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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Tempo do tempo

A propósito deste post lembrei-me de um livro que li na minha juventude que e chamava Mach 3 - Sinal de Perigo?. Era uma história de investigação, que envolvia uma rapariga muito empenhada em conseguir o amor e a atenção do pai e que, apesar do medo pânico que sentia tinha tentado pilotar aviões a alta velocidade. Como não conseguia, transformou-se em cientista, desenrolando-se a história à volta dos malefícios de Mach 3, descobertos no final, com grande drama e heroísmo. Investiguei o autor, Donald Gordon, mas não consegui nada, pois aparecem-me várias personalidades com estes dois nomes, sem que eu perceba quem era o autor.

Outro livro que devorei e que me impressionou muitíssimo, da mesma colecção (Europa-América juvenil) foi A caminho de Israel, de James Foreman. Era um livro que relatava, se bem me lembro, a fuga de um grupo de judeus de um campo de concentração (?) para Israel, se bem que Israel anda não existia na altura… A memória não é o meu forte, mas ficou-me sempre a impressão de uma dor e de uma luta muito esforçada para alcançar a liberdade.

De outra colecção, de que também não me recordo o nome, li A colina do Dahu, de Janine Bernadet, que falava de um animal inventado por uma criança com uma doença terminal.

As férias grandes eram passadas a ler gulosamente, desde muito cedo, enrolada num sofá. Vivia aventuras fantásticas, vidas cheias, ultrapassava todos os obstáculos, era a cientista à volta dos ratinhos, o judeu a fugir a nado, a criança a passear com o Dahu. Ou Miss Marple, ou Poirot, ou o detective de SS Van Dine, Philo Vance.

Era o nosso tempo sedoso e eterno, cujo sabor ainda respiramos.



(SS Van Dine - Willard Huntington Wright)

Às escuras

Estou às escuras. Distraidamente, à medida que percorria os blogues habituais, que ia lendo as novidades do dia, os pensamentos, as bocas, as histórias, foi-se instalando a penumbra, apenas com a janela luminosa do monitor.

Neste sossego egocêntrico e concentrado, relembro as impressões de filmes como “Blow-up” e Sonata de Outono. O segundo causou-me uma impressão tão forte que ainda hoje me lembro de cenas inteiras, brilhantemente filmadas e representadas, filme de conversa, em que se dissecam as almas e a emoções, em que a vida se despe no mais feio e no mais sublime de todos. A moda é que nunca foi de Ingmar Bergman.

Blow-up foi um filme de descobertas e mistérios, da revelação, do pormenor à espera de quem o encontre, da manipulação, do grão da fotografia, da beleza dos protagonistas, do olhar de Antonioni.

Estou totalmente às escuras. Ao longe murmuram vagamente sons televisivos que ninguém testemunha. Com o vento preguiçoso e molenguento, viajo pelo tempo e pelo mundo, consolada.

Mude-se a lei

A falta de justiça, em sentido lato, e a impunidade são dos mais graves sintomas de falência de um estado de direito democrático e, infelizmente, o que se passa em Portugal está muito próximo disso.

Como me lembravam algumas pessoas numa conversa de café, a justiça foi dos únicos sectores em que não houve profundas mudanças após o 25 de Abril, até parece que por um pacto não escrito entre os dois principais partidos, antecessor do pacto para a justiça celebrado entre o PS e o PSD, já na vigência desde governo.

Vem isto a propósito da notícia de destaque do Público de hoje (Reforma negada em cinco minutos e quatro linhas, pág. 2 do caderno 1), que conta o caso de uma funcionária pública que após ser submetida a vários tipos de tratamentos por cancro intestinal, muitos anos de trabalho e pouca qualidade de vida, inclusivamente sequelas que não lhe permitiam ter uma vida profissional normal, decidiu pedir a reforma, apoiada por pareceres médicos assinados pelo Oncologista que a assistia e exames de vários tipos. A reforma foi recusada sem que eles tivessem sido apreciados, sem que a doente fosse ouvida, sem que a recusa fosse fundamentada, oralmente ou por escrito, por uma junta em que os médicos que a constituíam nem sequer se deram ao trabalho de cumprimentar a senhora.

Este caso refere-se a juntas médicas mas podíamos falar dos serviços camarários ou quaisquer outros serviços, do Estado ou particulares. É claro que é muito melhor e mais fácil, em vez de verificar se a aplicação das leis está a ser feita correctamente, por profissionais competentes, idóneos e interessados, em vez de se responsabilizar os eventuais prevaricadores, é muitíssimo melhor e mais fácil alterar as leis.

A actividade legislativa substitui a actividade de regulamentar e fiscalizar, nunca se exigindo responsabilidades, competência e dignidade no exercício da profissão.

Neste caso a lei já mudou. Será que a sua aplicação também vai mudar?

Silly season

Sempre me irritaram as referências à silly season quando chegamos ao Verão.

O facto de se terem férias só pode significar que as pessoas se sintam libertadas das suas tarefas diárias, repetitivas, rotineiras e cansativas, estando por isso mais abertas a interessarem-se por outros assuntos que, em alturas de grande actividade profissional, não têm tempo nem vontade.

Mas os media decidiram que, durante as férias o cérebro se desliga e deixa de funcionar, mantendo apenas as funções básicas de sobrevivência.

