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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Inevitável?

 

 

Ouvi vários comentadores espantarem-se com a serenidade de Manuel Alegre e suspirarem por um candidato de esquerda mais agressivo contra Cavaco Silva.

 

Para mim, que acabei de ouvir agora o debate, ainda bem que Manuel Alegre não o fez. Para meu espanto, Manuel Alegre portou-se como um verdadeiro Presidente, contido, sereno, tolerante, democrático.

 

Pelo contrário, Cavaco Silva foi agressivo, evasivo, intolerante, sem respostas às perguntas colocadas. Não sabe o que é o Estado Social, confundindo os direitos de dignidade com a ajuda dos moralmente puros. Não falou da Escola Pública, porque não lhe interessa. Esganiçou-se quando deixou ao governo a responsabilidade da eventual chegada do FMI, quando criticou a administração do BPN, quando se refugiou no site da presidência no momento em que lhe lembraram o caso das escutas, enervou-se quando falou das suas justificações aquando das promulgações de diplomas, deu lições de cavalheirismo internacional quando tentou demonstrar que agradar e ter respeitinho pelos mercados era indispensável a Portugal.

 

Preparamo-nos para ter mais cinco anos de um Presidente da República que é o espelho da caridadezinha, das mulheres a fazer a lida da casa, da hipocrisia social e institucional.

 

Um dia como os outros (78)

 

(...) Venho a este debate não para falar, mas para ouvir. Entrego todo o meu tempo ao Presidente da República, aqui presente, para me ajudar a compreender quem é o candidato presidencial Cavaco Silva, igualmente aqui presente. Porque sem os esclarecimentos do primeiro não podemos saber quem é, nem o que quer, o segundo. Infelizmente, a imprensa do meu país não fez o que agora vou fazer. E, desgraçadamente, Vossa Excelência não se dignou contar aos portugueses o que aconteceu, pelo que vou ser eu a exigir de si que cumpra o juramento que prestou ao aceitar o cargo. Revele sem margem para dúvidas: qual é a sua responsabilidade nas notícias que saíram em Agosto de 2009 descrevendo suspeitas de espionagem e escutas cujo alvo era a Presidência da República? (...)

  

Valupi

 

Do ruir do Aluno ou da necessidade de deixar a Escola

 

 

Hoje reforcei a minha convicção de que o recurso aos fundos de emergência europeus, FMI ou qualquer coisa de semelhante, não depende da melhor ou pior performance do governo português, deste ou de qualquer outro. Depende da decisão política e/ou económica de países exteriores ao nosso, nomeadamente da Alemanha. A União Europeia não tem qualquer poder para conter as pressões, nem sei se está verdadeiramente interessada.

 

A austeridade deve avançar ou não se e só se internamente assim se decidir, por governos legitimados em eleições nacionais. O agradar aos mercados ou aos países de primeira, não tem qualquer resultado.

 

A propósito, vale a pena ler este post.

 

Enfrentamentos

 

Mikhail Larionov: Mulher com leques

esboço de traje para o ballet Histórias Naturais (1916)

 

Enfrento o dia em que quase fecho a porta a meio século de vida. Tantos anos acompanhados de sabores e dissabores, amigos e inimigos, vitórias e derrotas, dias bons e dias maus. Já passei cabos de tormentas, cabos de esperança e estou a ultrapassar o cabo dos afrontamentos. Aviso quem ainda não chegou lá que a travessia é lenta e caprichosa, estando as munições secretas sempre no local errado da hora certa.

 

Festejei ao jantar n’A Tasca da Esquina. Fui lá parar através do blogue Mesa Marcada, ao qual fui parar a partir do Mainstreet, agradecendo a ambos.

 

É um local mesmo à esquina, como o próprio nome indica, quando se sai da Rua Ferreira Borges, (Campo de Ourique) e se vira imediatamente à direita, para a Rua Domingos Sequeira. Quem me conhece sabe que isto até parece ficção, mas decorei os nomes e o mapa, para além de ter um motorista com sentido de orientação.

