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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O programa

 

Afinal este governo também recorre a medidas extraordinárias, após os Conselhos Europeus. Como Miguel Frasquilho disse ontem, já não sei em que canal televisivo, mesmo que nos portemos muito bem e cumpramos tudo o que temos que cumprir, a saída da crise não depende só de nós. Parece que Sócrates e o PS tinham alguma razão.

 

Mas isso também já não interessa. Temos novo governo e novo programa, em que se vai privatizar tudo o que for possível, recorrer à iniciativa privada sempre que for possível. Na saúde: (...) Pela garantia do acesso universal e equitativo, tendencialmente gratuito, aos cuidados e serviços de saúde incluídos no plano de prestações garantidas; (...). Resta saber e definir quais são as prestações garantidas, tendencialmente gratuitas. Receio que se faça um pacote de cuidados a que todos têm direito, os tais que são garantidos, e depois os outros são para quem pode pagar individualmente. Ou seja - uma saúde para pobres, outra para ricos. Das taxas moderadoras pretende-se (...) garantir que apenas se isenta quem realmente necessita dessa isenção (...). A forma de identificar quem realmente precisa de isenção não está explícita. Pode sempre ser através de um cartão (cartão de pobre).

 

Estas conversas sobre o utilizador / pagador lembram-me sempre os problemas dos pagamentos dos condomínios - quem mora no rés-do-chão não aceita pagar pelo elevador, pois nunca o utiliza(*)

 

A aposta nas energias renováveis evaporou-se. Os transportes públicos devem ser incentivados, mas as parcerias com os privados são para avançar.

 

Não tenho ilusões nem me espanto. Foi este o rumo que os eleitores escolheram.

 

(sublinhados meus)

 

Adenda: O Programa de Emergência Social, deixa às Misericórdias e à IPSS grande parte da responsabilidade de acudir às (...) crianças e idosos de famílias desamparadas e sem acesso a redes e instituições normais de apoio a que o Estado geralmente recorre (...), de forma a prover, de forma prioritária à famílias (...) alimentação, vestuário e medicamentos (...). As pessoas passam a não depender do Estado para dependerem da solidariedade dos outros. Deixam de ter direito a um mínimo para usufruirem do favor e da caridade da sociedade.

 

(*)Acabei de ser informada de que, por lei, quem mora no piso térreo está dispensado de pagar pelo elevador, pelo que a minha comparação não tem cabimento.

 

Comentário de Nuno Manuel Costa:

 

(...) Só estão dispensado que se o elevador não permitir o acesso a partes comuns! Se o elevador permitir, por exemplo, aceder ao terraço, os condóminos do rés-do-chão têm que pagar! O Supremo Tribunal decidiu em 1983, que um condómino cujas frações possam ser servidas por determinado equipamento não fica isento de pagamento das despesas com ele relacionadas, mesmo que recuse a sua utilização!
Ou seja, o que a lei prevê é a possibilidade de utilização e não a efectiva utilização.

Consultar guia do condomínio da DECO ou n.º 4 do artigo 1424º do código civil. (...)

Vozes de uma Estrela Distante

 

 

Ana Sofia Pereira, um nome para uma mulher, estudou argumento na Universidade Católica, do Porto. Em conjunto com outros 4 jovens, tem uma empresa Produtora de Audiovisuais – Cimbalino Filmes – que já fez 4 anos, muitos trabalhos, outros tantos projectos e alguns prémios. Trabalhadora, metódica, pacata, silenciosa, divertida, dotada de um sarcasmo muito saudável, é uma filha do Porto, dos seus 28 anos, da sua geração.

 

Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha, um nome para uma escritora ([…] Não mais do que uma pulga/ ou talvez menos ainda.), escondida, clara, dolorosa, sem rede para tanta emoção, para tanta letra. Os seus poemas, em verso ou em prosa, são reflexo de uma profunda solidão ([..]Sou o parasita da solidão/ que a suga até ao tutano.// […]), dessa solidão rígida em que os poetas se prendem, sem conseguirem romper alas a não ser pela voz do poema ([…]Experimento os dedos das minhas mãos,/ testo os dedos dos meus pés,/ dobro os braços e as pernas./ Corto tudo o que já não serve./[…]). O mundo que não se abre, o tropel que entope a garganta, o mundo virado do avesso (inspirar bem fundo,/ engolir todo o mundo/ e deixá-lo ficar/ até um dia/ ser capaz de expirar.), mas devagar, composta, firme, presente, com os olhos e o silêncio que a partem ([..]E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...// E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.).

