista. Sistema que, apesar de atrasos, erros e deformações que se tornara necessário superar, revelara bem a sua superioridade em relação ao capitalismo, trouxera ao povo soviético grandes conquistas e realizações, dera a mais heróica e decisiva contribuição para a derrota do nazi-fascismo e exercera uma influência determinante nos grandes avanços transformadores e revolucionários do século XX. A sua destruição não podia deixar de representar, como representou de facto, grandes perdas e imensos sacrifícios para os trabalhadores e para os povos da URSS e para os povos de todo o mundo.

 

Com o desaparecimento do poderoso contra-peso que a URSS e o sistema socialista representavam em relação ao imperialismo e à sua política exploradora e agressiva, e a brutal alteração da correlação de forças daí resultante, o mundo tornou-se mais injusto, mais perigoso, mais desumano. (…)

 

Em relação aos recentes acontecimentos na Líbia, mais uma vez o PCP defende que:

 

(…) A queda de Tripoli é uma derrota para todos os progressistas e amantes da paz, mas não a sua rendição ou deserção da luta contra a barbárie.

 

Confesso que, por muito que releguemos os resultados eleitorais do PCP para a irrelevância que vão tendo, não consigo deixar de me surpreender com o ainda grande número de pessoas que escolhem não querer saber, que optam pela mentira e pela ocultação a si próprios da realidade.

 

É preciso denunciar e combater o PCP, democraticamente, precisamente o contrário do que a URSS e a Líbia faziam aos opositores dos respectivos regimes.

Direitos, liberdades e garantias

 

A mais recente polémica sobre as escutas telefónicas não autorizadas a um jornalista, por parte dos serviços de informação, reabriram uma discussão da qual muitos se arredaram e que agora, com toda a razão, se indignaram. Este é um atentado gravíssimo aos direitos fundamentais dos cidadãos. Mas é este como o foram as escutas efectuadas a outros, sem que ninguém tenha percebido porquê, a divulgação das mesmas e a sua publicitação.

 

Os limites da legalidade e do respeito pelos direitos, liberdades e garantias foram ultrapassados. Não se ouve o Mais Alto Magistrado da Nação insurgir-se e apelar para rigorosos e céleres inquéritos. Não se ouve o Mais Alto Magistrado da Nação insurgir-se contra os atropelos à liberdade de expressão na Madeira. Lembro mesmo o facto de um deputado eleito ter sido impedido de entrar na Assembleia Regional da Madeira, sem que se tenha ouvido do Mais Alto Magistrado da Nação uma palavra de repúdio, tendo mesmo aceite a afronta de não ter sido recebido na dita Assembleia.

 

Pedem-se inquéritos e punições exemplares. Claro que todos o desejamos. Mas aquilo que mais se exige é uma verdadeira cultura e prática democráticas. Infelizmente elas são apregoadas mas pouco observadas por quem tem obrigação constitucional de o fazer. E todos somos cúmplices. Não me recordo de ter ouvido questionar o então candidato a presidente, Aníbal Cavaco Silva, sobre estes atentados à democracia.

 

Isto diz-nos respeito a todos, como cidadãos de uma sociedade livre e democrática, que preza os valores da liberdade individual. É imprescindível que os mais altos responsáveis políticos se empenhem em garantir o funcionamento das instituições democráticas e que todos nos indignemos sempre e independentemente de quem é o visado por estes atentados.

 

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

 

(...)

TÍTULO II
Direitos, liberdades e garantias 

CAPÍTULO I
Direitos, liberdades e garantias pessoais 

(...)

Artigo 26.º

Outros direitos pessoais

 

1. A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação.

 

2. A lei estabelecerá garantias efectivas contra a obtenção e utilização abusivas, ou contrárias à dignidade humana, de informações relativas às pessoas e famílias.

(...)

 

Nota: Sobre o mesmo assunto: Ricardo Alves, Estrela Serrano, Fernanda Câncio, Jumento, Luís Menezes Leitão.

Tempo suspenso

 

Tiago Taron 

 

Ao fim da tarde, no burburinho do Bairro Alto, deambulando pelo Príncipe Real, devagar e contida em conversa silenciosa com quem me acompanha. Temos o tempo suspenso nas memórias reencontradas, vogamos sem rumo pelas percepções do outro eu, devagar, umas vezes subindo e outras descendo, pelas ruas do Bairro Alto.

 

Quem somos nem nós sabemos, os intrincados processos de entrelaço decorrem sem deles nos apercebermos. Um olhar aqui, outro acolá, em demanda de uma Fábrica de Chapéus, larga, de anúncio amarelo, jovem e tradicional a um tempo. Experimentam-se chapéus como quem toca ao de leve em confidências, umas mais floridas, outras mais cinzentas, de copa alta ou aba curta, sempre sem entregas histriónicas.

 

As portas das casas velhas escondem a vida que por ali habita sem sobressaltos visíveis. Paredes vivas que contam histórias de amizade e iniciação, mesas que servem mais do que simples refeições, cruzamos a tarde que abafa, antes do regresso ao quotidiano.

I saved the world today

Eurythmics

Monday finds you like a bomb
That's been left ticking there too long
You're bleeding
Some days there's nothing left to learn
>From the point of no return
You're leaving

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay

There's a million mouths to feed
And I've got everything I need
I'm breathing
And there's a hurting thing inside
But I've got everything to hide
I'm grieving

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay

Let it stay
Let it stay
Doo doo doo doo doo the good thing

Hey hey I saved the world today
Everybody's happy now
The bad things gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
Please let it stay

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