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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O novo chefe do governo

 

 

Teixeira dos Santos é o homem forte do governo. Sócrates não falou, com excepção das declarações feitas quase a medo, em Bruxelas, em que oferecia mais um esforço, para se chegar a acordo no OE 2011.

 

A unanimidade internacional e o coro de vozes, lembrando o apocalipse se não houvesse aprovação orçamental, raiaram o disparate. Penso que todos percebemos que as decisões políticas e económicas no nosso país não têm nada a ver com as eleições. São o resultado daquilo que a Alemanha e "Os Mercados" querem que seja. A democracia representativa e a soberania nacional não existem, pelos menos nos moldes que ainda estão escritos na Constituição.

 

Fiquei ainda com a impressão de que a abrupta rotura das negociações, quando o governo levava um acordo pronto a assinar, foi uma tentativa de as fechar ao estilo de Sócrates, para tomar a dianteira na aprovação do OE. O reatar das negociações a pedido de Teixeira dos Santos mais faz desconfiar do incómodo do próprio Teixeira dos Santos e do governo. Especulação pura, o que escrevo, mas credível. Para os cidadãos comuns o chefe do governo é, neste momento, Teixeira dos Santos. Sócrates perdeu iniciativa, protagonismo e ficou com a imagem de ser um problema irresolúvel. Que diferença entre o primeiro-ministro decidido, seguro e voluntarioso do anterior governo.

 

Também a negação de Eduardo Catroga em aparecer ao lado de Teixeira dos Santos mostra a distância que o PSD quer mostrar da sua própria atitude. Isso vai ser mais difícil e soa a falso. Os 500 milhões de euros que faltam para atingir o défice prometido terão que ser encontrados.

 

A comunicação de Cavaco Silva de ontem foi tão inusitada como o seu discurso de candidatura. Precisamos muito da renovação geracional das nossas elites políticas.

 

Justificações

 

Miguel Relvas foi à televisão explicar as razões do PSD para a rotura das negociações. Não explicou nada mas também não é de espantar. As negociações foram uma forma de os dois partidos se justificarem perante as populações. O PS quis passar a mensagem de que estava totalmente aberto às negociações. O PSD quis passar a ideia de que agora terá muitas razões para votar contra o OE de 2011. Mas também deixou a porta aberta, invocando as pressões internacionais e a crise, para se abster. Na verdade, o PSD nunca mostrou como seria possível atingir o défice de 4,6% com as medidas que propunha.

 

Isto é jogo político. Não me parece que ao PSD interesse ficar com o ónus de provocar uma crise política. Aguardará, em pose sacrificial, até que seja possível dissolver a de novo a Assembleia da República. Portanto a erosão do governo e do PS durante os próximos meses é-lhe favorável.

 

Penso que o OE será viabilizado. Além disso, a desesperança dos mercados só nestas alturas é noticiada. Porque quando o governo anunciou a austeridade, os mercados reagiram bem no primeiro dia e reagiram mal nos dias seguintes. As regras especulativas não são tão lineares.

 

Mas o mais interessante é ouvir Manuel Alegre vociferar contra a Europa e as regras do Tratado de Lisboa, como se só agora as tenha descoberto.

 

O próximo Presidente da República

 

 

Cavaco Silva anunciou a sua já anunciada recandidatura. Cavaco Silva ama a pátria, é sério, honesto e frugal, economista, sabe muito de finanças, estudou e avisou os políticos dos seus desvarios. Se não fosse ele, já tínhamos sido engolidos pelo FMI. Claro que já se esqueceu daquele outro político que há cerca de 30 anos atravessa gerações a fazer política. Mas não faz mal. Como ainda por cima vai ser poupado na campanha eleitoral, porque a democracia está cada vez mais cara, lavam-se as manchas passadas com o brilho das virtudes do presente.

 

Cavaco Silva será o próximo Presidente da República.

