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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Liberdade e segurança (2)

Pino: Gypsy

 

Se qualquer cidadão do mundo tem o direito de procurar melhorar a sua vida, de se mover e escolher a seu local de acolhimento, também o estado que o acolhe tem o direito de exigir respeito pelas regras de cidadania.

 

E essas regras não têm apenas a ver com segurança. São regras de participação na sociedade escolhida. São as regras do cumprimento das leis, de todas, nomeadamente aquelas que dizem respeito à observação dos direitos das mulheres e das crianças. Não se pode permitir que haja crianças impedidas de ir à escola por motivos culturais. Não se pode permitir que as mulheres se submetam aos ditames dos homens por causa da sua etnia. Não se podem permitir crimes de honra. Não se pode permitir que cidadãos de um país não paguem impostos, que roubem, que enganem o estado e os outros cidadãos.

 

Pertencer a uma minoria, seja ela qual for, não é razão para discriminação do estado, mas também não pode ser razão para que o estado se demita das suas funções.

Voar

 

Tim & Rui Veloso

 

Eu queria ser astronauta,
O meu país não deixou,
Depois quis ir jogar à bola,
A minha mãe não deixou.

 

Tive vontade de voltar à escola,
Mas o doutor não deixou,
Fechei os olhos e tentei dormir,
Aquela dor não deixou...

 

Ó meu anjo da guarda,
Faz-me voltar a sonhar,
Faz-me ser astronauta,
E voar...

 

O meu quarto é o meu mundo,
O ecran é a janela,
Não choro em frente à minha mãe,
Eu que gosto tanto dela.

 

Mas esta dor não quer desaparecer
Vai-me levar com ela...

 

Ó meu anjo da guarda,
Faz-me voltar a sonhar,
Faz-me ser astronauta,
E voar...

 

Acordar meter os pés no chão,
Levantar, pegar no que tens mais à mão,
Voltar a rir, voltar a andar, voltar, voltar...
Voltarei...

 

Acordar, meter os pés no chão,
Levantar, pegar no que tens mais à mão,
Voltar a rir, voltar a andar, voltarei...

Pastéis de cerveja

 

Não tenho por hábito fazer recomendações de blogues. Não porque não haja blogues que leio e recomende, mas parece-me que a blogosfera também é o divertimento da descoberta.

 

Mas hoje vou propor à Ana Marques Pereira, que tem um excelente e original blogue, que se debruce sobre os excelentes e esquecidos pastéis de cerveja, vendidos numa pastelaria quase em frente aos badalados e omnipresentes (e maravilhosos) pastéis de Belém.

 

Se não os conhecem, provem. E poupam largos minutos em filas de espera.

 

Bom fim-de-semana.

 

Novela

Katharina Trudzinski

 

Desconheço

desconexo

descontente

de desgosto

desmotivo

o desmancho

desfaço

e descaso

descoso

o desmando

desautorizo

desmonto

o desdito

e desdigo

desgraço

e desligo

descaminho

descabelo

e desarmo

o novelo.

Navio

Claire Sherman:tree and dirt

 

Levantam o chão

de terra cinza pão

amassam a voz

de letras erva noz

amanham navios

avaros afagos vazios.

Liberdade e segurança (1)

Edouard Manet: Gitane à la cigarette

 

Não é fácil perceber o que se está verdadeiramente a passar em relação à expulsão de romenos de França. A manipulação política dos factos é óbvia e é muito fácil escolher um lado, assumindo valores de legalidade e segurança ou de liberdade e tolerância.

 

O problema é que estes valores não são, nem podem ser, mutuamente exclusivos. Os direitos humanos e a nossa ideia de uma Europa multicultural e multirracial não podem impedir que se zele pelo cumprimento das leis, pela inserção das comunidades migrantes nas comunidades que as acolhem, pela recusa do paternalismo condescendente, que é uma forma encapotada de racismo e de xenofobia.

 

No entanto, até onde irá a luta pela segurança e o apelo aos instintos mais primários da população, ao ligar a existência de comunidades nómadas, de emigrantes ilegais, ao aumento da criminalidade e do desemprego?

 

A política de emigração na Europa é cada vez mais restritiva, inventando-se argumentos que dificultam ou incapacitam a mobilidade dos cidadãos de países pobres que, legitimamente, procuram melhorar as suas perspectivas de vida. Além disso a existência de emigrantes no espaço europeu é crucial para o rejuvenescimento da população e para a sustentabilidade daquilo a que se convencionou chamar o estado social.

 

Por muito racional que se seja e que se compreenda a finitude dos recursos, a existência de inúmeras moles humanas sem trabalho nem raízes que constituem um problema grave para as sociedades ocidentais, esta racionalidade não pode ser sinónimo de deportações em massa. A liberdade de circulação, a possibilidade de sonhar e o direito que todos temos de lutar por um futuro, não podem ser negados em função de uma generalização de comportamentos agressivos e nocivos à nossa forma de vida.

 

A mistura de culturas, de raças, signifique esta palavra o que significar, de pessoas, é o melhor património da raça humana.

Crónica do abandono

 

Lago imenso e escuro, dia de nevoeiro, árvores que abanam, casa de pedra, usada, desleixada, roupas largas, gravidezes expostas, cigarros desfeitos, olhos enormes, cabelos desgrenhados, salas vazias, quartos pequenas, crianças que escutam, olhos enormes, lágrimas contidas, rugas de expressão, homens sem rumo, desamor, amor, velhice, sorrisos, querer sem querer, ter sem saber, esmagar, deitar fora, enganar, triturar, esperar.

 

Olhos enormes.

 

Recomeços

Portugal torna a pagar juros mais altos para se endividar. Esta é uma notícia que aparece nos jornais e que é dita nas televisões. Mas não se explica porquê. O que aconteceu agora, em Portugal ou no mundo, que tenha levado a um aumento de risco de financiar o país? Quais os motivos objectivos que fazem, mais uma vez, fazer tremer as contas em Portugal?

 

Parece que nada do que o país possa controlar, desde o défice ao endividamento, os PEC, as reduções de despesa, os aumentos de impostos, a consequente recessão com aumento do desemprego, a níveis assustadores e por longos e incontáveis anos, nada acalma os mercados, os especuladores, aqueles que decidem a nossa economia.

 

Os debates parlamentares continuam os passos de uma dança cansativa e sem ritmo, argumentando com clichés à esquerda e à direita. Vamos assistir à troca de acusações em volta de uma hipotética revisão constitucional e de um hipotético chumbo do orçamento para 2011.

 

Manuel Alegre deve estar a aperceber-se da estrondosa derrota que o aguarda. Cavaco Silva gere o melhor possível os vários e incómodos silêncios, quebrando-os com a deselegância de confundir política com má educação. Não me lembro de um Setembro tão cheio de desesperança como este.