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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Obamania

Há algo que me desconforta em toda esta Obamania, em toda esta encenação de novo Messias.

 

Não há homens providenciais, muito menos que se sintam imbuídos de uma missão divina, jurando a Constituição sobre a Bíblia, so help me God.

 

Esperemos que Obama cumpra, com a sua equipa, aquilo em que acredita, com as fraquezas e as forças de uma pessoa que se propõe realizar uma tarefa bem difícil. Se não, a seguir a alguém que falava com Deus temos um enviado de Deus, so help us God.

 

Esclarecimentos encrespados

Depois de tantos comentários ao meu post anterior a defenderem Pedro da Silva Pereira na entrevista com Mário Crespo, suspeitei que me podia ter escapado alguma coisa.

 

Como gosto de me considerar uma criatura aberta às opiniões alheias e que não gosta de se sentir a cometer injustiças, além do preconceito que tenho contra o mesmo Mário Crespo (que fala duma forma enroladíssima, usando palavra esdrúxulas e desajustadas, que não pergunta, antes afirma, se conseguirmos compreender o que diz) e Pedro da Silva Pereira (que fala com um tom monocórdio e assume sempre um ar didáctico e de superioridade moral bastas vezes irritante), resolvi ouvir de novo a entrevista.

 

Realmente os comentadores têm razão. A entrevista não se destinava a esclarecer coisa nenhuma. O objectivo de Mário Crespo era (pelo menos disfarçou muito bem) entalar o Primeiro-Ministro e, na passada, abalroar Pedro da Silva Pereira.

 

Mário Crespo foi duro, como lhe compete, inquisidor, como lhe compete, defendendo uma posição, como não lhe compete, mostrando sem margem para a sua dúvida e a sua avalizada opinião que Sócrates recebeu luvas para autorizar o empreendimento Freeport.

 


De facto Pedro da Silva Pereira não lhe facilitou a vida pois desmontou uma por uma as várias teorias e certezas que têm sido veiculadas pela comunicação social. E Mário Crespo não conseguiu desmenti-lo em nada. A única vez em que o desarranjou foi quando perguntou se o ambiente daquele governo era propício à corrupção.

 

Embora agora compreenda o desalinho de Pedro da Silva Pereira, penso que fez mal em não ter mantido o mesmo registo (parafraseando Mário Crespo) nem a excelência dos argumentos (continuando a citar Mário Crespo). Mais uma vez o tom de ofensa soou a exagero e, por isso, contraproducente. Por muito insultuosa que fosse a pergunta ele deveria ter respondido, não se pondo de parte, como que a sentir nojo daquele assunto. A corrupção existe nas várias áreas de actividade política, económica e social e, independentemente das atoardas de Mário Crespo (agora cito Pedro da Silva Pereira), tantos tios, primos e primas parecem-me família a mais, para mal dos pecados de Sócrates. Ficaria melhor e mais genuíno que lhe respondesse que o ambiente talvez seja mais propício à corrupção no jornalismo, ou coisa semelhante.

 

Portanto aqui ficam as minhas desculpas públicas a Pedro da Silva Pereira, que foi claro e cilindrou Mário Crespo, com excepção daquela nota dissonante.

 

Mas continuo a não perceber como é que se aprovam empreendimentos deste tipo em governos de gestão. A explicação de Pedro da Silva Pereira não me satisfez. Não é ético nem sensato.

 

Espero ter respondido cabalmente aos comentários que muito agradeço (a excelência dos conteúdos…).

 

 

Más gestões

Francisco Louçã tem razão. Um governo de gestão nunca deveria aprovar projectos e empreendimentos do tipo de Freeport. Não sei se as leis devem ou não ser alteradas, mas são questões de ética e de senso político que os governos e os primeiros-ministros tendem a desconhecer.

 

Francisco Louçã também tem razão no que diz respeito aos paraísos fiscais, que facilitam lavagem de dinheiro e fuga aos impostos.

 

Pedro Silva Pereira fez uma triste figura ao responder a Mário Crespo que a pergunta que dele era insultusa. Sendo assim, nunca deveria ter aceite ser entrevistado. O problema não são as perguntas e as investigações jornalísticas. É o que se lhes segue, ou mais precisamente, o que se lhes não segue.

