Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Cartas de Iwo Jima

Mar e areia negra, pesada. Vozes rituais, rudes, parcas. Silêncios doridos, grandes, enevoados. Olhos cheios, brilhantes, imensos.

Solidão e brancura no meio da guerra, dos estrondos, do horror, do destino, da morte, do inevitável. Cartas em que se mantém a ligação com a vida, em que se despe a rigidez e a amargura. Cartas enterradas com a honra, com a morte, com o inevitável.

A sobriedade da cor, dos gestos, dos sentimentos, o rigor dos planos, os silêncios, o mar, a areia, o que se cala, o que se descobre no inimigo, o inimigo que se incorpora no corpo do soldado, o que se vacila.

O respeito com que Clint Eastwood filmou o inimigo, a dor dos homens, de todos os homens que têm que cumprir uma missão aniquiladora, a guerra na sua versão mais dura e depauperada, na sua versão de glória interior.

Protocolos (2)

(continuação do post anterior)

  • Montijo (64) encerramento do SU; protocolo: (…) Centro Hospitalar Barreiro/Montijo, a missão do Hospital Distrital do Montijo será redefinida, com base na reorientação da capacidade instalada, criando condições para uma melhor resposta da actividade ambulatória (cirurgia de ambulatório, MCDT, consulta externa) e uma resposta qualificada na área de cuidados continuados. (…) Unidade Hospitalar do Montijo aumentará o número de valências (…) futuro Centro Hospitalar, apostar-se-á na cirurgia de ambulatório, designadamente nas especialidades de otorrino, oftalmologia e cirurgia geral. (…) Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo encetará esforços no sentido da criação de uma unidade de convalescença no futuro Centro Hospitalar. (…) transporte de doentes, em situação aguda, referenciados às urgências médico-cirúrgicas e/ou polivalente, será reforçado com uma ambulância SIV sedeada no município do Montijo. (…) actual “serviço de urgência” do Hospital Distrital do Montijo manterá o seu modo e horário de funcionamento até à constituição do Centro Hospitalar Barreiro/Montijo, assegurando um Serviço de Urgência Básico. (...) Após doze meses da constituição do Centro Hospitalar, a respectiva administração, em concertação com os centros de saúde e em directa articulação com os municípios envolvidos, reavaliará a malha de atendimento e transporte da população da respectiva área de atracção nas situações agudas e de urgência. (…) eventual alargamento dos horários de atendimento dos Centros de Saúde até às 22h00 horas, todos os dias úteis, e das 09h00 às 15h00 aos fins-de-semana e feriados (…)

Afinal, e até agora, apenas nos casos de Macedo de Cavaleiros e do Montijo não foram seguidas as recomendações que constam do relatório final. No primeiro caso, por não estarem asseguradas as condições de acessibilidade mínimas; no segundo caso decidiu-se seguir os exemplos de Fafe e de Santo Tirso, não percebi porquê.


Afinal quem mais se aproximou da verdade foi o JN. Houve uma derrota política do ministro, pois não conseguiu, por si só, implementar a sua política, tendo necessitado do apoio de Sócrates que, assim, o fragilizou.


Mas não têm razão os que falam em recuo na reestruturação da rede de urgências. O que está a ser feito é o que estava planeado, com ajustes e caso a caso, como é razoável e indipensável.


Ainda bem, porque assim ganhamos todos. Quanto ao papel dos jornais e dos jornalistas, penso que há matéria e factos para cada um tirar as suas próprias conclusões. As minhas, infelizmente, não são as mais agradáveis no que diz respeito à sua independência, rigor e competência.

Protocolos (1)

Estão disponíveis, no Portal da Saúde, os protocolos assinados pelo Ministério da Saúde e pelas Autarquias a 24 deste mês.

