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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Travessia

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver

(Milton Nascimento & Fernando Brant; canta Milton Nascimento)

Canción de las simples cosas

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,
lo mismo que un árbol en tiempos de otoño muere por sus hojas.
Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,
esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.

Uno vuelve siempre a los viejos sitios en que amó la vida,
y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Demórate aquí, en la luz mayor de este mediodía,
donde encontrarás con el pan al sol la mesa servida.
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.


(Armando Tejada Gómez
& César Isella; canta Mercedes Sosa)

Mau negócio

Gostaria de ter visto, ou ouvido, ou lido, alguns dos que apressadamente concluíram a existência de obscuros e lucrativos negócios entre o governo e as entidades privadas de saúde, na altura em que se noticiou a reorganização das urgências hospitalares, comentarem esta notícia do DN.

Afinal o negócio não é assim tão bom para os privados. Pelos vistos eles não tencionam investir nessas zonas. Até as Misericórdias vão ponderar.

Se a reorganização do serviço público está a ser ou não bem feita, é discutível. Agora os seus objectivos não me parecem assim tão tenebrosos e tão favoráveis aos interesses privados, como alguns anunciavam.

Rituais

No cuidado com que escolheu a garrafa de champanhe, a carne tenra para cortar em cubos e misturar nos molhos mais variados, os vários tipos de alface, a ideia para a sobremesa, apercebeu-se de que os rituais, por muito que não lhes ligasse importância, reclamavam a sua hora.

De um segundo para o outro iria saltar um ano. Até conseguiu antecipar um frémito de emoção quando, no primeiro dia do próximo ano, se instalasse confortavelmente no sofá para assistir a outro ritual: o concerto de ano novo.

Desejou intimamente que o ano a iniciar brilhe e que traga um novo fôlego para o dia a dia.

Balanços

Eu sou apologista de fazer balanços. Penso mesmo que é inevitável. Podem utilizar-se datas certas ou irregulares, fazer balanços cíclicos ou esporádicos, mas todos nós fazemos balanços dos mais diversos aspectos da vida, diariamente, pois é assim que tomamos decisões.

Para mim este ano que passou foi de grandes mudanças e emoções. Difícil mas estimulante, acabaram-se umas coisas e começaram-se outras.

Se calhar quem mudou mais até fui eu. Temos tendência a atribuir as alterações da nossa vida a estímulos exteriores, mas a verdade é que nós também mudamos a forma de olhar e valorizar os acontecimentos, as pessoas, a importância e prioridade dos primeiros, os valores e princípios das segundas.

As mudanças fazem-se após momentos de crise e revolução interior. Em nós, em termos orgânicos e comportamentais, tal como nas sociedades que construimos e conservamos.

Talvez o país vá mudar, pois está já em crise há demasiado tempo. Quem sabe se 2008 não será o ano da verdadeira, radical, estimulante e esperançada mudança?


(escultura de Ron Whitacre: balance)

Agitação

Continua a manipulação política e jornalística em volta dos encerramentos dos Serviços de Atendimento Permanentes (SAPs).

Às notícias que dão conta das contas que os doentes terão que pagar aos bombeiros voluntários para ir à urgência mais próxima, não há ninguém que pergunte se os valores não serão idênticos aos que eram pagos quando os doentes que verdadeiramente necessitavam de cuidados de urgência tinham que ser enviados para o hospital. E também ninguém pergunta quantos doentes verdadeiramente urgentes eram atendidos nos SAPs e quantas situações verdadeiramente urgentes eram tratadas nos SAPs.

Porque essa é a verdadeira questão. Se as populações com os SAPs abertos toda a noite, com um médico e/ou um enfermeiro num local sem capacidade para resolver problemas urgentes de saúde estavam mais bem atendidos ou teriam melhor qualidade e maior brevidade no atendimento.

Se os milhões de euros que se poupam servem para financiar a abertura de Unidades de Saúde Familiares, investindo no aumento da capacidade de atendimento das pessoas doentes, sem que elas necessitem de recorrer a um serviço de urgência, investindo em ambulâncias com suporte básico de vida, bem apetrechadas, rápidas e com pessoal formado, é o que se pede a um ministro e a um governo responsáveis.

Esta reorganização estava agendada e decidida, apoiada por relatórios que, de início, foi incontestada tecnicamente e que, agora, é contestada de uma forma demagógica e populista.

Chega-se ao ponto de se dizer que Arlindo Carvalho teria afirmado que reabriria as urgências que estão a ser encerradas quando, EU OUVI, ele apenas disse generalidades sobre reaberturas dos processos e reavaliações sobre o que se estava a fazer, não se comprometendo nunca a alterar fosse o que fosse.

Em Portugal é preciso é agitar as massas com generalidades gritantes e que movimentem muitos braços, muitas línguas e muitos corações, que alimentem ares indignados, espantados e circunspectos. A realidade é outra coisa muito mais desinteressante.

Aniversário

Somam-se folhas no romance que criamos
cavam-se rugas merecidas
abrem-se feridas beijam-se feras
costuram-se almas desfiguradas.

Pelo uso e desuso pelo tempo que perdemos
colamos cacos que desfizemos

e no fim dos dias descansamos.


(pintura de Eric Wakefield: birthday paintings - roger's cake)

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