 

Ana Sofia Pereira olha o mundo do lado de fora dele, do lado de dentro dela. A imagética remete-nos para a esfera de uma meninice que teima em perdurar, dentro de um crescimento doloroso a que se recusa, lembrando a personagem Oskar Matzerath, do filme O Tambor (1979, realização de Volker Schlöndorff, argumento de Günter Grass), que decide parar de crescer. Os poemas centram-se no corpo para se projectarem no espaço, na luz, nas estrelas, sempre uma realidade exterior em oposição à realidade interior. Versos curtos, melodiosos, absolutamente precisos e depurados, em que as palavras são a geometria do silêncio. A procura e a incerteza do que se quer dizer, do que se quer mostrar, a crua observação da incessante busca de se transcender, faz dos poemas questões e gestos que se encontram ([…]no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.).

 

Ana Sofia Pereira, Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha.

(Vozes de uma Estrela Distante - http://uma-estrela-distante.blogspot.com/)

 

Gostava de ter um caderno que lesse as palavras que giram na minha cabeça e as escrevesse no papel. Porque a minha mão tem vontade própria, a caneta escreve só o que quer, e aquilo que imagino, o que vive na minha cabeça, não fica escrito no papel. O que aqui fica, é uma colaboração entre a minha cabeça, a minha mão e a tinta da caneta. Eu não escrevi isto assim, e nunca ninguém vai ler o que eu escrevi dentro de mim.

 

E de um momento para o outro, mudam-me. Sem pedir licença, pegam em mim e informam-me que já não sou assim, que já não posso ser assim, que já não devo ser assim. Já não és a última da linha, a sensível, a criativa, a sonhadora... agora sou mudança, original, inovadora, independente, excêntrica, imprevisível... Agora sou aquário... sem peixes.

 

E por muito que os meus olhos estejam fechados,
estão abertos
à espera do próximo golpe.
Este já não me apanhará de surpresa,
de certeza...

e isso não fará a mais pequena diferença.

 

Sinto-me tão frágil aqui no meio de tanto ar, tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanto respirar, tanto suor, tanto lutar, tantas lágrimas, tantos risos, tanto ir e voltar. E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...

 

E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.

 

Não mais do que o tamanho de uma pulga.
Não mais do que a coragem de uma pulga.
Não mais do que a força de uma pulga.
Não mais do que a vontade de uma pulga.

Sou o parasita da solidão
que a suga até ao tutano.

Não mais do que uma pulga
ou talvez menos ainda.

 

Há tanto para ver aqui que as palavras atrasam-se a chegar e, quando chegam, já eu cá não estou. Fica apenas este espaço em branco, nem eu que já não estou, nem as minhas palavras que não chegaram a ser. E descubro, não sem surpresa, que onde finalmente me encontro é onde nunca estive, onde as minhas palavras não chegaram, na descoberta de mim no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.

 

Que sorriso foi esse
que estranhaste nos meus lábios?
Todos os dias ponho um diferente
e ensaio um novo olhar.
Experimento os dedos das minhas mãos,
testo os dedos dos meus pés,
dobro os braços e as pernas.
Corto tudo o que já não serve.
Reinvento-me,
reencontro-me
e já não sou eu...
Mas aquele sorriso,
o tal que tu estranhaste,
esse,
esse, já é o meu!

 

Intervalo do Meu Mundo

inspirar bem fundo,
engolir todo o mundo
e deixá-lo ficar
até um dia
ser capaz de expirar.

 

em Revista-Me nº 2

 

A Poesia Rima com quê? Com Economia?

 

 

Economia, ou actividade económica - Produção, distribuição e consumo de bens e serviços, e repartição de rendimentos

do gr. Oikonomía - direcção de uma casa

Poesia, ou género lírico, ou lírica - Uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos; carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético

do gr. Poíesis - acção de fazer alguma coisa

 

Produzimos palavras cobertas de silêncio, dedilhadas mecanicamente pelas teclas, com a mais alta tecnologia da solidão. Não deduzimos medo nem paixão, consumimos a própria alma, devagar ou subitamente, ressuscitando e regurgitando o poema, repetido e inacabado eternamente. Servimos letras em dedais de espuma, sempre e teimosamente esticados com os arames que seguram a dignidade. E sonhamos com a distribuição do sonho, em catadupas ou milimetricamente, na medida do que nem sequer sabemos que existe.

 

De bens, ou de bem, essa verdade ou necessidade ou actividade ou representação do real. Do bem que não sabemos definir, a economia complicada das redes multiplicadas pelos sorrisos. Economicamente achamos bem ou somos o mal, com ou sem a qualidade do demo, desprezados sem utilidades nem uso conhecido, deixamos os números das certezas para quem serve, para quem se quer curto e certo.

 

Precisamos da língua, como órgão do som e da palavra nesta Babel mundial em torre cada vez mais alta, que a globalização não destrói. Órgão muscular que dança e se contorce na produção fonética das emoções com lágrimas, com rugas, com pedras. Precisamos da mordedura sensual da palavra, das cores inimagináveis que as palavras pintam entre a gente amassada, amarfanhada, lisa, estática, enorme, das telas brancas que riscam sem pedir razões, das máscaras que cobrem na forma, na rima, nas folhas, paredes, palcos personagens duplas e triplas desdobradas em pétalas ou cimento.

