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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da fraqueza

O mais triste da demissão de Correia de Campos é que quem a pediu clama agora que se viram sinais de fraqueza, quem a não queria ficou a saber que há fraqueza.

Tenho o maior respeito por Correia de Campos, que lutou por aquilo em que acredita, a remodelação e modernização do SNS, que prestou um serviço que não lhe reconhecem. Mesmo que em desacordo com algumas das suas medidas, mesmo não gostando dos seus modos desabridos e da sua queda para o disparate dizível, admiro-lhe a coragem e a frontalidade com que sofreu uma das maiores campanhas de assassinato político dos últimos tempos.

Desejo à Dra. Ana Jorge as maiores felicidades. Vai precisar de sorte, muita, assim como nós todos. Mas suspeito que as reformas estão condenadas, na melhor das hipóteses em banho-maria. A ordem deve ser acalmar as hostes.

Sócrates não actuou bem e demonstrou que o bem do país passou para um plano secundário. Agora quer ganhar as eleições.

Esquerda moderna

Gostava de saber exactamente o que significa ser da esquerda moderna.

Se ser da esquerda moderna é tentar transformar os serviços públicos em serviços de qualidade, exigentes e como o objectivo principal de servir o público, eu sou muito moderna.

Quais os motivos porque há descontentamento no PS em relação às políticas governamentais, que não aceitam essa fórmula de esquerda moderna?

Fazer reformas na segurança social e no sistema de reformas e pensões de forma a torná-la sustentável, garantir que ela continue a existir e a proporcionar um rendimento a quem chega ao fim da sua vida laboral, partindo do princípio da solidariedade entre as gerações, usando os impostos que se pagam?

Fazer reformas no sistema de educação com mais exigência sobre os agentes educativos, começando pelo combate ao absentismo, pela avaliação do desempenho dos professores e educadores, pela instituição de exames nacionais que controlam as aprendizagens e colocam todos os alunos e todos os professores em situação de igualdade, deslocando o objectivo da escola para a luta contra a indisciplina, contra a formação de guetos, contra o desinvestimento nos alunos com mais dificuldades, contra os tempos não aproveitados para investir na aprendizagem, pela concentração de recursos públicos e melhoria das condições de acesso a escolas com melhores condições?

Fazer reformas no sistema de saúde tentando tornar mais eficientes os serviços que existem, reorganizando e concentrando meios técnicos e humanos que garantam melhor qualidade de assistência, controlando o cumprimento dos horários dos seus funcionários, investindo nos cuidados de saúde primários e em atendimentos de situações agudas, reduzindo e melhorando os serviços de urgência e de emergência para aquilo que deverão estar verdadeiramente vocacionados, investindo na centralização da distribuição e aconselhamento de recursos, em redes de transportes especializados?

A esquerda moderna é deixar tudo com estava? Isso é que é ser socialista?

O investimento na exigência e na igualdade de tratamento e de oportunidades, independentemente da cor, da raça, do género, da classe social, do local de nascimento e residência, ao contrário do paternalismo para com as populações que precisam de ter a ideia de um acompanhamento de proximidade para se sentirem seguras, é o contrário de quem pugna pelas ideias socialistas.

Qual o objectivo da chamada ala esquerda do PS o colocar em causa estas reformas, acusando o governo de insensibilidade social? Quais as alternativas que propõem? Manter o SNS como está? Não mexer no sistema educativo ou manter a filosofia anterior, que ninguém sabe exactamente qual é, cujos resultados estão bem à vista?

E no sistema de pensões? Quais as alternativas socialistas e esquerdistas dessa ala mais progressista? E em termos económicos e de reforma da administração pública, o que fazer, concretamente, reduzir os funcionários públicos ou não; redistribuí-los e colocá-los onde eles faltam ou não? Como podemos reduzir a despesa pública? Ou não precisamos de o fazer?

É que, para mim, e por muito que me enervem as arrogâncias de Sócrates, aquela voz autoritária e os sorrisinhos desajustados de Correia de Campos, são políticas e alternativas que eu espero conhecer dos oponentes a esta forma de governar.

