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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Geneticamente modificados

Algo de estranho se passa nalgumas terras por onde passámos.

 

Limoges parecia um local abandonado à sua sorte (que deve ser pouca). Ruas desertas, poucos transeuntes, lojas fechadas, obras de melhoramento de estradas paradas. À volta da Catedral ninguém; o largo estava ocupado por um parque de estacionamento. Havia umas placas a indicar um percurso de visita turística à cidade, mas os museus estavam fechados (às 17:30h).

 

Hoje decidimos passar por Cognac, mais ou menos a meio caminho de Bordéus. Pois estava tudo deserto e fechado, com numerosas placas indicativas de fábricas de conhaque, com uma rota do conhaque que nós fizemos, para dar com os narizes nas portas.

 

Pelo caminho, áreas enormes cobertas por vinhas, muito bem alinhadas, desenhando verdadeiras paradas militares, a régua e esquadro. Havia também numerosos campos de girassóis, mais uma vez com estranhas particularidades. Estavam secos, quase sem pétalas, escondendo uma cara enorme e desolada do sol. De certeza que nunca vi girassóis assim. Se calhar eram geneticamente modificados.

 

Oradour-sur-Glane

 

Oradour-sur-Glane era, até 10 de Junho de 1944, uma aldeia a cerca de 25 Km de Limoges.

 

Nesse dia, e em retaliação pela captura de um militar alemão pela Resistência francesa, os militares alemães massacraram 642 pessoas, a quase totalidade dos habitantes da aldeia, depois de terem separado os homens, que mataram em praças e ruas, das mulheres e crianças, que mataram na igreja, onde as tinham encurralado.

 

Para além disso, deitaram fogo à igreja e aos corpos, numa tentativa vã de esconderem o massacre.

 

Essa aldeia, vazia de gente de um dia para o outro, foi deixada a desmronar-se, erguendo-se as suas ruínas à beira da estrada como um terrível e extraordinário memorial  do que significa a destruição da guerra.

 

Não há fotografias, filmes ou pesquisas na internet que substituam a presença num local como este. As casas esventradas, algumas janelas enferrujadas, por vezes utensílios de cozinha, carros amolgados, um silêncio cheio de vozes, gritos e sussurros dos fantasmas do passado.

 

Deveria ser obrigatória a visita a locais como este, espalhados pelo mundo inteiro, resultado das mais diversas guerras, umas mais antigas outras mais modernas, para que ninguém se esqueça do que é possível acontecer, daquilo que de inimaginável se torna realidade.

 

Oradour-sur-Glane - lembremo-nos.

 

Fromage blanc

 

Os franceses comem e bebem horrores, mas nem por isso há muita gente gorda. Segredos misteriosos que bem podiam passar às pobres criaturas que não podem comer, sob pena de rebolarem em vez de andarem.

 

Além de comerem e beberem muito e de cozinharem bem, têm uma verdadeira arte em descrever os pratos, de forma a deixar o comensal com as papilas a saltarem de antecipação. Até são capazes de vender uma sobremesa sublime, un fromage blanc, que não é mais que um iogurte natural, sem açúcar, natural branco e cremoso.

 

Por outro lado não perdem nunca a oportunidade de falar sobre comida e ingredientes. Hoje ouvi uma palestra sobre trufas, vários tipos e cores, raridades e forma de venda, cozeduras, preços e redução de peso (da trufa), porcos e cães de caça para desenterrar a trufa e javalis selvagens que comem a dita, enquanto comprávamos óleo de noz (pelos vistos excelente para as saladas e para a saúde, segundo Monsieur Teyssier, dono da charcutaria), paté de canard truffé e uma conserva de pêra em aguardente (de pêra).

 

A gruta de Lascaux

A gruta de Lascaux (Lascaux II), ao pé de Montignac onde, aliás, se compram os bilhetes, é absolutamente extraordinária. E uma réplica da original, aberta ao público em 1983, 20 anos após o fecho da verdadeira gruta, pela degradação acelerada das pinturas rupestres, encontradas por 1 cão e 4 rapazes , à boa maneira de uma aventura de Enid Blyton.

