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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Excertos dos Diários de Adão e Eva

A propósito deste post, com um texto de Yvette Centeno que fala de corpos e almas, da fusão dos corpos e das almas, lembrei-me de um maravilhoso livro de Mark Twain que há uns anos foi traduzido e publicado em Portugal, pela editora Cavalo de Ferro, que se intitula Excertos dos Diários de Adão e Eva (Extracts from Adam's Diary, no original).

É um livro cheio de ternura e de uma sábia serenidade. Deixo apenas a frase que encerra os diários, escrita por Adão: Onde quer que ela estivesse era o Éden.

O livro está esgotado na Cavalo de Ferro, mas há uma outra editora que apostou nele: Coisas de Ler - O Diário de Adão e Eva.

Imperdível.

Big Brother Bancário

Sugiro ao BCP e ao BCI, e a outros bancos que se queiram associar, que resolvam os problemas das fusões amigáveis, OPAS hostis e outros assuntos importantes, participando num Big Brother Bancário.

A RTP poderia ser o canal responsável pelo concurso, com a Fátima Campos Ferreira no papel de Teresa Guilherme. Para a Casa poderiam convidar o Jardim Gonçalves, o Joe Berardo, o Fernando Ulrich, Filipe Pinhal, Paulo Teixeira Pinto, Paula Teixeira da Cruz, Vítor Constâncio, Ana Gomes, António Carrapatoso, Ricardo Salgado, Helena Roseta, Carlos Ferreira, Santana Lopes e António Pinho. Enfim, também poderiam ir a Maria Barroso e claro, a Ana Maria Lucas, para fazer uma certa ligação com os outros concursos, e para ambientar os novos concorrentes à Casa.

Depois os espectadores votavam todas as semanas, expulsando regularmente um dos concorrentes. Quem ganhasse, ficava com tudo.

Era muito mais interessante, e seguramente mais produtivo, tratar dos negócios da banca assim, tudo às claras, tudo ao sol, tudo na TV.

Escutas e SIS

Sou totalmente ignorante no que diz respeito a serviços de informações de segurança (SIS), portugueses ou outros, mas gosto imenso de ler livros e de ver filmes de espionagem.

Por isso, na minha total e absoluta ignorância, acho extraordinário o coro de protestos que se levanta quanto à possibilidade de se utilizarem escutas telefónicas pelo SIS.

Então não são utilizadas? Deve ser mesmo o único país o mundo que não utiliza escutas telefónicas para prover à segurança e vigilância dos cidadãos, principalmente em época de tanto terrorismo.

Claro que isto é só extrapolando da ficção para a realidade. A imaginação dos realizadores e os escritores é imensa e nem é costume basear-se em casos reais.

Estatuto do aluno

Maria de Lurdes Rodrigues, após um mandato em que dava a impressão de se pautar pelo rigor e pela exigência, querendo terminar com a política do “eduques”, deu uma machadada terrível na sua credibilidade ao aprovar um estatuto do aluno.

É assim que se reduz drasticamente o abandono escolar – acabar com os chumbos por faltas injustificadas e inventar umas provas de recuperação para encobrir a verdade – a partir de agora é legal não por os pés nas aulas.

Mas que forma fantástica e original de melhorar a performance do sistema educativo.

Pelos Jornais

Confesso que não consegui perceber esta notícia. Afinal, o que é que se passa e o que é que muda? Os imigrantes precisam de mais condições para serem legalizados, para além de terem contrato de trabalho, descontarem para a segurança social e terem entrado legalmente no país?

Os imigrantes ilegais vão poder legalizar-se como?

Os esclarecimentos sobre o artigo 88º, alínea 2, prestados por José Magalhães, não me esclareceram rigorosamente nada.

Será que o problema é meu, da lei, ou de quem escreveu o artigo? Será que Céu Neves percebeu alguma coisa do que escreveu?

Espero que seja só obnubilação matinal dominical.

Pelo contrário, concordo na totalidade com o artigo de António Barreto no Público - Da mentira como virtude política (obrigada a LA-C), claro e cristalino, sobre a mentira que se tornou num estado de arte para a política.

José Sócrates está a alimentar um tabu completamente infantil e despropositado sobre a sua decisão quanto a referendar ou não o Tratado de Lisboa. Está a perder o timing e a deixar que se avolume a suspeita de que a sua opinião será ditada pela posição revista e retocado do PSD.

Se for favorável, também poderá ser vista como uma decisão tomada a reboque de várias pressões de grupos ou individualidades, e não o resultado de uma convicção firme do que está correcto fazer – cumprir uma promessa eleitoral.

Tríptico

1.
Murmuro palavras
orações de caminhante
enrolo mantas
seguro lanternas
sorvo golfadas
de solidão.


2.
Devagar as pedras
empilham-se na madrugada.

Não há réstia de luz
que alumie esta estrada.


3.
Crianças de joelhos sujos
e mãos laboriosas

acabam de descobrir
caracóis e bichos da conta

abrem gavetas na memória
onde guardam intactas

as manhãs sem história.


(escultura de John Robinson: Umbrella Children)

Arthur & George

Este é um livro com vários livros dentro.