Frases bonitas e boas intenções todos temos, mas é preciso que digamos como vamos conseguir essas melhorias, essa manutenção das conquistas de Abril.

Era bom que nos deixássemos de retórica e discutíssemos o que de facto está em causa. Quais as opções da ala esquerda do PS, corporizada por Manuel Alegre, Helena Roseta, Maria de Belém, Ana Benavente, Constantino Saklarides, Manuela Arcanjo, e outros? Era muito bom que se discutissem seriamente estas matérias e não se caísse em populismos, porque os há de direita, de esquerda, do centro, corporativistas, e de todos os tipos.

Há muita coisa a mudar. O PS precisa de discutir as alternativas no seu interior, mas com seriedade. Apontar todos os dias as desgraças que se passam nas urgências, nas consultas, que já se passavam há anos, mas que só agora foram descobertas, e ouvir o Bastonário da Ordem dos Médicos dizer que nos sítios onde não há articulações da rede das urgências e emergências pré-hospitalares deveriam ser reabertos os SAPs, como se ele não tivesse obrigação de saber que em nenhuma daquelas circunstâncias a existência de SAPs modificaria alguma coisa, como se ele não tivesse obrigação de saber que a descoordenação e a falta de meios já existe há muitos anos, é triste, desencorajador, e dá vontade de desaparecer.

Porque assim, nem com alas esquerdas, direitas ou centrais, iremos a lado nenhum. Estamos condenados a recomeçar de 2 em 2 anos, mais desencorajados e mais incrédulos, mais velhos e descrentes na existência de boa fé de parte de quem nos manipula e nos convoca as emoções.

Coração hiperactivo

Gosto de andar sozinha, no carro, devagar, até à beira rio.

Gosto de me misturar com a gente que formiga no CCB, à frente dos Jerónimos, pelos jardins, gente com tempo de sábado, com faces tranquilas de quem descansa ou de quem descobre.

Gosto de observar os velhotes e as velhotas, de barretes e cachecóis, de cores sóbrias ou berrantes, entre jovens sem frio mesmo que o sol desapareça a o ar corte, eles em mangas de camisa, magros, esbranquiçados, de barbas ralas, elas de pescoços longos, casacos cintados e cinturas descidas. Uns falam, outros riem, outros calam. Há diálogos interiores e monólogos exteriores.

Gosto de olhar posters, quadros, cadernos, canetas, objectos bem desenhados, de papel, cartão, madeira, metal, com fins precisos ou apenas pela beleza dos contornos, das cores, pela ideia de quem os inventou.

Gosto de deambular sozinha, por entre o mundo que gira sem me ver, sem me ter, sem me querer, anónima e livre.


(Galeria Arte Periférica: Alexandra Mesquita: “corações com mau feitio” - coração hiperactivo)

Ruído de fundo

Sobre esta notícia do DN de hoje, vale a pena ler algumas considerações de Tomás Vasques.

A governação Socrática tem tido vários casos de autismo, de incumprimentos de promessas eleitorais, de tiques de arrogância e autoritarismo.

Em tudo isto o PS responde dando vivas ao mestre, sorrindo em contínuo, justificando o injustificável e descansando numa maioria absoluta. Dentro do partido está tudo lambuzado e satisfeito.

Pois seria melhor que acordassem da modorra e iniciassem as discussões ideológicas e a luta pelas próximas eleições, em vez de olharem desdenhosamente para a oposição partidária que não existe, em vez de agitarem as águas com o perigo de um novo partido liderado por Manuel Alegre. É dentro do PS que tem que haver discussão.

Por outro lado, há uma oposição torpe, populista e demagógica que assentou arraiais à porta dos hospitais, das urgências e dos centros de saúde, para a campanha feroz que se arrasta já há alguns meses para a demissão do ministro da saúde.