 

Artesanato político

 

João Franco

 

Não é que seja novidade, mas é sempre importante assinalar: a esquerda parlamentar é composta por dois partidos que apenas servem para protestar. Quando é preciso assumir responsabilidades governativas, estes dois partidos excluem-se automaticamente.

 

A evidência a que nos rendemos, legislatura após legislatura, é que o BE e o PCP são uma espécie de artesanato parlamentar, uma representação popular tradicional, que preservamos como quem preserva as cavacas ou os bonecos de João Franco.

 

Rito da passagem

 

Leo Augustine: removed

 

Subimos a ladeira do cemitério. Vais a frente, o apoio do teu pai. Vejo-te de costas direitas, os músculos tensos, o cabelo arranjado e a roupa apropriada, nos ritos a que nos obrigamos. Sinto-te tão distante e tão perto, dentro da dor que só posso adivinhar e que temo, quando for a minha.

 

Percebo o esforço que fazem ao transportar o caixão. Como é possível se os ossos eram tão finos, a fragilidade tão evidente, o peso tão pouco? Olho para dentro e reconheço que estou a enterrar uma parte da minha juventude. Não lhe chamava tia, como agora é norma, mas de alguma forma, era mais que minha tia, porque era tua mãe.

 

Integração

 

Angela Merkel afirmou que o multiculturalismo falhou redondamente na Alemanha. Não concordo que o multiculturalismo tenha falhado, mas sim a inserção e integração de algumas comunidades nas sociedades ocidentais, principalmente a comunidade islâmica, e não só na Alemanha. Não vale a pena escamotear esta realidade e é perigoso usá-la como arma de arremesso político, à esquerda ou à direita.

 

Na verdade as nossas sociedades terão que observar e analisar o que correu mal, especificamente com as comunidades islâmicas, e estas terão que perceber que há também responsabilidades do seu lado. Integração pressupõe aceitação de valores dos países de acolhimento, observância das suas leis, idênticos direitos e idênticos deveres. Não se pode querer acabar com a discriminação religiosa e cultural para depois se usarem essas características para se reivindicar tratamentos diferentes.

 

Por outro lado, as sociedades de acolhimento terão que respeitar as diferenças, quando tal não colide com a legislação dos seus países. A exigência da aprendizagem da língua e da observância do laicismo do estado deve ser intransigente. A forma condescendente como se acolhem as populações imigrantes é o primeiro e mais forte sinal de xenofobia e o melhor incentivo para a guetização e afastamento da vivência comunitária.

 

A tabloidização da política

 

 

A política portuguesa rendeu-se à cultura massificada das telenovelas e dos reality shows.

 

Tal como no big brother, assistimos em directo e ao vivo às trocas de argumentos, às condições, propostas e sugestões de governação, às respostas e às decisões. É através de um comentador político que ouvimos o anúncio de uma candidatura presidencial, é num programa de  debate viciado que assistimos a ministros a defenderem-se das populações, a magistrados a fazerem justiça mediática.

 

Tal como nas telenovelas os líderes vivem os seus mandatos em juras de amor e ódio, ataques ao carácter e declarações de falta de confiança. As instituições democráticas deixaram de ser o cerne da vida democrática. Não há qualquer pudor em misturar o privado e o pessoal com o público e o institucional.

 

Também foi pela televisão que Passos Coelho disse nim ao OE, Paulo Portas disse não e Teixeira dos Santos aceitou, magnanimamente, a equipa de trabalho do PSD. Não sei se depois há verdadeiro trabalho nos bastidores, mas cada vez tenho mais dúvidas.

 

Quando pensávamos que a era de informação iria abrir a porta a mais cidadania, a mais participação pública e a mais responsabilidade, eis que nos apercebemos do exacto contrário. A discussão e o debate estão ao nível dos observados na Casa dos Segredos, e todos nós assumimos os papéis de Marcos e de Martas, de Júlias Pinheiros e  Teresas Guilhermes.

 

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