Comparando as recomendações que constam do relatório final da Proposta da Rede de Urgências, com o acordado:




  • Cantanhede (34) encerramento do SU; protocolo: (…) centrará a sua actividade na prestação de cuidados continuados de convalescença e paliativos (…) cirurgia de ambulatório, os cuidados domiciliários em articulação com o centro de saúde, MCDT básicos e medicina física e reabilitação que estenderá aos centros de saúde, e consultas de ambulatório (…) Unidade Móvel de Saúde (…) Os casos urgentes e emergentes, quer os que ocorram durante o dia, quer os que ocorram das 00h00 às 08h00, serão reencaminhados para o SUP dos Hospitais da Universidade de Coimbra ou para o SUMC do Hospital da Figueira da Foz. (…) socorro e transporte pré-hospitalar dos doentes urgentes e emergentes serão reforçados, até 1 de Outubro de 2007, por ambulância SIV, com um enfermeiro e TAE, destinada a servir os municípios de Mira e Cantanhede. (…)consulta não-programada para casos agudos do foro ambulatório, sob a responsabilidade do centro de saúde, diariamente e em horário alargado, das 08h00 às 24h00, com acesso directo aos MCDT do Hospital, que cobrirá a maior parte da actual procura da urgência. (...) Esta consulta será instalada até ao dia 1 de Outubro de 2007.

  • Espinho (29) encerramento do SU; protocolo: (…) incremento do número e variedade de consultas de ambulatório (…) cirurgia de ambulatório como oferta cirúrgica, funcionando em dois períodos diários (de manhã e de tarde) (…) actividade do Hospital será centrada na prestação de cuidados continuados de convalescença (…) criação de uma segunda Unidade de Saúde Familiar no município de Espinho (…) O socorro e transporte pré-hospitalar dos doentes urgentes e emergentes serão assegurados pelas VMER sedeada em Vila Nova de Gaia ou em Santa Maria da Feira, esta última a instalar, sendo reforçado por ambulância do INEM, com técnico de ambulância de emergência (TAE), a sedear em Espinho 24 horas por dia, até 1 de Outubro de 2007. (…) casos urgentes e emergentes, será feito através do CODU e da consulta a seguir referida para os casos que eventualmente aí se dirijam, para o SUMC do Hospital de Gaia. (…) O Hospital Nossa Senhora da Ajuda - Espinho acomodará nas suas actuais instalações da urgência uma consulta não-programada para casos agudos do foro ambulatório, sob a responsabilidade do centro de saúde, em horário alargado, das 8h00 às 24h00, com acesso directo aos MCDT do Hospital. Esta Consulta será instalada até ao dia 1 de Outubro de 2007. Até esta data, manter-se-ão os actuais serviços.

  • Fafe (15) encerramento do SU, funciona SU nível Básico até reforço Guimarães: protocolo: (…) centro de saúde de Fafe assegurará a sua actividade, designadamente a “consulta aberta”, para dar resposta aos casos agudos não programáveis, das 08h00 às 22h00 todos os dias úteis e das 09h00 às 18h00 aos fins-de-semana e feriados. (…) deverá entrar em funcionamento no próximo dia 25 de Abril. (…) A partir do próximo dia 25 de Abril, o Hospital São José – Fafe assegurará um Serviço de Urgência Básico (…) Esta situação será reapreciada no contexto do futuro Centro Hospitalar Guimarães-Fafe. (…) 1 de Outubro de 2007 será colocada no Hospital São José de Fafe uma ambulância SIV (suporte imediato de vida), com tripulação profissionalizada de enfermeiro e técnico de ambulância de emergência. (…) A Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a constituição de Unidades de Saúde Familiares (USF) em todos os centros de saúde (…) A Administração Regional de Saúde do Norte promoverá o alargamento da Rede de Cuidados de Continuados Integrados no distrito (…)