É bom que não nos esqueçamos destas campanhas mediáticas, que parecem demonstrar que estamos no início do apocalipse. Há algum tempo era o problema das Juntas Médicas que obrigavam professores com cancro a trabalhar, não lhes dando as reformas que mereciam. Com o mesmo rigor com que se tratam sempre estes assuntos na comunicação social, e com o mesmo barulho com que se anunciam mortes de bebés pelo fecho de SAPs, quedas de macas em meio hospitalar, falta de formação de bombeiros e escassez de médicos e enfermeiros, como se tudo isso, por muito horrível que seja, só acontecesse desde que este ministro começou a reestruturar as urgências e a fechar blocos de parto, com a mesma rapidez e superficialidade, deixou de haver problemas com as Juntas Médicas. Acabaram as Juntas Médicas? Passaram a reformar toda a gente? Deixaram de perseguir os professores?

Também me lembro das manifestações das populações indignadas contra o fecho das escolas do ensino básico com muito poucos alunos. O que se passou entretanto? Não seria de tentar perceber se os transportes para as crianças apareceram, se as escolas onde foram colocadas as tratam bem, têm boas condições, cantinas, etc.? Os encarregados de educação fazem uma avaliação positiva ou negativa? E o poder local?

É muito fácil levantar acusações, falar indignadamente da corrupção, dos políticos, dos governantes, das figuras públicas, fica bem no figurino. Mas tentar ir ao fundo dos problemas, ter perseverança, perseguir objectivos e ideias, assumir as responsabilidades do que se diz e do que se faz, é muito mais difícil.

Não sei se o Bastonário da Ordem dos Advogados tem razão, se calhar até tem, mas levantar suspeitas sobre tudo e sobre todos sem especificar, é demagógico e não adianta nada. Este país vive de suspeitas e de insinuações. O estado de direito é uma farsa alimentada pelos seus próprios agentes.

Mas assim temos mais umas horas de notícias, de acusações subtis e subliminares, de grandes comentários por grandes comentadores. Faz-se mais um pouco de ruído.

Adenda: ouvi as declarações de Marinho Pinto à SIC Notícias. Foram casos concretos e não vagos. Já são conhecidos e ninguém actuou - porque não há motivos para actuar? Porque ninguém quis averiguar? Sabe ele mais qualquer coisa? A denúncia pública é importante, mas não basta, pelo menos não tem bastado.

Ladainhas

A utilização e generalização da unidose e da prescrição por denominação comum internacional (DCI) é das tais coisas que são tão obviamente necessárias e benéficas, para os doentes e para o estado, não tanto para a indústria farmacêutica, claro, que é patético o esforço que o PS fez na Assembleia da República para demonstrar que aquela iniciativa do CDS era demagógica.

Claro que é demagógica mas não pela bondade da ideia. Aliás não me lembro do CDS ter tido essa iniciativa quando esteve no governo, e não foi assim há tanto tempo. Mas a culpa é apenas e só do PS que ainda não regulamentou uma lei que está aprovada desde 2006. Que espera? A ladainha dos estudos já não se aguenta. O que parece é que interesses que se sobrepões ao interesse dos cidadãos e do estado.

O mundo não tomba

Após acalorada discussão com uma amiga, com ideias perfeitamente opostas em relação ao significado das medidas da política de saúde, ambas defensoras acérrimas do SNS, interroguei-me com grande incredulidade como é que uma pessoa inteligente e conhecedora como ela não conseguia ver clara a verdade.

Ao telefone assegurou-me ela que tinha pensado exactamente o mesmo, como é que uma pessoa inteligente como eu (palavras dela), podia acreditar em tão óbvios disparates.

Concluímos ela que eu era idealista, eu que ela era contra a mudança. Mas o mais espantoso de tudo e o mais interessante foi a frase com que ela acabou a conversa: Por isso é que o mundo não tomba.

Ciência a sério

Passei a última 2ª feira fascinada, orgulhosa, interessada e esperançada em tudo, na ciência, na juventude, nas ideias, na perseverança de as provar, na qualidade espantosa de algumas pessoas que temos o privilégio de ouvir, uma ou duas vezes, de nos embalar no seu entusiasmo e inspiração.

