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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Condição Militar


Em Portugal, apesar de muito se falar pouco se decide e quase nada se faz de acordo com o que se promete. As Forças Armadas portuguesas, depois de um período áureo após o 25 de Abril, em que foram consideradas heroínas nacionais, com a consolidação da democracia e com a natural subordinação ao poder político, foram sendo esquecidas, abandonadas, desprezadas e vilipendiadas.

Hoje em dia é frequente ler e ouvir diversas personagens interrogarem qual as funções dos militares, discorrerem sobre a inutilidade do financiamento do Exército, Marinha ou Força Aérea, dando a entender, implícita ou explicitamente, que o conjunto dos militares são sobejamente dispensáveis na nossa sociedade democrática, e que qualquer arremedo de protesto da parte da própria Instituição deve ser esmagada arrogante e exemplarmente.

Com frequência são as mesmas pessoas que sugerem a importância da representação de Portugal no exterior, nomeadamente com a presença das mesmas Forças Armadas em terrenos de conflito internacional, como parte de corpos de manutenção da paz, congratulando-se com o elevado profissionalismo e qualidade desses corpos especiais.

Ontem, a propósito da divulgação de uma carta ou memorando do Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (Almirante Mendes Cabeçadas) ao Ministro da Defesa, Jorge Coelho, na Quadratura do Círculo, defendeu que os militares deveriam acatar as decisões do governo e que era natural que não gostassem quando lhes tiravam regalias, o que acontecia com todas as outras classes profissionais. E ainda que era preciso cumprir a lei. E ainda que não é por eles terem armas que se deve recuar.

É claro que o país é pobre e tem muitas dificuldades. Mas os militares não têm uma profissão idêntica às outras profissões, não são funcionários públicos como todos os outros. São servidores do Estado com deveres muito específicos, entre os quais a disponibilidade completa do seu tempo, da sua pessoa, por vezes da sua própria vida. Não têm os mesmos direitos cívicos que todos os outros cidadãos, visto não poderem manifestar-se, criar sindicatos que tratem dos seus problemas laborais, que reivindiquem aumento de ordenados ou pagamentos de horas extraordinárias (para eles não há horas extraordinárias), não podem pertencer a partidos ou candidatar-se a cargos políticos, têm algumas das suas liberdades cívicas cerceadas.

Parece-me natural que o Estado deva dar algumas contrapartidas a estes seus servidores. Sou a favor da extinção da ADSE, das caixas de previdência dos magistrados, dos juízes, dos advogados, dos médicos, dos jornalistas, até de toda a função pública. Com excepção do subsistema de saúde para os elementos das Forças Armadas, da Guarda Nacional Republicana e da Guarda Fiscal. Sou totalmente a favor de se olhar para as remunerações e para os fundos de pensões destes cidadãos de forma distinta da utilizada noutros grupos profissionais.

Esta é a chamada “condição militar”, que é tão importante que tem forma de lei (Lei n.º 11/89 de 1 de Junho - Bases gerais do estatuto da condição militar) aprovada por Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro. Será que esta lei está a ser cumprida?

Será que nos outros países da União Europeia os militares têm o mesmo estatuto que em Portugal? Será que o nível remuneratório, a protecção na saúde e na doença e a protecção às famílias são comparáveis?

Eu também acho as manifestações, associações, passeios e sindicatos absolutamente inaceitáveis, além de ilegais, a pedirem uma resposta firme e imediata da parte do governo. Mas será que um governo que quer ser respeitado tem tido o mesmo respeito pela instituição militar?

Aos militares pede-se que honrem o seu compromisso. Ao Estado pede-se que honre os seus cidadãos, entre os quais aqueles que são o último garante da existência do próprio Estado.

Outras margens


Esqueço-me muitas vezes de abrir a janela e deixar esfriar a pele, secar afogueamentos de paixões inúteis, estéreis, frívolas, respirar a humidade da noite, sentir as luzes que se movimentam nas casas, viver para lá dos compromissos, da tortura do controlo.

Outras margens me esperam, outras viagens planeadas, outros acasos surgirão. Na roda do imparável, microcosmos no universo, pequenas moléculas num organismo que se move lentamente em direcção ao caos.

Desenho fronteiras quando escrevo
letras e sementes inventadas.
Para lá do poema apetecido
guardo as palavras cobiçadas
na sombra do sonho proibido.