  • Macedo de Cavaleiros (7) encerramento do SU; protocolo: (...) Tendo em conta as excepcionais dificuldades e acessibilidades viárias, ainda não solucionadas pela não conclusão do Plano Rodoviário Nacional, na Unidade Hospitalar de Macedo de Cavaleiros funcionará um Serviço de Urgência Básica (SUB), integrando a futura rede de Urgências. (...) socorro e transporte pré-hospitalar dos doentes urgentes e emergentes serão reforçados, com início a 1 de Janeiro de 2008, por um helicóptero SIV, sedeado em Macedo de Cavaleiros, com um enfermeiro e um técnico de ambulância de emergência, que, quando o helicóptero não estiver a ser utilizado, por impossibilidade meteorológica, se deslocam em ambulância SIV, igualmente sedeada em Macedo de Cavaleiros. (...) centros de saúde do Distrito de Bragança, assegurarão a sua actividade, designadamente a "consulta aberta" para dar resposta aos casos agudos não programáveis, das 08h00 às 22h00, todos os dias úteis, e das 09h00 às 15h00 horas aos fins de semana e feriados, a partir do próximo dia 25 de Abril (...) Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a constituição de Unidades de Saúde Familiares (USF) em todos os centros de saúde do Distrito de Bragança (...) Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a Rede de Cuidados de Continuados Integrados no Distrito de Bragança (...) Centro Hospitalar do Nordeste garantirá, com a brevidade possível, a criação de consultas de especialidade (...)
  • Santo Tirso (18) encerramento do SU, funciona SU nível Básico até reforço Famalicão: protocolo: (...) centros de saúde de Santo Tirso, Negrelos e Trofa, da área de influência da Unidade Hospitalar de Santo Tirso, asseguram a sua actividade, designadamente a "consulta aberta" para dar resposta aos casos agudos não programáveis, das 08h00 às 22h00, todos os dias úteis, e das 08h00 às 20h00 aos fins de semana e feriados. (...) 25 de Abril 2007, a Unidade Hospitalar de Santo Tirso assegurará um Serviço de Urgência Básico (...) Esta situação será reapreciada no contexto do futuro Centro Hospitalar. (...) 1 de Outubro de 2007 será colocada na Unidade Hospitalar de Santo Tirso uma ambulância SIV (suporte imediato de vida), com tripulação profissionalizada de enfermeiro e técnico de ambulância de emergência. (...) Administração Regional de Saúde do Norte promoverá a constituição de Unidades de Saúde Familiares (USF) em todos os centros de saúde (...)

Areia

Apressam-se os segundos.

Correm voláteis
pelos nós assinaláveis
renováveis
articulações de memória.

Recusam-se lamentos.

Sopram amáveis
pelos barcos ancoráveis
dedos inábeis
artífices sem glória.

Desfazem-se, esquecem-se.

(pintura de Rom Lammar: roots)

A verdade

Tal como Paulo Gorjão, também estou à espera de ver os protocolos assinados entre as autarquias e o ministério da saúde. Tal como Paulo Gorjão, também aguardo que se esclareçam estas versões desencontradas.

Mas começo já por não perceber porque é que, para além da notícia do JN, que afirma que teve acesso aos protocolos assinados ontem, revelando que o único caso em que não foi seguida a orientação do documento da comissão técnica foi o de Macedo de Cavaleiros, por causa das péssimas acessibilidades, nenhum outro jornal noticiou quais as diferenças entre os protocolos assinados e os planos governamentais, tendo-se limitado a averbar uma derrota estrondosa e um acentuado recuo no fecho das urgências.

Se assim foi, não houve recuo, houve apenas o cumprimento dos compromissos que o ministro assumiu, no que diz respeito ao faseamento e à decisão política da alteração da rede de urgências, decididas caso a caso.

Portanto, e repetindo, que me tenha dado conta, o artigo do JN foi o único que comparou os acordos escritos de ontem com o plano do governo. Porquê? Porque não o fizeram outros jornalistas, outros jornais? Será que não tem interesse? Ou será que só aqueles que têm acesso à Internet e ao Portal da Saúde, onde eventualmente serão disponibilizados os acordos, têm direito a essa informação?

Quem fornece notícias aos jornais tenta, evidentemente, enviar apenas a parte do todo que lhe interessa. Não compete aos jornalistas cruzarem informações, procurarem outras fontes, analisarem documentos, não se deixarem instrumentalizar?

Ou são os próprios órgãos de informação que, deliberadamente, escolhem determinado tipo de informação? Não será isso manipulação de informação?

Como escrevi num post anterior: Se estas notícias são verdadeiras, exactamente assim como são contadas (...). Tal é a minha confiança na dita imprensa de referência. Se calhar não estava enganada.