Vem tudo isto a propósito de um simpósio a que assisti, no IPATIMUP, na inauguração de mais um Programa Graduado em Áreas de Biologia Básica e Aplicada, cujo tema foi a capacidade das células cancerosas se moverem, os caminhos abertos para a invasão, a importância do micro ambiente em que se desenvolvem os tumores e as possibilidades terapêuticas que se abrem, ao perceber que as células se podem comportar de uma forma maligna, mesmo sendo normais, ou de uma forma benigna, mesmo tendo inúmeras anomalias genéticas, dependendo da normalidade ou anormalidade do seu tecido de sustentação, da sua matriz extra-celular. Foi realçada a importância da manutenção da estrutura normal de cada tecido diferente pois, como dizia uma das investigadoras presentes Mina J. Bissell, as células do nariz têm que se lembrar que são células do nariz, assim como as das glândulas mamárias têm que se lembrar de secretar leite.

Pois se todos os biliões de diferentes células têm a mesma informação genética que o zigoto, a célula primordial, deverão ser factores ambientais que interagem com as células e induzem a diferenciação em diversas direcções. Dito por geneticistas o fenótipo é mais importante que o genótipo.

Foi um vendaval cerebral sobre as fronteiras que vão sendo desbravadas, na companhia dos melhores investigadores nacionais e internacionais. Quando nos lamentamos tanto da pequenez e mediocridade do nosso país, é bom que saibamos que temos muito de que nos orgulhar. E muito para pensar e fazer.


Extrapolando para a metafísica e para a filosofia, até com leis matemáticas de permeio, a estrutura tridimensional da natureza repete-se, desde o micro ao macro universo.

Adenda: vale a pena ler este excelente artigo do Público de 23/01/2008, no P2, de Andrea Cunha Freitas