 

Não uma das sete mas todas as sete, nove ou treze artes, não sei se cabalísticas ou precisas, a poesia não rima, não cede, não se troca, mas diz-se, sente-se, ouve-se, sem género nem lírica, bem de consumo lento, ao serviço dos bens maiores, distribuindo arrepios, assim se consome, uma economia totalmente privada mesmo que pública, mista e mística, filosofia em estado puro.

 

em Revista-Me nº 02

 

Primeira semana

 

Os detractores de Sócrates e do governo anterior, a totalidade dos partidos que não o PS, e mesmo dentro deste, não comentam agora a necessidade de mais PECs, conforme Passos Coelho anunciou, secundado por Miguel Relvas, após o Conselho Europeu. Afinal estes anúncios e estas medidas são mais ditadas pela vontade da União Europeia do que pela dos chefes do governo, como sempre o souberam os partidos políticos, à esquerda e à direita do PS.

 

No PS a luta pela liderança parece estar já decidida. Infelizmente mal decidida, pois António José Seguro vai dando sinais de que não aprendeu nada com os erros da anterior oposição ao seu partido. Pelos vistos para ele fazer oposição é dizer que não, seja lá ao que for: não aceita fazer uma revisão constitucional? Porquê? Não é precisa? Critica os planos de austeridade do governo? E então? Quais são as suas alternativas?

 

Valha-nos (São) Francisco (de) Assis.

 

Trocas

 

Mrinalini Mukherjee: lava

 

Troco as palavras pelos dedos pelos olhos pela boca

troco de língua de roupa de cama

troco os passos pelos dias os atalhos pelos riscos

troco de mãos de sangue de cor de forma de ser.

 

Troco tudo e que se troca

até de mim

mas de ti não.

 

Irreversível

 

Ronald Rae: Widow Woman 

 

A face enrugada e os lábios engolidos pela falta de dentes, querida face de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha confiante e eu sem saber se sou de confiar. O abandono do corpo tão grande como a entrega da alma serena e sem reservas, olhos sorridentes e um pouco assustados, a fala da quase criança em que nos transformamos, de tantos os anos, iguais aos nascituros.

 

Querida face enrugada de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha como se a vida se tornasse reversível.

 

Próxima legislatura

 

 

O aparente apaziguamento da sociedade e a boa vontade perante o novo governo revela o enorme alívio perante o resultado das últimas eleições. Alívio que é partilhado pela esquerda, pois penso que todos esperavam um enquadramento parlamentar diferente, sem maiorias, em que a formação de um governo fosse difícil pela incapacidade de se formarem alianças. Penso que o melhor que se esperava era uma reedição do bloco central. Assim, a escolha clara por uma maioria de direita dá estabilidade ao país. Além disso, a coligação soube negociar em tempo recorde, apresentar uma solução governativa inovadora e resolver o imbróglio Fernando Nobre de uma maneira brilhante.

 

O suspiro de alívio é geral e profundo. Mas as opções políticas são claras e o que nos espera serão medidas de redução do Estado Social, de caritatização da sociedade, da transformação daquilo que consideramos direitos como favores do Estado. A solidariedade entre os cidadãos e a sua contribuição para o bem geral, que era mais ou menos assumido que se traduzia no contributo fiscal, em que os que mais ganham mais pagam, para que os serviços prestados fossem universais, parece ter os dias contados. A ideia de que a Educação Pública é um dos agentes mais importantes na democratização da sociedade, em que o investimento na escola tem o retorno garantido na redução das diferenças entre diversas classes económicas e múltiplas culturas, será ultrapassada.

 

A implosão do BE e a renovação ideológica e de praxis no PS são indispensáveis no reposicionamento dos partidos de esquerda para o debate que importa realizar, tendo em conta a globalização, o falhanço das lideranças europeias e a derrocada do projecto europeu. Os valores mantém-se, mas as medidas para que as sociedades se revejam neles, a forma de os abordar e, sobretudo, de os honrar, terá que ser diferente. Francisco Assis abriu o caminho com a hipótese da participação da sociedade na eleição do líder do PS.

 

A próxima legislatura, esperemos, terá a duração de quatro anos. É tempo de renovar e assumir roturas com o passado. A esquerda precisa de romper com a cultura sindical instalada, que é arcaica e anacrónica, precisa de rever os modelos da legislação laboral, das áreas de desenvolvimento económico e de inovação, precisa de manter algumas bandeiras, como as energias renováveis e o investimento na ciência, de propor reformas políticas e administrativas que respeitem a democracia. Acima de tudo, precisa de repor a credibilidade da política e dos políticos, rejeitando sem medo todas as formas de populismo que se mascarem de movimentos apartidários e de cidadãos, que mais não são do que embriões de devaneios totalitários.

 

Não há tempo a perder.

 

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