(pintura de Ciurlionis: a verdade)

A suspender

Se estas notícias são verdadeiras, exactamente assim como são contadas, Sócrates prestou um mau serviço ao país e acabou de despedir o ministro Correia de Campos.

Esta reforma está a ser contestada não porque não seja necessária, diria mesmo que ela é imprescindível, não porque não tem fundamentos técnicos e científicos, porque está baseada num relatório que ainda ninguém demonstrou se e onde falha, mas apenas porque é preciso afastar Correia de Campos.

Era previsível que se acendessem todos os rastilhos e que as forças mais conservadoras da sociedade, que vão da direita à esquerda, aproveitassem todas as brechas que se abrissem.

Correia de Campos tem ajudado bastante, com a enorme inabilidade que tem mostrado, falando e rindo quando deveria estar calado e sério. Mas isso não é motivo para se afastar um ministro.

Só o facto de Sócrates ter centralizado o problema da reorganização da rede de urgências, fragilizou enormemente o ministro. O recuo na decisão de quais as urgências que fecham, fragiliza todo o governo e corporiza uma estrondosa derrota política.

É claro que Marques Mendes, que tem andado a dizer a Sócrates para pôr o ministro da saúde na ordem, já contabiliza como vitória o recuo do governo, que teve medo da rua, e criticando-o por isso.

Podem suspirar de alívio todos os que querem suspender o país. Mais uma vez, vamos suspender.

Título tinhoso

Quando se fala tanto no fim dos jornais generalistas, quando se discute qual a orientação a dar à informação, se deve ser factual ou interpretativa, se deve haver artigos de opinião ou artigos aprofundados sobre assuntos específicos, eis que nos deparamos com exemplos do que é um péssimo serviço prestado às populações, ao jornalismo e aos jornais.

No DN oline o título desta notícia “Confirmada relação entre tinha e tumores”, para além de ser um enorme disparate em termos científicos, só pode alarmar as pessoas que, nalguma ocasião, tiveram ou terão tinha.


A tinha é uma infecção da pele, provocada por diversos tipos de fungos, contagiosa, que se classifica de acordo com a localização no corpo e se trata com antimicóticos. Mas, há cerca de 40, 50 anos, usavam-se radiações para tratar alguns tipos de tinha (tinha do couro cabeludo, com irradiação da cabeça e pescoço). Sabendo-se, hoje em dia, que as radiações aumentam a probabilidade de se desenvolverem alguns tipos de cancro (pele, tiroideia, etc), o IPATIMUP está a desenvolver um projecto de investigação que consiste em determinar se houve aumento da incidência destes tipos de cancros (ou outros) em doentes que tenham recebido tratamentos com radiações para tratar a tinha, pensa-se que cerca de 53.000 crianças, no Porto e arredores.

Tudo isto está explicado no artigo, ou seja, não é a tinha que está relacionada com tumores, mas sim as radiações usadas para tratar a tinha.

Para assunto tão comichoso foi intitulado de uma forma bem tinhosa!

(tinea capitis – hifas e esporos)

Inutilidade

Ontem discutia-se sobre o significado da poesia, sobre o ser poeta, sobre o artifício da linguagem, a transfiguração da palavra, sobre a mensagem poética.

Só, perante a minha inutilidade como definidora ou catalogadora de actividade tão íntima, tão exigente, tão manipuladora, em frente das palavras que brotam não sei se das vísceras, se da pele, se de algo mais transparente e sinuoso que tenha nome, não me sinto poeta, não me sinto artística, não me sinto mais do que a pobre e miserável tentativa de me olhar, de arrancar de mim esse desacerto, esse desconcerto, esse desassossego que me angustia.

Serei um poeta? Ou serei apenas infinitas possibilidades de mim, fraccionadas umas, expostas outras, hipersensíveis, que se entrechocam e se moldam sem que o eu que me analisa o compreenda?

Serei um poeta? Ou serei apenas o conjunto de emoções pouco atractivas, violentas, repressivas, que se enfeitam e transformam em vazio e nada?


(Ira-Ono: masks)

"Que a voz não te esmoreça/vamos lutar"

Foi em Cabo-Verde, em 1973 que, pela primeira vez, ouvi Zeca Afonso. Não fazia ideia de quem era, o que representava, o que era a política ou qual era o regime em que vivíamos. Não sabia o que era a censura.