 

A nódoa da suspeita

Mais uma vez se prova o que de mais terrível e banal existe na nossa democracia: a ineficácia da justiça, o sentimento de impunidade de todos, o arrastar de lama para cima de quem fica dado como suspeito pela opinião pública, nunca se provando se de facto é culpado ou inocente.

 

Para mim a justiça não tem uma agenda política. Pura e simplesmente não tem agenda. Arrasta-se penosamente, de vez em quando mostrando fôlego de montanha que inexoravelmente acaba com sopro de rato.

 

Mas eu não acredito nas coincidências das agendas jornalísticas, das fugas de informação e das manchetes mediáticas que têm óbvios objectivos políticos.

 

Se há corrupção no caso Freeport, como nos outros casos todos do futebol, das facturas falsas, do bancos, das empresas camarárias, das imobiliárias, tenham eles responsabilidades políticas, empresariais ou não, devem ser acusados, julgados e condenados. Mas que o façam, de uma vez por todas, que nos seja devolvida alguma confiança neste sistema ineficaz e irreformável.

 

Se não todos nós estamos sujeitos a ser acusados na praça pública, com nobres ou reles intenções e nunca mais, por muito que tentemos, seremos capazes de lavar a nódoa da suspeita.

 

Longas sombras

Comecei este blogue no dia 5 de Novembro de 2005. Respondendo ao meu próprio desafio fui ver que notícias agitavam o país nesse dia, independentemente da que me incitou a iniciar o blogue – o anúncio da candidatura presidencial de Manuel Alegre.

 

Ao consultar o DN online desse dia cheguei à conclusão que se debatiam quase os mesmos assuntos que hoje se debatem.

 

Destaco algumas:


(…) Os bancos portugueses têm a percepção de que existe maior risco na concessão de crédito, mas mantêm os critérios na análise e atribuição dos empréstimos devido a "um aumento da pressão concorrencial". Esta é a principal conclusão do inquérito aos bancos sobre o mercado de crédito, em Outubro de 2005, realizado pelo Banco de Portugal. (…)

 

Já nesta altura se falava de facilitação de crédito, do aumento do crédito ao consumo, enfim, daquilo que agora afoga as famílias e o país. Durante estes 3 anos só piorámos e a tal bolha do crédito imobiliário não parou de subir.

 

(…) A Ford vai avançar com a supressão de 1000 postos de trabalho na Alemanha até ao final do ano, no âmbito do seu processo de reestruturação. (…)

 

A panaceia para a redução dos lucros de uma empresa dizimava mais 1000 postos de trabalho. Mas ninguém se espantava, todos achavam que o Mercado é que sabia.

 

(…) José Sócrates anunciou ontem que Portugal "permanece muito empenhado" no projecto de ligação à rede de Alta Velocidade ferroviária europeia, mas que as datas apontadas pelo Governo anterior serão revistas por apresentarem "um grande irrealismo". "Mantemos a intenção de fazer todas as [quatro] ligações com que nos comprometemos, mas vamos rever as datas" afirmou José Sócrates. (…)

 

Em Novembro de 2005 era José Sócrates a conter o ímpeto do investimento público em obras megalómanas do governo anterior, que queria que a primeira ligação feita por TGV estivesse pronta em 2009.

 

(..) Um dos objectivos do Governo francês e do seu ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, era erradicar essas economias paralelas. Mas uma política repressiva e as declarações polémicas de Sarkozy - que afirmou querer "limpar" os subúrbios da "escumalha" que os habita - apenas "picaram os líderes locais que incentivaram os jovens que aí habitam [a protestar nas ruas]", declara Paulo Marques, vereador na câmara de Aulnay-sous-Bois, uma das localidades afectadas pelos confrontos. (…)

 

Os confrontos nos bairros periféricos de Paris, autêntica guerra urbana, foram justificados pelas palavras incendiárias do então Ministro do Interior, hoje Presidente da República Francesa, na altura violentamente atacado politicamente. Já se seguiram os confrontos urbanos na Grécia e provavelmente seguir-se-ão confrontos noutras cidades, em que tentaremos encontrar justificações e culpados.

 

Será que passaram mesmo 3 anos e que estamos numa crise sem precedentes? É que parece que a crise, para nós, é ininterrupta.

 

 

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