  • "Quero ser um exemplo para os jovens"
    Se a ciência projectasse alguém como acontece no meio artístico, esta mulher seria uma estrela. Apresentamos-lhe Mina J. Bissell, uma referência em muitos sentidos da vida, que se revelou no estudo do cancro da mama.
    Tinha 18 anos quando saiu do Irão para os Estados Unidos, para estudar. Pouco depois, era uma das três mulheres no grupo de 200 homens que entrava no curso de Medicina em Harvard. Engravidou cedo e, apesar das vozes que profetizavam o fim da sua carreira de investigadora, provou que todos estavam errados. Algo, aliás, que é quase a sua marca. Na ciência fez o mesmo: quando todos escolhiam o popular caminho do estudo dos genes para descobrir as forças e fraquezas do cancro, Mina J. Bissell concentrou-se no que estava à volta das células - a chamada matrix extracelular (ECM). Passados 30 anos, continua do lado oposto aos
    "viciados em oncogenes" e a sua tese foi cientificamente validada. Sem modéstia, diz que gostava de ser um exemplo para os mais novos. Em várias vertentes.
    Conquistou a plateia da conferência que fez, segunda-feira, no Porto, em poucos minutos. A confissão de simples limitações, como a dificuldade de gerir ao mesmo tempo um microfone, um apontador e outro aparelho que servia para mudar os slides, e a sua desarmante franqueza - quando quis controlar a iluminação na sala mandando acender umas luzes e apagar outras, admitiu que estava habituada a dar ordens - fizeram com que a simpatia se juntasse à admiração entre pares. Todos sabiam estar perante uma referência no mundo da ciência, mas encontraram também uma mulher especial. Mina J. Bissell não desiludiu.
    Na apresentação da palestra, Alexandre Quintanilha, director do Instituto de Biologia Molecular e Celular, já tinha avisado:
    "É possivelmente a oradora que profere as melhores conferências a que teve oportunidade de assistir." A cientista Maria de Sousa alertou, mais do que uma vez, que estávamos perante "uma mulher excepcional" e Manuel Sobrinho-Simões confirmou: "É única." Quem pesquisou algo sobre ela - "cabeça de cartaz" do simpósio que marcou anteontem o lançamento da edição de 2007/2008 do GABBA (Programa Graduado em Áreas de biologia Básica e Aplicada) - encontrou uma longa lista de elogios. A entrevista à Incyte Genomics publicada na Mina"s Page do site do seu laboratório, por exemplo, começa com a seguinte frase: "Mina J. Bissell gosta de correr riscos." A da revista Nature com a afirmação: "Poucas coisas assustam Mina Bissel." Em todas as apresentações fala-se na audácia da cientista que fez questão de ir contra as correntes dominantes e até há já quem a aponte como forte candidata a um Prémio Nobel. A sua vida privada mistura-se com a carreira científica e, em ambos os casos, todos lhe reconhecem o mérito. E ela sabe disso.
    "Quero ser um exemplo para os mais jovens. Uso-me como exemplo em mais do que uma vertente. Como mulher, como estrangeira que foi para os EUA, como esposa e mãe, como cientista e como alguém que resistiu perante muitas adversidades", disse ao P2 no final de um longo dia de trabalho, que terminou com a atribuição do seu nome a um prémio de excelência de carreira. "Nem nos meus sonhos mais delirantes alguma vez pensei que iria ter um prémio com o meu nome. É uma honra enorme. Penso que pode ser uma inspiração para os mais jovens", agradeceu a cientista que pediu apenas uma correcção no título do galardão: "Em vez de prémio Bissell, pode ser Mina J. Bissell? É que Bissell é o nome do meu marido - que amo muito - mas gosto de preservar o J. de solteira. É uma parte do que sou."
    "Confiem no vosso instinto"
    Antes, no mesmo palco, tinha feito outro apelo mas, desta vez, com um entusiasmo contagiante e dirigido à plateia maioritariamente composta por jovens estudantes e investigadores: "Confiem em vocês. Pensem sempre out of the box. Não ouçam os vossos professores, não liguem ao que eles dizem, ao que eu digo, ao sistema. Confiem no vosso instinto. Se não conseguirem financiamento - como eu não consegui durante 15 anos -, não se preocupem. Mais tarde ou mais cedo, verão que vale a pena. Têm só uma vida, aproveitem-na bem." Mina J. Bissell já tinha dito numa entrevista que valorizava muito mais alguém que lava pratos do que um aluno de doutoramento que não é apaixonado pela sua investigação. "O que é preciso é encontrar algo que se goste muito de fazer e fazê-lo bem."
    Mina J. Bissell gosta muito do que faz no Laurence Berkeley National Laboratory, um edifício em forma de seio (segundo a própria assinalou) com vista para a Golden Gate Bridge, em São Francisco. Só alguém assim seria capaz de comparar a imagem de uma glândula mamária de um rato aos "ramos de uma árvore no Outono", como fez anteontem na conferência. Ou falar como falou sobre o seu trabalho. A cientista quis explicar como o contexto é importante, determinante mesmo, no cenário do cancro da mama. Uma polémica tese que, desde o início, contrariou a tendência para se focarem as atenções nos genes. Numa altura em que a regra era clonar e sequenciar genes, Bissell olhava para o que estava à volta. Ainda hoje é assim. Enquanto desenvolvia a sua abordagem centrada no valor da matrix extracelular (o complexo ambiente que está à volta de um tecido vivo) e da estrutura tridimensional das células e resumia 30 anos de investigação a uma intervenção de menos de uma hora, Bissell mostrou como sente o que faz. Incrível, espantosa, fantástica, inacreditável, maravilhosa... foram palavras que usou para comentar um slide ou descrever um avanço da sua equipa.
    No Porto, Mina J. Bissell revelou também as suas capacidades como divulgadora científica, usando imagens e palavras simples para explicar o complicado. Admitiu que as células conversam entre si mas também com o seu ambiente exterior e vice-versa, num modelo de reciprocidade dinâmica. Uma conversa que se faz mediante a troca de variados sinais, bioquímicos e mecânicos. Lembrou que todos os genes têm um recepeor de informação na sua matrix extracelular. Por isso, é que apesar de termos a mesma informação genética (genótipo) numa célula que encontramos no nariz ou num dedo, elas adquirem funções diferentes (fenótipo). Por isso, é que somos um milagre. Num mergulho nas pesquisas mais recentes, mostrou como estas premissas servem para perceber as transformações ocorridas com um cancro, como o crescimento e malignidade dos tumores são regulados pela organização e arquitectura dos tecidos. E mostrou casos onde manipulou o diálogo entre células e ambiente externo, de forma a conseguir assistir a uma reversão de um tumor. Por fim, insistiu que estudar as células a duas dimensões num pratinho de laboratório é algo arcaico e que o recurso a uma perspectiva 3D pode ser útil para determinar o tipo de tumor.Irreverência contínua.
    Já foi dito, Mina gosta de correr riscos e assusta-se com pouca coisa. Um traço que a segue na carreira mas também fora dela.
    "Muitas pessoas vêm ter comigo e perguntam se não é maravilhoso ter tido a oportunidade de fazer isto nos EUA, fora do Irão. É errado. Eu fiz o que fiz precisamente por ser do Irão. Isto porque o Irão sempre foi aberto a que as mulheres fizessem coisas. Mesmo hoje." Apesar de reconhecer que beneficiou do facto de pertencer a uma família de classe média/alta, Bissell sublinha que sempre foi incentivada a pensar e discutir. Gostava de discutir política com o pai e hoje continua a preocupar-se com esses assuntos. "É importante que as pessoas sejam intelectualmente honestas. É muito importante que combatam as ditaduras. As ditaduras assumem muitas formas... nos EUA falamos muito em libertar os outros mas vamos lá destruir os seus países. Acho isto patético." E continua: "Se lermos bem o que se tem passado, vemos que eles tentam controlar tudo." Mesmo a ciência? "Mesmo a ciência. Mudaram a cara da ciência." Impressionada por Hillary Clinton mas confessando-se também seduzida por Barack Obama, Mina J. Bissell atira a cabeça para trás e arrasta a vogal para sublinhar que qualquer um deles seria melhor do que George W. Bush por uma "enooooooorme margem". Diz que estas posições a podem "meter em sarilhos" mas frisa que esta é a sua opinião desde o primeiro dia deste "regime" - e cita a "manipulação dos juízes", a situação dos prisioneiros, etc - e que a verdade começa agora a ser conhecida. No fundo, a conclusão política aplica-se ao que conquistou também com 30 anos de carreira científica. Na conversa com o P2 defende ainda as mulheres que conciliam a carreira com a vida familiar, conta que pediu para que o seu nome fosse retirado de uma lista de possíveis candidatos a Nobel divulgada no Irão - "acho que estas coisas não acontecem tão facilmente e o comité do Nobel não gosta de ser pressionado". E conclui: "Isso também não me interessa. Tive uma carreira científica fantástica. Já disse isto mas repito: se tivesse outra vida, trabalharia para a paz. Sinto-me muito abençoada na minha vida, mas acho que o que o mundo de facto precisa é de paz."