Dos problemas de que falavam poucos e das dores de muitos, só me apercebia a 10 de Junho, dia de Portugal, quando o Presidente Américo Tomás condecorava garotos, viúvas, velhos pais e velhas mães, rapazes e homens estropiados, alguns com as mangas dos blusões e as pernas das calças vazias, outros sem olhos, outros conduzidos em cadeiras de rodas, com aquela voz monocórdica lembrando aos portugueses que eles tudo tinham dado pela pátria. Eram momentos de silêncio arrepiante, em que os olhos da minha mãe se marejavam de lágrimas.

Outras vezes em que a palavra pátria nos estremecia era por alturas do Natal, no desfile de rapazes que enviavam, pela televisão, aos seus "entes queridos, pai, mãe, minha adorada mulher e minha filha, um Feliz Natal e um ano cheio de prosperidades. Adeus, até ao meu regresso". Entes queridos que, provavelmente, nunca ouviram esses postais, enredados nas suas vidas feitas de ausências e suspiros, pela inevitabilidade do tributo a prestar à mãe pátria.

Mas em Cabo-Verde, local que o meu pai nos tinha mostrado, numa tarde de Verão, abrindo o Atlas e apontando as ilhas no meio do Atlântico: “é para aqui que vamos, por 2 anos”, totalmente desconhecido, em que aterrámos virgens de mornas e coladeiras, de pão de custarda e de cachupa, bebendo água de um dessalinizador, regalámo-nos de vida boa e de liberdade, adolescentes que éramos entre os 10 e os 15 anos.

A pracinha do Mindelo, a Baía das Gatas, o Monte Cara, os pátios das casas, os terrenos envolventes, as noites cálidas em que os grupos se juntavam a conversar e a participar em sessões de espiritismo, que acabavam sempre à gargalhada, a vida ao ar livre, o crioulo, o liceu, os colegas de várias cores, as recepções nas varandas das casas, as modistas, a má língua, das capitoas, majoras, comandantas e almirantas, o professor de canto coral, as aberturas solenes dos anos lectivos, tudo era uma descoberta, tudo era bom e eterno, mesmo sabendo que estávamos a prazo.

Não havia televisão, mas não fazia falta. Tínhamos as rádio-novelas e os gira-discos, um móvel de pés cónicos, com tampa superior, onde se colocavam os discos que os Alferes milicianos ou as suas esposas traziam da metrópole.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou

E foi este o encanto que nunca se quebrou. Ainda hoje, depois de tantos anos, ainda ouço, como se ainda estivesse sentada no chão fresco de tijoleira, com o cão a tentar acomodar-se debaixo de uma mesa:

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Era o canto de Maio e da esperança. Estávamos todos na Primavera. Após estas estações invernosas apetece cantar com o Zeca Afonso: “Que a voz não te esmoreça/Vamos lutar”. Sempre.

Suspendamos

É claro! É preciso suspender a reorganização da rede hospitalar, como era preciso suspender o fecho das maternidades e o fecho das escolas com menos de 10 crianças!

Ao fim de 2 anos, o governo é acusado de apenas ter afrontado algumas classes profissionais, ter tomado algumas medidas superficiais, sem reformas estruturais. No que diz respeito à reorganização da rede de urgências que, no entender da oposição, chefiada pelo PCP e secundada pelo PSD, não é uma reforma estrutural, esta deve ser suspensa.

Aliás, a única coisa que a oposição tem para oferecer é a suspensão. Já vem de longe, com a suspensão da co-incineração, e agora com a suspensão das responsabilidades governativas na Câmara de Lisboa (em que parece que estão todos de acordo em manter a Câmara em suspensão!). O PCP quer que haja explicações técnicas que justifiquem esta reorganização. Devem querer que se nomeie outra comissão científica, tal como já aconteceu com a co-incineração. Se as comissões científicas não dizem o que a oposição quer, nomeia-se outra!

Este país é exímio em estudos, comissões, diagnósticos e considerações. Por isso é que, desde há tantos anos, está suspenso!

Pág. 1/5