É a biografia de Arthur Conan Doyle, um homem feito para ser um herói romântico, que vive e procura a aprovação das mulheres da sua vida, desportista, médico, escritor (criador de Scherlock Holmes) e crente no espiritismo e ocultismo.

É a biografia de George Edalji, filho de indianos, míope em vários sentidos, que acredita no poder da lei, na justiça da lei, na lei como veículo da cultura inglesa, no respeito e conhecimento da lei como passaporte para o reconhecimento da sua capacidade (e vontade) em ser inglês.

É a história de um encontro entre dois seres tão diferentes, a sua amizade e o modo como se influenciaram mutuamente, alterando o percurso das suas vidas.

É uma história de amor, do amor filial, do amor a Deus e do seu desamor, do amor a um modo de vida, do amor patriótico, do amor platónico, do amor paternal, do amor por causas, do amor por si próprio.

É uma história policial, em que se pretende desvendar um mistério que levou a um erro judiciário.

É uma história que demonstra o autismo a que podem chegar as corporações, de preconceitos e ideias feitas, da falta de assunção de responsabilidades por parte dos vários poderes, do judicial ao político.

Tudo muito bem escrito, muito sóbrio, diria mesmo totalmente inglês.

(capa do livro Arthur & George, de Julian Barnes)

Respeito

As últimas sondagens mostram um decréscimo das intenções de voto no PS e em Sócrates e um aumento das intenções de voto no PSD e em Luís Filipe Menezes.

Não espanta a ninguém que isto suceda. Mas é preocupante, se concordarmos com a interpretação de que a descida da popularidade de Sócrates arrasta a descida do PS.

Este governo tinha (e tem) uma tarefa hercúlea pela frente: um défice enorme e a ameaça da espada do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), a reforma da administração pública (que todos os partidos acham indispensável mas nenhum a tentou), a sustentabilidade da segurança social e do serviço nacional de saúde, a reforma do sistema educativo.

É verdade que muita coisa tem sido feita. Mas muito mais tem sido dito que se vai fazer. Por outro lado, falta uma avaliação séria das medidas entretanto implementadas, principalmente aquelas que poderão ter mais consequências negativas no bem-estar da população, mesmo que só aparente.

Onde está a avaliação da reorganização dos serviços de urgência, dos blocos de parto, do reforço do INEM, da reestruturação dos cuidados primários de saúde, da implementação dos cuidados continuados?

Onde está a avaliação das alterações o sistema educativo, desde a do estatuto da carreira docente, à contratação dos profissionais por 3 anos, às aulas de substituição, à reforma do ensino da matemática e do inglês, até aos resultados dos exames nacionais?

O desemprego aumenta, como sempre nos disseram que seria de esperar. Mas as promessas eleitorais, ainda por cima em matéria tão sensível como esta, devem ser cumpridas, assim como justificadas as faltas de cumprimento.

Respeito. A falta de respeito nunca é perdoável. Sócrates e o PS devem respeito aos seus concidadãos. Sócrates deve ouvir e explicar, avaliar e reconhecer, preparar-se para o embate com o rei da inutilidade e do ruído de fundo que é Santana Lopes, não com irritação, paternalismo e condescendência, mas com a verdade dos factos e a segurança das suas ideias sobre o país.

O cumprimento das promessas eleitorais é um dos factores mais exuberantes da demonstração do que é o respeito, em termos políticos. O referendo ao tratado de Lisboa pode ser uma oportunidade para mostrar esse respeito por quem nele acreditou. Não bastam palavras nem boas intenções.

Este é o momento de viragem. Sócrates pode optar pela continuação do autismo e da arrogância governativas, que o levarão à derrota nas eleições de 2009, ou pela retoma dos valores de respeito por quem governa e de determinação para corrigir o que deve ser corrigido.

Eu ainda não me esqueci de Santana Lopes, de Durão Barroso ou de Guterres. Espero que Sócrates também não.

Putin

Não gosto de Putin. Arrepia-me ver este homem ser recebido com esta pompa e esta circunstância por um país democrático, pelo Presidente de um país democrático, pelo Primeiro-Ministro de um país democrático, pela Presidência da União Europeia.

O Presidente da Rússia passeia-se com a segurança de um autoritarismo onde impera a repressão da expressão de opiniões, os crimes contra jornalistas e dissidentes, o apoio ao Irão nuclear, ao Irão negacionista, ao Irão teocrático, misteriosos e calados assuntos em tão estreita e rígida figura.

Não gosto de Putin. Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos deveriam ser para levar a sério neste país democrático, nesta Europa Unida.

Férias

Dormir, ler, comer, passear, namorar, o ócio, o prazer de nada fazer, sem compromissos de ocupação de trabalho ou de lazer.

Estas são as verdadeiras férias, de pulmões vivificados, de olhos banhados de verde e azul, de cabeça cheia de histórias que aguardavam a placidez destes dias.

Já não é Verão e ainda não é Outono. As árvores não se decidem entre o verde e o castanho, o chão recebe folhas estaladiças e, ao fim da tarde, sabe bem um abrigo.

Na preguiça das noites estreladas, devoram-se páginas de livros, olha-se distraidamente o jornal, adormece-se a ouvir as notícias.

Férias de nós e do mundo.

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