 

Temos direito a guia, em Inglês ou Francês. Mas como as visitas fecham à hora de almoço (tal como a pequena loja-museu que fica junto à entrada), das 12 às 14 horas, podemos sempre escolher a língua que melhor nos conforta o estômago.

 

É impressionante perceber que há cerca de 17.000 anos tenha havido membros da espécie homo sapiens sapiens capazes de pintar na pedra com aquele detalhe, aquele sentido das proporções, aquele conhecimento de cores e técnicas de pintura, de fabricação de andaimes para chegar ao tecto e à parte superior da gruta, de iluminação para poderem espantar a escuridão.

 

Apenas animais e uma única tentativa de pintura humana.

 

Deslumbrante.

 

(Gruta de Lascaux - unicórnio)

Périgueux

No restaurante Hercule Poireau, com uma entrada de oefs cocottes, que se transformou numa sopa de creme com ovo e presunto, acompanhada de um vinho tinto muito bom, depois de uma noite com ameaças de pedreiras renais a rolarem pelas encostas ureterais, foi uma entrada de estadão nas microférias, para curar de uma sobredosagem de novas classificações e descobertas electrizantes e estratosfércas no domínio dos linfomas, da citogenétca, dos doubles hits, do CISH, enfim, de gente iluminada que se farta de trabalhar para melhorar a saúde do comum dos mortais.

 

Périgueux é uma vila medieval lindíssima. Amanhã espera-nos mais canard, magret, foi gras, paté  e confit de canard, múltiplas variedades da charcuterie périgourdine, ou deveria mesmo dizer perigordina.

 

Sim porque ontem o jantar foi magret acompanhado de jazz, num restaurante que se chama... Canard-Jazz.

 

(pintura de Liza Hirst: Pérgueux)

O Estado como tal

Tal como hoje reconhecemos todos, alguns a contragosto, o fracasso do sistema comunista, deveremos reconhecer com a mesma honestidade o fracasso do capitalismo puro e duro, das leis de mercado sem controlo e da lei do lucro pelo lucro.

 

As sociedades precisam de um cimento para que sobrevivam como sociedades e esse cimento é o contributo que todos se obrigam a dar, num esforço comum para que haja coesão e solidariedade sociais.

 

A falência deste modelo está à vista com as intervenções que a administração americana estão a empreender, salvando da falência seguradoras privadas, cujos lucros fabulosos e distribuição de dividendos pelos profetas do mercado não evitaram o colapso e a ameaça de desemprego para milhões de pessoas.

 

O estado tem o dever de intervir para evitar uma enorme desgraça, assim como tem o direito de intervir para impedir as enormes assimetrias, a especulação e a mitologia do poder do dinheiro pelo dinheiro.

Flores novas

Trarei flores novas por entre os dentes, aos pés dos leitos por onde já passei. Lençóis de dor e fé, de início ou de fim, a mesma carne com ou sem estremecimentos.

 

Tantos olhos que por mim viajam, procurando respostas e esperança. A todos fujo, mesmo sorrindo e apertando mãos, mesmo que gele as certezas, que se me escapem as pedras inevitáveis.

 

Trarei flores tenras por entre os dedos, que enterrarei na terra que me não espera. Assim vou guardando o meu lugar, junto daqueles que já não estão.

 

(pintura de Jana Bouc: cemetery day)

Colheitas

[pintura de Janet Aly: Al Mumit (Bringer of Death)]

 

E nunca mais finda este Verão
de Outonos velhos
de invernosas colheitas de almas.

 

Atrás de mim caminham fantasmas
vão-se cortando as veias
da minha infância.

Fado Português

 

canta: Amália Rodrigues

(música de Alain Oulman; letra de José Régio)

 

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

 

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

 

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

 

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

 

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

 

 

canta: Dulce Pontes

(música de Alain Oulman; letra de José Régio)

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