(pintura de Irene Gomes: os moinhos de vento)

"No importa"


No importa si fracaso en mi tarea,
al fin y al cabo lo inmutable siempre
seguirá siendo lo inmutable, y nada
sumo o resto. La luna estará quieta
desvelándome siempre. Las orillas
seguirán desgarradas por el mar.
El sol seguirá siendo el implacable
deslumbramiento. Siempre habrá una araña
que vomite cristal y seda juntos.
Siempre habrá niebla. Y seguirá existiendo
la violenta ternura de tus manos.


(poema de Amalia Bautista; pintura de Bill Gingles: all the angels come)

"Flexi-sugurança"

Quando ouvi, na TSF, a grande notícia do dia, sobre a “flexi-segurança” que o nosso governo quer importar da Dinamarca, aquele maravilhoso sistema que, segundo a mesma TSF, aumenta a flexibilidade nos despedimentos, mas aumenta a formação e os subsídios de desemprego, fiquei muito apreensiva.

Então não estamos a fazer tudo para reduzir as despesas do estado? Parece-me que, entre nós, haveria um desequilíbrio a favor do flexi… Pelos vistos, há quem pense exactamente o mesmo, e com motivos bem mais fundamentados!

Há dias...


Há dias em que é difícil olhar para nós, portugueses, e para o nosso país, Portugal, sem sentir um nó de tristeza, de cansaço e de revolta, depois da esperança que tentamos renovar diariamente, depois da mudança ensaiada em 25 de Abril, tantas vezes adiada por aqueles que prometem ciclicamente cumpri-la.

Quase no aniversário do 25 de Novembro, militares na rua, a “manifestarem-se”, polícias a darem “conferências de imprensa” mascarados de terroristas, inaceitável numa sociedade que se diz democrática; políticos e bons pensadores, bons condutores de pensamentos da alma lusa, a discorrerem sobre a falta de necessidade de financiamento das Forças Armadas, sobre a inutilidade da tropa em tempo de democracia. Democracia essa que, não se cansam de nos lembrar, não é devida aos militares, porque a tão interessante e corajosa sociedade civil esteve amordaçada e trancada durante os longos 40 anos do fascismo.

Hoje ouço na TSF que um dos presumíveis autores do alegado crime de Camarate confessou, numa entrevista que sairá amanhã, na Focus, ter de facto feito deflagrar uma bomba a bordo do avião onde seguiam, entre outros, Sá Carneiro e Amaro da Costa, à data primeiro-ministro e ministro da defesa de Portugal, respectivamente. Vinte e seis anos, milhares de páginas, declarações, opiniões, comissões parlamentares e de peritos, após ter sido confirmada em Maio deste ano, pelo Supremo Tribunal de Justiça, a prescrição do “caso Camarate”, alguém tem a audácia de proclamar ter cometido um crime.

Seja verdade ou mentira o que mais dói é o facto de ninguém acreditar em tudo o que entretanto foi feito para “apurar” a verdade, ou mesmo no dito José Esteves. Ou, o que é mais grave, cada um acredita no que quer porque não há forma de saber o que, de facto, aconteceu. Qual é a garantia, enquanto cidadãos, de sermos protegidos pelo sistema judicial? Qual é a garantia de separação entre o poder político e o poder judicial?

Não sei como se sentem os deputados, nacionais e regionais, que se insultam mutuamente nas discussões parlamentares, que representam esta tragicomédia de apoio e de oposição ao governo, que nomeiam e desnomeiam comissões de inquérito e comissões científicas, gastando o dinheiro dos contribuintes em relatórios, para se queixarem mais tarde do dinheiro que gastaram, e para novamente pedirem estudos, como o que se está a pedir agora, mais um estudo de impacto ambiental, para arrancar com a coincineração em Souselas.

Que fizemos nós, em 30 anos de democracia?

Sopro

Um dia já não estarei
neste corpo enxovalhado,
capa seca e estaladiça
desta alma quebradiça.

Nesse dia guardarei
cada nervo desmaiado,
nesta caixa esvaziada
pela morte desabitada.

Um dia já não serei.
O molde em massa desfeito
num pó fino e rarefeito,
acaso no espaço soprado.

(desenho de Mário Cesariny: a primeira lição)

Época Natalícia

Este ano parece difícil adquirir o espírito natalício. O país anda pouco festivo, mais cinzento e húmido que verde e vermelho, mais prata baça que dourados flamejantes.

