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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

A marca de Deus (1)

É muito complicado falar de assuntos religiosos, ou mais precisamente bíblicos, com cristãos católicos. Talvez também o seja com judeus e islâmicos, mas na verdade nunca se proporcionou a oportunidade.

Mas hoje, a propósito de Judeus, Bispos e Cardeais, eleições papais, antigo e novo testamento, falou-se inevitavelmente da Páscoa.

Páscoa (do hebraico Pessach) significando passagem - a passagem do anjo exterminador. Para os judeus a Páscoa é a festa que comemora a libertação do Egipto, após a última das dez pragas enviadas por Deus (a morte dos primogénitos egípcios) e por Moisés transmitida ao Faraó, negociando a libertação do seu povo, aplacando a ira de Deus.

Os judeus são um povo exclusivista na sua religião e na sua cultura, cioso das suas tradições. O antigo testamento é a história do povo eleito, do povo escolhido por Deus, que exclui todos os outros povos.

Embora o anti-semitismo seja uma terrível realidade histórica que nos acompanha ao longo dos séculos, com numerosas purgas, expulsões e perseguições de judeus pelo mundo fora, a Bíblia conta-nos, de forma alegórica, a primeira manifestação de ódio ou exclusão religiosa, manifestada pelos judeus, ou pelo seu Deus vingativo, contra os egípcios, ao determinar o extermínio dos primogénitos daqueles que não detinham a marca da sua religião: o sangue do cordeiro imolado na porta das suas casas.

(The Golden Haggadah: The Passover)

Passagens

Todos temos as nossas semanas pascais, em que nos preparamos para o que vier depois.

Depois, sempre depois, desde a profunda inspiração que antecede o último esforço do parto, até ao sono que anuncia o acordar.

Sempre depois do medo, da felicidade, da doença, do traumatismo, do sorriso, do abraço, estamos sempre em preparação, de passagem entre uma emoção e a que há-de existir, para além.

Todos temos os nossos momentos pascais, que nesta vida com horizontes sem sinais nem caminhos traçados tendem a ser perpétuos.


(pintura de Shem: Passage of Time)

Apenas

Preciso de tão pouco
para que o dia me levante.

Preciso apenas das gotas
de chuva na janela
do rumorejar das folhas
que sussurram
do pincel
dos teus dedos
na minha pele.

E no entanto
para ter
assim tanto
vivo apenas no espanto
de querer.

Corrupção

Corrupção é encolher os ombros e murmurar ao ouvido do lado as iniquidades de quem manda;

corrupção é olhar na direcção contrária e estender a mão debaixo da mesa, para receber a aprovação de quem manda;

corrupção é fechar os olhos, os ouvidos e o nariz e sorrir apreciativamente aos espaventos estertorosos de quem manda;

corrupção é levantar-se do único lugar da esplanada para o dar a quem manda, e ficar com as réstias de sol que lhe sobra.

A corrupção é o resultado de milhões de anónimos tentando ignorar anonimamente o abuso de outros anónimos que se sentem com direito a ter nome.

E quem é que os nomeia?

E quem é que nos incendeia?

Ainda

Esperam-nos pássaros caminhos
não ouvidos não caminhados.

Esperam-nos sonhos carinhos
não sentidos não sonhados.

Que faremos por merecer
nas pedras fontes do amanhecer?

Que faremos para entender
os mundos que sobram para viver?


(pintura de Nacera Guerin: one path)

Miséria e grandeza

Entre as cinzentas, pomposas e circunstanciais celebrações dos 50 anos da União Europeia, entendeu o nosso Excelentíssimo e Digníssimo Presidente da República excluir dos convidados de tão interessantes eventos o Dr. Mário Soares, antigo Presidente da República e, apenas e só, aquele que assinou o tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, em 1985.

É verdade que Mário Soares se escapuliu da cerimónia de cumprimentos a Cavaco Silva, aquando da sua tomada de posse como Presidente. Não o devia ter feito, por todas as razões que nos lembremos e mais ainda.

Mas este gesto de Cavaco Silva, como uma vingança mesquinha, só demonstra a pequenez com que interpreta o seu papel na história recente de Portugal, e a sua falta de grandeza ao não reconhecer as grandezas de outros, entre as inúmeras misérias de que todos somos protagonistas.

Ficou-lhe mal a ele, como pessoa, e ficou muito mal ao país, que ele representa, pois não foi capaz de honrar a quem muito deve.

(fotografia da assinatura do tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, 12/06/1985, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa)

Eventualmente...

Segundo as notícias que li nos jornais impressos, on-line e em blogues (informação a sério), que ouvi nas rádios e que vi e ouvi nas televisões, o Tribunal de Contas (TC) confirmou um relatório da Inspecção Geral de Finanças (IGF), em que se demonstram numerosas irregularidades nas empresas municipais, na figura de uso indevido de dinheiros públicos, com numerosos autarcas a acumularem funções como quadros dirigentes das ditas empresas, e a auferirem ordenados e benesses muito acima e para além daquilo a que teriam direito.

