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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Democracia em directo

 

Ouvir Jaime Gama elogiar José Sócrates desta forma, faz-me lembrar os elogios que fez a Alberto João Jardim, anos depois de o ter comparado a Bokassa.

 

Depois, os momentos de embaraço militante dos que resolveram abrilhantar o congresso com teses sobre sexo entre animais irracionais, ou cantar em honra de Edite Estrela.
 

Assim se discutem os problemas da Nação, do desemprego às políticas sociais, dos serviços públicos ao sindicalismo.

 

Boomerang

 

A forma que certas pessoas têm de desvalorizar os partidos e os congressos partidários na luta política não é mais do que desvalorizar a democracia representativa.

 

Tal como Salazar, casado com a Pátria e pondo o seu destino acima de qualquer coisa, tal como Cavaco Silva que fala dos interesses nacionais tratando os partidos como excrescências inúteis e perigosas, Manuela Ferreira Leite brandiu a arma da ausência de Sócrates numa reunião informal da EU, onde se fará representar por um Ministro de Estado, acusando-o de preferir ir a uma festa partidária.

 

Claro que o facto de haver 3 eleições em Portugal este ano, de o PS ser o maior partido português e de os congressos partidários servirem para eleger o líder e as moções políticas que serão, mais tarde, propostas ao eleitorado, não tem importância nenhuma.

 

Se há debate político ou não no dito congresso é da responsabilidade dos militantes do próprio partido e principalmente de quem se tem mostrado crítico às orientações de José Sócrates. A esses se devem pedir a apresentação de alternativas, que critiquem, no local de eleição, tudo o que consideram errado na política seguida até agora. Por exemplo, onde está Manuel Alegre e as suas críticas às políticas de direita deste governo e deste PS?

 

A unanimidade dos seguidores do líder, o não se questionarem orientações e soluções diferentes é muito empobrecedor para o país, ainda por cima numa época em que todos os contributos são indispensáveis, aí sim por um imperativo nacional. Mas para uns, o aplauso constante e acrítico poderá assegurar-lhes um lugar nas listas, um pelouro nas autarquias, seja ele real ou fictício. Para outros é muito mais fácil falar e ter atitudes de insubmissão partidária do que assumir as diferenças e confrontá-las com as teses da situação.

 

Também são interessantes as vozes que, triunfantemente, manifestam o seu regozijo pelo tratamento político que Sócrates deu ao caso Freeport, na abertura do congresso, dizendo que foi ele e só ele que transformou esse caso num assunto político. É uma enorme falácia e uma enorme hipocrisia. Este caso de justiça foi transformado em caso político por todos os políticos e por todos os comentadores. Ou já se esqueceram que todos acentuaram e dramatizaram o epíteto de assunto de estado que lhe deu o Presidente da República?

 

Sócrates está a transformá-lo em arma de arremesso, pela vitimização constante. Eu não gosto, acho mesmo detestável, até porque a demagogia que lhe está subjacente é óbvia. Mas Sócrates está apenas a aproveitar o que a oposição começou.

 

Nota: o Tomás Vasques faz uma leitura semelhante.
 

Populismo demagógico à esquerda

 

Francisco Louçã acaba de dizer na SIC notícias que não viabilizará um governo do PS e que não vê a política como um trajecto pessoal, mas como uma resposta de projectos.

 

Está a falar de homens e mulheres, da esquerda e do BE na próxima legislatura, que não negoceiam o que discordam e que vão assumir a política da esquerda grande.

 

Não consegue explicar quem vai concretizar os projectos – alguém? Será que o cargo de Primeiro-Ministro vai passar a ser um órgão colegial?

 

De facto é o vazio total do populismo asceta e iluminado. Não se percebe o que é que o BE deseja, quer, visiona ou prevê para o governo do país. Votar no BE é legitimar a irresponsabilidade da demagogia pura, por muito apelante que ela possa parecer.

