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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Tabacaria

 

William Harnett: A smoke Backstage

 

Ainda há uma tabacaria na rua. A porta abre-se com dificuldade, pesada, com um letreiro torto a dizer ABERTO, mesmo quando está fechada. O homem atrás do balcão tem uma cor pisada, cabelos pendentes de alguém que acabou de se encharcar. As revistas penduradas pelas paredes, com molas sujas, têm o aspecto de jornais velhos e desfolhados, após notícias tremendas e sanguinárias.

 

O homem atrás do balcão nunca sai de lá. Pode ter pernas de pau ou saias escocesas, pés com meias cinzentas e sandálias, calças esfiapadas ou de pirata, que ninguém vê. Conhece de cor os rostos dos miúdos que lhe vão pedir cigarros, sabe todos os truques que as miúdas usam para roubar pastilhas elásticas, saúda com dois dedos todos os cães que param em frente à esquina da porta.

 

Ainda há uma tabacaria na rua. Quando a chuva chama abrigo, o homem atrás do balcão fica mais baço, dentro da nuvem do fumo que aspira. Por vezes vêem-se os dois dedos, castanhos de nicotina, a virarem as páginas de um jornal. Sempre do fim para o princípio, como os cigarros que arruma ao contrário.

 

I'll stand by you

 

Oh, why you look so sad?
Tears are in your eyes
Come on and come to me now
Don't be ashamed to cry
Let me see you through
'Cause I've seen the dark side too

When the night falls on you
You don't know what to do
Nothin' you confess, could make me love you less

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you

So, if you're mad, get mad
Don't hold it all inside
Come on and talk to me now

Hey, what you got to hide?
I get angry too
Well I'm a lot like you

When you're standing at the crossroads
And don't know which path to choose
Let me come along
'Cause even if you're wrong

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you

Take me in, into your darkest hour
And I'll never desert you
I'll stand by you

And when, when the night falls on you, baby
You're feelin' all alone
You won't be on your own

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you
Take me in, into your darkest hour
And I'll never desert you

I'll stand by you, I'll stand by you
Won't let nobody hurt you
I'll stand by you
Yeah

Won't let nobody hurt you
I'll stand by you
I'll stand by you
Won't let nobody hurt you

I'll stand by you
No, no, no, no, no
Take me in, into your darkest hour
And I'll never desert you
I'll stand by you
I'll stand by you

 

Incredulidade

 

Rui Pedro, 11 anos, desapareceu a 4 de Março de 1998. Não consigo sequer imaginar a dor, a angústia, a vida destes pais e desta família durante todos estes anos, como não consigo imaginar a dor, a angústia e a vida deste miúdo, se é que ele vive.

 

Durante 13 anos, ciclicamente, ouvimos os pais acusarem a justiça de lentidão, acusarem o país de se ter desinteressado, de não saber, de não querer saber o que se passou. Agora, sem que haja novas provas, o Ministério Público acusou um amigo da família e, pelos vistos, do Rui Pedro, do rapto e sabe-se lá de que mais.

 

A incredulidade anda de mãos dadas com a revolta. Pobre de quem precisar desta justiça. Que Estado é este, que Direito, que segurança e protecção aos cidadãos é capaz de assegurar?

 

Demagogia desenfreada

 

12 de Março de 2011 - Um milhão de pessoas na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política

 

É difícil ler manifestos mais demagógicos e populistas que este. Embora nem sequer perceba exactamente qual a sociedade ou sistema político que os autores deste email defendem, se é que defendem algum, é assustador imaginar o que resultaria da concretização de todas estas medidas aparentemente sensatas e bem intencionadas.

 



Afundamentos

 

 

Kadhafi conseguiu esconder de todos os seus parceiros presidentes e monarcas de países por esse mundo fora, a perfídia que o consome, as diabólicas artimanhas que tece na sua tenda.

 

Repentinamente todos se dão conta da sua loucura, prepotência e falta de amor pela democracia e pela vida do seu povo. Até os seus mais próximos colaboradores, como embaixadores, ao descobrirem a verdade por baixo das vestes longas, dos óculos escuros e do guarda-chuva, corajosamente se demarcam do negro tirano.

 

Como é admirável a elasticidade do entendimento.

 

Cartão de eleitor

 

 

Felizmente, a oposição está alerta e não deixa passar iníquas propostas de lei deste governo sem préstimo. O número de eleitor, peça fundamental da arqueologia democrática, ícone e artefacto histórico português, deve ser mantido e acarinhado, defendido e promovido pelo Parlamento.

 

Por isso se entende e aplaude esta união da oposição que contraria a decisão de acabar com o número de eleitor, mas cria uma comissão eventual. Assim, sim, é a oposição em todo o seu esplendor.

 

A rua

 

Na Líbia o povo quer derrubar o poder autoritário e o próprio ditador. Por todo o mundo, os protestos fazem conjugar-se pressões internacionais para que o ditador deixe cordatamente o poder.

 

Não sei qual ou quais as personagens que corporizam o descontentamento e viabilizam a alternativa. Quem ocupará o poder quando cair Muʿammar al-Qaḏḏāfī (معمر القذافي)? O exército, tal como no Egipto, o Presidente do Parlamento, tal como na Tunísia (تونس)?

 

Abulia

 

Ouvi hoje alguém afirmar, quase em jeito de desafio, que cada vez via mais televisão, como estratégia para esvaziar a cabeça, não pensar em nada e ficar abulicamente sentada, até o sono vencer as pálpebras.

 

Chamaram-me Cigano

José Afonso

 

 

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rez
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura

Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi

Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive
o diabo na mão

Voltei da charola
de cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês

Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que nunca tal vi

Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão

 

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