Então e agora? Que vai acontecer a essas pessoas, que têm nome, cara, funções como autarcas (representantes do povo) e gestores? Vão ser obrigados a repor o dinheiro? Vão demitir-se dos seus variados cargos? Vão ser constituídas comissões de inquérito para eventuais processos de eventuais arguidos que eventualmente declararão consciências (eventuais) totalmente tranquilas?

E os anos que ainda não foram investigados? O que se vai seguir?

O negócio informativo (2)

Voltando ao post anterior sobre as interdependências entre a informação e os poderes económico e político, parece-me que algumas ideias não ficaram bem claras.

Todo o poder político tem a tentação de controlar a informação, de forma a veicular e propagandear as suas ideias e, principalmente, a esconder, por omissão ou por deturpação, os factos que poderão contrariar a verdade oficial.

Os regimes ditatoriais, tais como o comunismo e o nazismo, o franquismo e o nosso caseiro salazarismo, só para citar exemplos próximos, fizeram do controle da informação uma arma poderosíssima e um meio de excelência para impedir a disputa do poder. Outro exemplo é a organização que suporta a Igreja Católica, por exemplo, que sempre fez do controlo das fontes de informação, da censura e do impedimento ao conhecimento livre, uma das suas fontes de poder.

O exemplo tipificado por Sílvio Berlusconi é, apesar de tudo, ligeiramente diferente. Neste caso a informação é controlada pelo poder económico, concentrada num homem ou numa empresa, que usa o controlo informativo e o poder económico como armas para ascender ao poder político. Ou seja, o facto de se ter dinheiro, compra a informação e a propaganda e compra um lugar na política.

É claro que esta é uma análise mito simplista da situação. Mas talvez seja importante pensar que são indispensáveis mecanismos de regulação, garantidos pelo estado, através dos seus representantes legitimamente eleitos, impedindo a concentração do poder económico e a concentração do poder informativo, sob a alçada do primeiro. Se essa regulação não existir talvez seja difícil garantir a liberdade de discussão de ideias, a liberdade de expressão de pensamento, ou mesmo a democracia, tal como a concebemos hoje em dia.

Portugal europeu


Ao comemorar, amanhã, 50 anos de União dos países europeus, primeiro com objectivos económicos e de manutenção da paz, com o caminhar dos anos com o estreitamento dos laços sociais e políticos, podemos orgulhar-nos de termos vivido metade de um século em relativa paz, harmonia e bem-estar social.

A ordem política evolui muito desde 1957. Dos seis países fundadores (França, Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo) que assinaram o Tratado de Roma, a Comunidade Económica Europeia (CEE) foi-se alargando e transformando na União Europeia, agora com 27 países, muitos dos quais só puderam aspirar à adesão após a queda do muro de Berlim e do fim da guerra fria.

A Europa tem sido uma protectora de democracias e uma catalizadora da luta pelos direitos humanos, pela igualdade de oportunidades, pela instituição dos direitos sociais e de trabalho e pela solidariedade social.

Com a pressão para um aprofundamento político da União Europeia, estaríamos à espera que, na Europa dos Cidadãos, a cidadania, a participação cívica e política, o esclarecimento do que nos une e das propostas para a ratificação de um (moribundo) Tratado que Estabelece uma Constituição para a Europa, a discussão do que correu mal nas anteriores tentativas de aprovação e implementação do mesmo, fossem o mote das celebrações que se preparam por essa Europa fora.

Como tudo o que engrandece, a União Europeia necessita de racionalização, reorganização, simplificação e, principalmente, de uma reaproximação dos organismos decisores aos cidadãos. Ninguém imagina hoje um continente europeu regressado a 1956. Mas se não houver imaginação e verdadeira vivência do que significa para um português, eslovaco, italiano, holandês ou alemão ser europeu, que é necessariamente diferente, e se não se respeitarem essas diferenças, os próximos 50 anos serão mais difíceis, menos pacíficos, mais pobres e mais desiguais.

Poderemos nós todos avançar numa Europa multicultural, multiracial e multirreligiosa? A Europa de hoje alberga um número crescente de imigrantes essenciais no futuro da União Europeia, até por razões demográficas e de rejuvenescimento populacional, se devidamente integrados nas diversas comunidades, mantendo as suas especificidades mas absorvendo também os valores que fundam e formam a nossa matriz comum. Temos os problemas da insegurança e dos fundamentalismos crescentes, da crise económica e da globalização, o desafio do desemprego, da concentração da riqueza, das economias emergentes, das prováveis catástrofes ambientais.

E em Portugal, onde está esse debate?

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