Não se vêem turbas multas nas lojas, acotovelamentos, pais natais, renas e neve a fingir. Vêem-se caras coladas às montras, olhares vagarosos pelas portas abertas, espreitando a sedução das cores.

Quando os miúdos da família e dos amigos eram pequenos, eu tinha verdadeiros ataques de pânico na altura das prendas, quando comprava e quando recebia. Por muito que alertasse para a enorme quantidade de bugigangas que enchiam os quartos, a que eles não ligavam nenhuma, a não ser os escassos segundos que demoravam a rasgar os papéis de fantasia, as pilhas de coisas inúteis que atravancavam a casa e a minha alma, a noção de desperdício, da imoralidade da abundância, não era possível travar a avalanche presenteadora.

De há uns anos para cá resolvi que nunca mais gastaria dinheiro, tempo e imaginação a correr de loja em loja. Resolvi que, com a mesma imaginação e o mesmo tempo, era capaz de idealizar ofertas manufacturadas para os meus amigos e familiares. É surpreendente o que podemos criar com as mãos, boa vontade e muita paciência.

Hoje inaugurei a minha própria época de Natal, ligeiramente atrasada, com uma sessão compoteira. Para quem quiser experimentar, aqui fica a receita:

 

Compota de marmelos com laranja:

  • Descascam-se os marmelos e tiram-se as sementes e o núcleo (se se quiserem aproveitar as cascas e as sementes para fazer geleia, convém lavar os marmelos muitíssimo bem!);
  • Cortam-se os marmelos em pedaços pequenos (mais ou menos cubos com 1,5 cm de lado);
  • Pesam-se os pedaços de marmelo e colocam-se numa panela / tacho bem grande;
  • Espremem-se várias laranjas até perfazer o mesmo peso (1 l de sumo e polpa de laranja / 1 Kg de marmelo);
  • Cozem-se os marmelos no sumo e polpa de laranja durante cerca de 15 minutos, com paus de canela (1 por cada quilo);
  • Quando os marmelos estiverem cozidos (espeta-se um garfo para ver se estão macios) junta-se 650 g de açúcar por cada quilo de fruta (marmelos e laranja, ou seja, 1 Kg de marmelos com 1 l de sumo de laranja correspondem a 2 quilos de fruta);
  • Deixa-se ferver até adquirir o ponto certo, que é o ponto de estrada (deita-se um pouco de doce para um prato frio e passa-se uma colher por ele. Se ficar um espaço sem doce, sem que este se precipite liquidamente para o espaço, está feito);
  • Deita-se em frascos de boca larga e fecha-se bem.

Truque: como já tive que desenfrascar o doce outra vez para ganhar mais ponto, se tinha pouco, ou diluí-lo com água, se estava com ponto a mais, agora deixo-o na panela até arrefecer. Se estiver bem, enfrasco, se não, vai outra vez ao lume.

Dez réis de esperança

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.


(poema de António Gedeão; pintura de Ismael Cuevas Jordán: esperança)

Política no feminino

A propósito de Ségolène Royal, à volta de um excelente vinho e não menos excelentes petiscos, discutíamos, eu e duas amigas, se a existência de poucas mulheres em lugares relevantes da política se deve ao menor número de oportunidades que as mulheres têm, na nossa sociedade habitual, ou se à sua menor apetência pelo jogo político.

Houve quem defendesse que a política é um jogo de estratégia e planeamento e, por isso, um jogo masculino, mediado pela testosterona. Que as mulheres são pragmáticas e que não têm paciência nem jeito para o poder, têm outros interesses, nomeadamente o apelo biológico da maternidade e do cuidar, que seria, penso eu, mediado pelos estrogénios.

Eu penso que, para além de ainda não existirem igualdade de oportunidades entre os dois géneros, pois não há uma verdadeira distribuição equitativa das tarefas domésticas e de apoio familiar, a verdade é que o tipo de poder exercido tem uma marca essencialmente masculina e que, a esse tipo de poder, as mulheres resistem e afastam. Mas também penso que, na medida em que houver cada vez mais mulheres a ascender a cargos políticos relevantes e de direcção, a forma de exercício da governação se transformará, levando as mulheres a procurarem mais a luta política, com armas e objectivos diferentes.

Será interessante observar o que se vai passar nas próximas décadas.

Numa coisa acordámos todas: as quotas de participação feminina são uma forma machista de resolver a questão!

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