(árvore de Fibonacci)

Petições - a defesa do SNS (2)

Já conheço o texto da petição:
  • Em defesa do Serviço Nacional de Saúde geral, universal e gratuito
    To: Presidente da Assembleia da República.
  • A actual política de saúde, em especial o encerramento de serviços e o corte de despesas necessárias ao seu bom funcionamento, tem degradado o Serviço Nacional de Saúde: o acesso é mais difícil e a qualidade da assistência está ameaçada.
  • O SNS é a razão do progresso verificado nas últimas décadas na saúde dos portugueses. Ao serviço de todos, tem sido um factor de igualdade e coesão social.
  • Os impostos dos portugueses garantem o orçamento do SNS e permitem que a sua assistência seja gratuita. Não é legítimo nem justificado exigir mais pagamentos.
  • Os signatários, reclamam da Assembleia da República o debate e as decisões políticas necessárias ao reforço da responsabilidade do Estado no financiamento, na gestão e na prestação de cuidados de saúde, através do SNS geral, universal e gratuito.
    Sincerely,
    The Undersigned

Todos os males desta política, ou o resumo desta política que desmantela o SNS está na primeira frase, com a qual não concordo.

A actual política de saúde, em especial o encerramento de serviços e o corte de despesas necessárias ao seu bom funcionamento, tem degradado o Serviço Nacional de Saúde: o acesso é mais difícil e a qualidade da assistência está ameaçada.

O resto do texto é uma verdade universal, com que todos estão de acordo.

Confesso que esperava mais, melhor e mais específico. Para mim esta petição é um conjunto de frases bem intencionadas. Como pedir para acabar com a fome no mundo e com a exploração do trabalho infantil. Sonante, bem intencionado e... vazio.

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