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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

A Curva

Alguém tem de aparecer naquela curva
mesmo que se não saiba o que é depois
se estrada larga ou morte ou água turva
se solidão ou um a ser já dois

A vida toda em sonho a esperar sempre
naquela curva não importa quem
alguém que diga o quê e saia ou entre
ainda que depois não mais ninguém.

Alguém há-de aparecer alguém que aponte
quem sabe se um aquém ou se um além
ou nada mais senão o horizonte
daquela curva onde se espera alguém.


[poema de Manuel Alegre (Doze Naus); pintura de Oswaldo Barahona: Vías y Cruces]

Subliminar

Ao ouvir o Expresso da Meia-Noite, onde Ricardo Costa cada vez opina mais e ouve menos, Luís Delgado chamou a atenção para a falta de conhecimento que Almerindo Marques tinha de empresas de comunicação, quando foi para a RTP, em resposta à indignação de Ricardo Costa pela abusiva (segundo ele) comparação entre Pina Moura, que não sabe nada do assunto, e Pinto Balsemão, que sempre foi jornalista. Também houve alguém, já não me lembro quem, que recordou o facto de, noutros países, haver alinhamentos editoriais políticos e ideológicos, o que não retirava credibilidade e rigor à informação. Ao que Ricardo Costa (outra vez ele) contrapôs que o que era importante era o controle económico das empresas de comunicação.

Pois, eu também acho, o controle económico é que é muito importante. Mas a TVI é uma estação privada, controlada por uma empresa privada, e quem não gostar, não vê!

Ou será que o governo, José Sócrates, ou mesmo o PSOE, vão obrigar os portugueses a ver a TVI e a acreditar piamente em tudo o que ela disser?

Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa vai de mal a pior. Todos falam do PSD e de Carmona Rodrigues que, sem dúvida, deveriam perceber que as eleições intercalares são inevitáveis.

Mas o que esperam os partidos da oposição? Porque não assumem eles o papel de precipitar a ida a votos?

O PS não tem candidato (ele é tão secreto que não deve existir!); qual é a desculpa dos outros?

Pois é, as eleições até parece que não caem bem a ninguém. A governação da cidade de Lisboa é mesmo o que menos importa!

Da poesia

(…) que a poesia para continuar a ser poesia, precisa de ser experienciada por alguém: é no encontro quase mágico entre a obra e o leitor que ela renasce. Na verdade, renasce sempre que é lida e só renasce quando e porque é lida: “Um livro” – diz o escritor argentino – “é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras (…) saltam para a vida e temos a ressurreição da palavra (…). Por isso podemos dizer que a poesia é uma experiência nova a cada vez”. (…)


REGRESSO À VELHA CASA

Na velha casa passou um rio
passou a cheia o tempo um arrepio.
Quem eu chamo já não vem.
Tanto quarto vazio
tanta sala sem ninguém.
E frio.

(poema de Manuel Alegre; pintura de Kate Hammett: The Old House)

Bolor

Temos uma democracia com eleições e votos, com jornais e televisões, com blogues e manifestações. Temos uma democracia em que nos refastelamos nas queixas, no lacrimejo, no lamento de ser deste país. Temos uma democracia que nos deleita e nos consome, que os chega e nos falta, por não sabermos bem o que temos e o que queremos. Temos uma democracia diminuta como pequena e pouco ambiciosa é a alma lusitana. Não para grandes feitos, não para grandes palavras, não para grandes gestos, mas para o que faz do dia a dia uma sociedade militante e vigilante da liberdade, um país onde se goste de viver. Temos uma democracia com chefes que são amigos e compadres, de compadrios e vizinhanças, piscares de olhos e palmadas nas costas. Temos uma democracia que diz que disse mas não diz, que volta a cabeça e murmura sem nunca falar alto, de olhos no chão e sorriso matreiro.

Temos uma democracia suspeita, sufocada, um mal-estar feito de névoa e de fumo, de silêncios cúmplices e de ruído de fundo, sem medo mas com receio e cuidado, pé atrás e insegurança, falta de honra e honestidade.

Falta encher os cantos com claridade, deitar fora restos bafientos e bolorentos, falta vontade de agir, todos, sempre, todos os dias.

Hospitais privados

O título da notícia de primeira página do Público de ontem demonstra bem a mistificação e a manipulação que se pretende fazer no que diz respeito à política de saúde e ao SNS. Se lermos o corpo da notícia ficamos a saber que entre 300 a 500 médicos pediram licença sem vencimento ou reforma. Mais adiante diz-se que houve 400 médicos a reformarem-se, sem explicitar se são a somar aos anteriores ou não. Depois afirma-se que, numa determinada unidade hospitalar pública, 8 de 800 médicos pediram licença sem vencimento para passarem a exercer medicina em hospitais privados. A enorme percentagem de … 1%! Depois fala-se em cabeças de cartaz que se mudaram para a privada – quais?

Há no entanto uma pequena frase, que eu gostaria que estivesse em letras garrafais, essa sim como título, em que se refere a exclusividade de funções pretendidas pelos hospitais privados.

E que tal o ministro da saúde seguir este exemplar exemplo??

25 de Abril

Há dias que têm anos
que têm segundos
velhos como a existência
de quem aguarda mundos
de quem já perdeu horas
de quem desespera
pelas demoras
de dias sólidos
e fecundos.

Todos os dias pelo dia
em que nos deram armas e flor
todos os dias pela semente
que ficou depois da cor
do perfume do ar leve
todos os dias sem temor
sem desistir
todos os dias a florir.

Ramo


Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem

(poema de Gastão da Cruz; pintura de Susan Hostetler: Tuscan Grove)

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