 

A Tasca é pequena, com uma temperatura um pouco acima do confortável. Para isso também contribuiu a garrafa do excelente tinto alentejano Casa Santa Vitória de 2008, que nos foi aquecendo à justa medida do avançar dos pratos e da noite.

 

Escolhemos um menu de degustação composto por sopa e 4 pratinhos. Como é habitual nesta nova era culinária, os nomes dos pratos e a explicação do que vamos comer é muito maior e mais complicada do que a comida em si mesma. Mas estava tudo muito bom. A sopa de tomate com requeijão era deliciosa, nem quente de mais nem fria; a entrada de paté de caça com tostinhas besuntadas com azeite e alecrim, acompanhadas de picles de pêra, deliciosa; a seguir veio camarão com molho de pimentos, extraordinário; depois atum meio cru com molho de coentros, que era bom, mas nada de especial (atum não é prato da minha predilecção); por fim uns filetezinhos de vazia, também muito mal passados, com farófia de milho, batatas fritas e molho de manteiga de alho que sabia muitíssimo bem.

 

A meio da refeição fomos surpreendidos por um mini rancho folclórico da Casa do Minho, que estava com tanta vontade de acabar o ano que cantou as janeiras. Mas cantou-as muito bem!

 

Finalmente escolhemos creme queimado e farófias como sobremesa, rematando com café – divinal.

 

Bem reconfortada, o próximo ano será de lutas e desafios. De leque(s) em punho, com o vigor e a sapiência de uma verdadeira matrona, espero chegar aos cinquenta. E isto é mesmo uma ameaça.

 

Das (des)Ordens profissionais

 

 

Tal como Ana Matos Pires diz, penso que é altura de discutir a existência, nos termos actuais, das ordens profissionais, a sua orgânica, competências e funções.

 

No caso da Ordem dos Médicos não entendo a necessidade de existir uma única Ordem como Associação de Médicos. Penso que se deveria abrir a possibilidade de criar Associações de Médicos cuja adesão fosse voluntária. Essas associações zelariam pela qualidade e pela certificação e requalificação médicas, de acordo com os requisitos internacionais tal como são definidos pelo estado da arte. O reconhecimento das competências básicas para o exercício da profissão deveria ser dado pela homologação das respectivas licenciaturas e especialidades, de acordo com os curricula definidos e exigidos pelo estado, após audição de associações médicas e das sociedades científicas.

 

A verdade é que a Ordem dos Médicos se tem comportado mais com um sindicato, com os problemas do movimento sindical português nos dias de hoje, do que uma associação que zele pela deontologia, pela ética e pela credibilidade da profissão médica. Como estrutura pesada que é, não tem capacidade de resposta, por exemplo, para as queixas dos doentes em relação aos médicos, cuja prioridade me parece absoluta, na defesa da prática de uma medicina de qualidade, deixando pairar a suspeição de um corporativismo que defende tanto quem merece como quem não merece ser defendido.

 

Os próprios médicos não se sentem motivados a participar numa Ordem em que não se reconhecem. As críticas do Bastonário ao Ministro Mariano Gago são exageradas e não fundamentadas. Apenas se percebe, mais uma vez, a resistência à abertura de novos cursos de Medicina, levantando suspeitas de má preparação, não se sabendo quais as bases para o fazer. Esquece-se a Ordem dos Médicos da sua responsabilidade no que diz respeito ao fecho de vagas para Medicina ao longo dos anos, defendendo a manutenção da redução de vagas com o argumento do desemprego médico e da sua má distribuição territorial. O elevado número de Médicos estrangeiros a trabalhar em Portugal demonstra a falácia desses argumentos.

 

Seria muito importante que os representantes que forem proximamente eleitos tivessem a coragem de abrir este debate. Seria um estímulo a todos os médicos para se olharem criticamente, questionando o seu papel como grupo profissional, as suas prioridades, as suas carreiras, o Serviço Nacional de Saúde, as formações pré e pós graduada e o seu estatuto laboral, sem preconceitos.