 

Ataques de "grunhice"

As notícias mais divulgadas no Carnaval estiveram de acordo com a quadra. A apreensão de livros em que figurava uma foto do quadro L'Origine du monde, de Gustave Courbet, e a proibição de uma imagem de um nu feminino no monitor do “Magalhães”, num carro alegórico de Torres Vedras, é de um ridículo muito português, tal como a marcha das  “Mães de Bragança”, para citar só um exemplo.

 

O moralismo bacoco que se exibe e a hipocrisia atrevida da afronta dos nus femininos ou masculinos, é mais grave que a falta de conhecimentos de arte pictórica. Convenhamos que deve haver uma pequeníssima percentagem de pessoas, em Braga, Bragança, Vila Real de Santo António, Porto ou Lisboa, que conheçam a obra de Gustave Courbet.

 

O problema, tal como aponta Tomás Vasques, é o poder que qualquer pessoa que se sinta ofendida com um livro, uma estátua ou um monitor de computador tem, ao desencadear um ataque persecutório em defesa da moral e dos bons costumes.

 

Não se pode decretar o fim da grunhice, mas pode-se legislar sobre quem pode exercer o poder de proibir manifestações de alma, artísticas ou outras. Ou não?

 

(pintura de Gustave Courbet: L'Origine du monde)

 

Europa

 

Esperam-nos eleições europeias. A Europa tem, neste momento, a oportunidade de ser uma União de Facto, principalmente se decidir que, em conjunto, deve enfrentar a crise económica e financeira. As resoluções da cimeira de hoje, em Berlim, dão-nos alguma esperança.

 

Em Portugal teremos que decidir quem nos deve representar. PS e PSD, com a quebra da promessa de um referendo ao Tratado de Lisboa, não estão em muito boas condições. CDS/PP, BE e PCP sempre tiveram mais um casamento de conveniência com a União Europeia, do que uma verdadeira relação de amor.

 

Como decidir?

 

Notícias carnavalescas

 

Canonização do beato Nuno de Santa Maria - Aqui está uma notícia que nos deverá inspirar, segundo as palavras do nosso Presidente da República.

 

José Sócrates convidou Hugo Chávez para o Congresso do PS - Será que também convidou José Eduardo dos Santos, esse grande democrata de um país irmão? Ou foi mesmo só o MPLA?

 

(pintura de Ang Kiukok)

 

Jade Goody (1)

 

 

Pela primeira vez leio o nome de Jade Goody, uma mulher de 27 anos que está a morrer por uma neoplasia disseminada.

 

Esta mulher, que só agora conheci, deu muito que falar e que vender pela sua participação num Big Brother em que, pelo que li nos jornais online, a sua forma de falar, a sua falta de conhecimentos gerais e a história de uma infância desgraçada, foi um verdadeiro caso social a explorar pelos media.

 

Dessa efémera celebridade, que lhe deu fama e dinheiro para lhos tirar pouco tempo depois, com o escândalo causado por atitudes de índole racista que demonstrou no mesmo ou noutro programa semelhante, aprendeu a vender a sua vida, a sua história, a sua pessoa.

 

Até ao acto final, talvez mais íntimo e secreto que nascer, Jade Goody resolveu vender a sua doença e a sua própria morte, tentando desta forma garantir sustento para os filhos que deixa, ao apetite sem governo de uma sociedade que tudo vende e tudo compra, num espectáculo que já não tem fronteiras.

 

Se tudo vale, então ela aprendeu bem a lição. De tudo se valerá, até do seu próprio fim.
 

Barricadas

 

(pintura de Andrew Wyeth)

 

Há a tristeza de reconhecer
que rios de revolta nos uniam
naqueles dias serenos do amanhecer

momentos tão longínquos como a verdade
que se escapa em redondas palavras
em gestos estudados e banais.

 

Perdemos a frescura de acreditar em nós
enfrentamos medos diários
nos socalcos das fundas rugas
frágeis e sós barricados de gelo.
 

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