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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

A ausência

Cavaco Silva vetou outro diploma. Depois da Lei da Paridade, do Estatuto dos Jornalistas e da Responsabilidade Civil extra-contratual do Estado, é a vez da Lei Orgânica da Guarda Nacional Republicana.

Vários comentadores e pensadores avisam o PS e o governo, pois acham que podem estar em causa o equilíbrio e a colaboração institucional. Também vêem os vetos presidenciais como um exercício de poder legítimo, mas provocador.

Há até quem comece a falar de partidos presidencialistas. Todos acham que o PS e o governo devem estar preocupados. Sim, mas preocupação maior esperava-se do PSD, do CDS, do PCP e do BE, pois todas estas atenções aos vetos e às palavras do Presidente, inclusivamente quando as não deveria proferir, só demonstram a ausência e a demissão da oposição.

Se a oposição se instalar em Belém, ninguém tem motivos para se congratular, nem mesmo o Presidente. E quanto a partidos presidencialistas, a aventura Eanista com o PRD não foi muito prometedora.

Outra vez Dalila

Correndo mais uma vez o risco de ser insultada por acérrimos defensores da liberdade de expressão, vou falar novamente do caso Dalila Rodrigues.

Ontem Marques Mendes visitou o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) onde foi recebido pela ainda directora do museu, Dalila Rodrigues.

Acompanhados pelas câmaras da SIC, durante a conversa mantida entre os dois, Dalila Rodrigues demonstrou à exaustão porque não deveria ser reconduzida naquele cargo. Na opinião dela, muito válida e estimável, como é óbvio, o MNAA deveria gozar de autonomia administrativa e financeira, não consagrada na lei pela qual ela teria que se reger; demonstrou ainda que, na sua estimável e válida opinião, os directores de museus nacionais, nomeados pelo governo, para prosseguirem a política delineada pelo governo, podem fazer campanha política pela oposição, enquanto desempenham funções, em representação do governo que os nomeou.

Para além disso o facto de Dalila Rodrigues colocar a hipótese de mover uma acção judicial, provavelmente ao Estado, não sei bem, por violação de direitos básicos, designadamente o de ser avisada com 60 dias de antecedência da não renovação da comissão de serviço é, quanto a mim, absurda e não abona nada a favor da sua hombridade, por muito que, legalmente, o possa fazer.

Pode discutir-se a necessidade de certo tipo de cargos serem obrigatoriamente por nomeação, mas não é aceitável que quem os aceita, sabendo que são de confiança política, não tenha a decência de se afastar quando não concorda com o rumo imposto ou com as regras que tem de cumprir. E é ainda mais inaceitável que use esse cargo para atacar politicamente aqueles a quem tem dever de lealdade.

Adenda: totalmente de acordo com Pacheco Pereira

Dúvidas metódicas

Neste Verão em que se empolam casos para entreter o pessoal que está de férias, há algumas notícias devidamente comentadas para nos incendiarem o espírito.

De facto o financiamento ilegal dos partidos políticos, a corrupção e, principalmente, a suspeição sobre a política e os políticos é grave e séria.

Mas talvez seja boa ideia, antes de reacções indignadas e moralistas de determinados partidos políticos, sobre o caso SOMAGUE, lembrarmo-nos de um certo Jacinto Leite Capelo Rego, a propósito do caso PORTUCALE e de algumas operações duvidosas envolvendo casas de bingo e de jogos de azar no Brasil.

É um assunto sério e grave, que atinge todos os partidos políticos e onde nenhum partido, portanto nenhum responsável partidário, é inocente.

Direito à indignação

No Público de ontem saiu um artigo assinado por Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) e signatário de um abaixo-assinado que se demarcou das afirmações de Dalila Rodrigues, posto a correr por altura do episódio da não renovação da comissão de serviço, como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

O artigo é duro e demolidor, arrasando muito do que foi dito sobre a performance de Dalila Rodrigues nesse cargo, sobre as suas posições no que respeita a lei de financiamento dos museus, a sua pretensão relativamente à autonomia financeira do MNAA e sobre as suas posições anteriores, noutros aspectos da política cultural deste governo. É, sem dúvida, um ataque pessoal, que responde passo por passo ao que tinha sido divulgado nos media, fundamentado e concretizado.

Numa pesquisa pela Internet, dei apenas por dois blogues que reagiram a este artigo, acusando Luís Raposo de baixeza e apelidando-o de megafono da brigada do reumático.

Não conheço Dalila Rodrigues nem Luís Raposo, para além do que se lê na imprensa. Não tenho qualquer conhecimento especial da problemática dos museus portugueses, para além do que qualquer utilizador observa. Mas não posso deixar de comparar as críticas concretas de Luís Raposo com os elogios generalistas e generalizados a Dalila Rodrigues.

Quanto ao ataque pessoal, parece-me que quem foi insultado pela própria Dalila Rodrigues, que comentou o abaixo-assinado como uma forma de os signatários defenderem o seu lugar de directores, tem o direito de se defender. Ou não?

Ota, ou seja, Alcochete

Depois de tantas juras e trejuras de José Sócrates e de Mário Lino quanto à inevitabilidade da Ota, depois de estudos infinitos sobre a bondade da decisão, depois de anos de decisão e de marcar passo, depois das pressões a favor da Ota, a favor de Alcochete, a favor de Rio Frio, depois das declarações de Mário Lino a desdizer o que sempre disse, talvez não seja má ideia incluir todas as hipóteses no estudo, a não ser que o objectivo seja adiar para o dia de S. Nunca a construção da nova pista/aeroporto de Lisboa.

Que grande trapalhada!

Em paz

Infinitas partículas de ar, junto ao rio, nesta deliciosa Lisboa melancólica de fim de Verão.

Absurdamente em paz com a vida, distende o cansaço e a tensão, enche bem os olhos de transeuntes, de pés calçados de sandálias, de montras de lojas com infinitas coisas lindas, com linhas harmoniosas, sugestivas de uma obrigatoriedade de consumo, de objectos perfeitos e inúteis, apenas indispensáveis à necessidade de beleza.

Esta é uma liberdade secreta e sagrada, horas de silêncio e absolvição.

Mínimos, devedores, perdedores

O seu lugar é junto daqueles que chegam aos 48 anos e deixam instalar-se a febre e os tremores e morrem com pneumonia, é junto daqueles que emagrecem continuamente e vêm nascer-lhes tumores em sítios feios ou vergonhosos e fazem deles mais um braço, é junto daqueles que têm tuberculose e estão desempregados, fumando cigarros encostados às paredes dos cafés de bairro, é junto daqueles que são comidos por toda a espécie de bichos microscópicos porque o HIV se instalou e venceu, nem sequer sabendo da hipótese de se tratarem.

É trabalhando nessas comunidades suburbanas, à volta de Lisboa, nessa mole de gente que parece nem existir, quando se olha para determinados hospitais de luxo com médicos de luxo, que cumpre um juramento que nunca fez.

As doenças são democráticas e castigam homens, mulheres e crianças, de luxo ou de sucata. Por debaixo das roupas, dos cremes, dos sinais exteriores da condição social, os corações falham igualmente quando enfartam, os fígados cirróticos têm a mesma cor e consistência, independentemente das bebidas que os modulam, os tumores invadem todos os corpos, silenciosa e implacavelmente.

Mas mesmo reduzidos ao mínimo múltiplo comum, uns são máximos e credores, outros mínimos, devedores e eternos perdedores.

(aguarela de Isidre Nonell: Dues dones)

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