 

Blogues do ano

 

Nesta altura do ano, que é tão boa como qualquer outra mas na verdade o fim e o início dão sempre jeito para balanços, multiplicam-se as listas de livros, filmes, músicas, cantores, figuras e blogues do ano. Todas estas listas dependem do gosto e dos interesses de quem as faz, como é lógico.

 

O problema é sempre de amostragem. Parece-me até soberba escolher os blogues do ano num universo tão infinito como os universos o são, por definição, quando eu apenas visito uma ínfima parte desse mundo. Mas mesmo assim, de todos aqueles que leio, uns com gosto, outros com raiva, uns com curiosidade, outros com indiferença, há alguns a que eu dou particular destaque.

  • ana de amsterdam - depurado, esquálido, com textos de uma sensibilidade, rigidez, realismo e fantasia estranhos e envolventes, música que foge ao habitual, irregular, como o ritmo da vida;
  • Aspirina B - actualidade, espírito crítico contundente, muitíssimo bem escrito, sagaz e divertido;
  • É tudo gente morta - sofisticado, requintado, de uma estética formal e de conteúdo excepcional, em que os temas abordados rompem a rotina do dia-a-dia;
  • Garfadas on line - erudição à volta das cozinhas, dos alimentos, dos restaurantes, da arquitectura, da publicidade, das embalagens, dos rótulos, das ementas, das fábricas, extraordinário;
  • gravidade intermédia - amargura, ternura, sofrimento, generosidade, de uma gravidade que nos toca e nos marca;
  • Herdeiro de Aécio* - brilhante, variado, divertido, irritante, um manancial de pequenas histórias que fazem parte da História, imperdível e inclassificável.
  • Horas Extraordinárias - os livros oferecidos e comentados com uma simplicidade surpreendente, informativo e viciante;

Quase sempre prefiro blogues individuais, talvez porque têm uma linha mais coerente, uma personalidade mais marcada. No entanto há, nesta lista, dois blogues colectivos que conseguem essa coerência com múltiplos colaboradores. Obrigada a todos pelas horas de entretenimento, informação e questionamento que me proporcionaram.

 

*Há que dizer que a imparcialidade em relação a este blogue é sempre tentada mas, se calhar, não conseguida. A. Teixeira é alguém que me é muito chegado...

 

Manhã de Natal

 

Está bom no aconchego de ti. Enrolamos os braços e as pernas no doce morno dos cobertores. Manhã de Natal, o rádio vai despejando mortos e feridos, aviões parados e passageiros desesperados, músicas mais ou menos açucaradas, enquanto o sono vai desaparecendo mansamente.

 

A paz mede-se pela ternura da partilha do toque, pelo café com filhós na cama, começando o dia devagar.

 

Christmas Lights

Coldplay

 

 

Christmas night, another fight
Tears we cried a flood
Got all kinds of poison in
Poison in my blood

I took my feet
To Oxford Street
Trying to right a wrong
Just walk away
Those windows say
But I can't believe she's gone
 
When you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all

Up above candles on air flicker
Oh they flicker and they float
But I'm up here holding on
To all those chandeliers of hope

Like some drunken Elvis singing
I go singing out of tune
Saying how I always loved you darling
And I always will

Oh when you're still waiting for the snow to fall
Doesn't really feel like Christmas at all

Still waiting for the snow to fall
It doesn't really feel like Christmas at all

Those Christmas lights
Light up the street
Down where the sea and city meet
May all your troubles soon be gone
Oh Christmas lights keep shining on

Those Christmas lights
Light up the street
Maybe they'll bring her back to me
Then all my troubles will be gone
Oh Christmas lights keep shining on

Oh Christmas lights
Light up the street
Light up the fireworks in me
May all your troubles soon be gone
Those Christmas lights keep shining on

 

 

Do Natal

 

 

Do Natal do frio da neve

das boas novas

tenho apenas lugar entre as mãos

que se tocam.

 

Do Natal dos justos dos puros

dos sem pão

tenho apenas a fome

dos que se amam.

 

Do Natal que nos ensinam

resta apenas a vida dos que sentem.

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