Mas entre nós só se fala da silly season no Verão. E quem faz férias no Inverno, não põe o cérebro a hibernar?

(Este ano até temos uma Presidência europeia!)


(Cartoon de Isabella Bannerman: silly season)

Caricaturas principescas

A liberdade de expressão tem sido tema recorrente nas discussões políticas em Portugal, principalmente pela suposta deriva autoritária deste governo e deste PS. Manuel Alegre, num artigo de opinião a que o Público deu um destaque pouco habitual, aponta o dedo aos militantes dos partidos políticos, nomeadamente aos do PS, que reduzem a política a Sócrates, instalando-se na sociedade o medo de exprimir livremente opiniões.

No princípio do ano passado o mundo ocidental, predominantemente laico, incendiou-se em defesa da liberdade de se caricaturar o que se quisesse, como se quisesse e quando se quisesse, insurgindo-se contra a inusitada violência que atacava a sociedade livre, pelas ofensas aos sentimentos religiosos e a culturas diversas. Eu fui das que me incluí entre os que partilhavam esse ponto de vista.

Não querendo comparar o que não é comparável, nomeadamente as reacções de incrível violência contra as embaixadas de países ocidentais, jornais, jornalistas e autores das várias caricaturas, há novamente um debate sobre liberdade de expressão desencadeado pela apreensão por um juíz de uma revista humorística espanhola, a El Jueves, pela publicação de uma caricatura dos príncipes Felipe e Letizia num acto sexual explícito, em que se pretendia, na minha opinião, gozar com os subsídios à natalidade decididos pelo governo espanhol e não com o casal de príncipes.

Independentemente do que se pensa da caricatura propriamente dita, o que está em questão é o facto de um juiz, sem qualquer queixa dos eventuais ofendidos, ter ordenado a apreensão do jornal ou seja, ter considerado que não havia liberdade para publicar um determinado tipo de expressão de pensamento.

Não posso concordar com os que defendem que há coisas demasiado ofensivas para serem publicadas. Essa foi uma das razões invocadas contra a publicação das caricaturas de Maomé.

Numa sociedade democrática a liberdade ombreia com a responsabilidade. Num estado de direito os ofendidos queixam-se e a justiça arbitra e decide. Se a Casa Real espanhola não se queixou, não entendo que haja alguém que se digne proibir o que entende por ofensivo. É a sua opinião, não tem que a estender à restante comunidade.

É verdade que alguns textos, desenhos e caricaturas, cenas de filmes, documentários e telejornais, dão vontade aos cidadãos de partir o focinho a alguém. Mas a justiça pelas próprias mãos nunca foi boa conselheira.

A liberdade de expressão existe exactamente para que todos possam dizer o que pensam, por muito irrazoável, insensato ou horroroso que seja, sem que se sintam pressionados ou perseguidos por isso.

E...?

Tarde e a más horas, em primeiro lugar o PS, depois o primeiro-ministro vêm dizer que é inaceitável que o governo regional da Madeira não cumpra a lei da IVG. Ouvi mesmo José Sócrates, com aquela indignação irritada e exasperada que bem lhe conhecemos, rosnar contra o PSD e o CDS pelo factos destes dos partidos não se terem demarcado de Alberto João Jardim.

Ficou-lhe bem mas ter-lhe-ia ficado ainda melhor se questionasse, mesmo que ao de leve, mesmo que subtil e cripticamente, a parca e lacónica declaração do Presidente da República sobre o assunto.

Então e agora? Se Alberto João Jardim se mantiver na dele, o que pode o PS ou o governo fazer (visto que o Presidente…)?

O medo

Posso não concordar com a discordância de Manuel Alegre em relação a algumas políticas governamentais, posso não concordar com Manuel Alegre no seu vaticínio de morte ao SNS, posso até não concordar com Manuel Alegre sobre a forma como se pretende ratificar o aposentado Tratado Reformado.

Mas felizmente que há algumas vozes no PS que dizem o que é elementar, ou seja, simplesmente dizem o que pensam, exprimem as suas opiniões, mesmo com o risco de ser menorizado, mesmo com o risco de se lhe colarem projectos de secessão, com as contabilidades bem organizadas, independentemente de existir ou não essa vontade ou intenção.

O perigo não está em Sócrates, está naqueles que o rodeiam, que o separam da realidade, naqueles que se calam, naqueles que são cúmplices.

Mesmo que o medo seja diferente do medo da época de Salazar, mesmo que o medo seja causado pela forte possibilidade do desemprego, pela crise económica e social, pelo individualismo, a verdade é que estamos limitados na nossa capacidade de sermos livres.

Dentro ou fora dos partidos, do governo e da oposição, é preciso que todos assumam as suas responsabilidades: falando, escrevendo, cantando, pintando, não vergando a todo e qualquer sintoma de medo.

(escultura de Francisco Simões: Manuel Alegre)

Abstenções

Enquanto os partidos e as Entidades tristemente peroram contra a elevadíssima abstenção nestas eleições intercalares, carpindo mágoas e penitenciando culpas próprias e alheias, o militantes partidários vão-se abstendo nas suas eleições internas, venenosamente desgastando quem penosamente aguenta o barco, mas ficando nas sombras das bancadas.

Vá lá que houve alguns que, não sei apenas se por vergonha, avançaram para a arena.

Bem prega Frei Tomás…

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