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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Serviço público

Todos sabemos que a Ministra da Educação tem razão quando fala da organização dos horários e da formação das turmas, do cumprimento burocrático e da falta de orientação e motivação das escolas.

Todos sabemos que é verdade que nas várias instituições do Estado, que deveriam providenciar os melhores serviços a todos os cidadãos, ter funcionários exemplares que entendam o que é serviço público, está instalado o laxismo, o deixa andar, o tanto faz fazer muito como pouco. Estou a referir-me a escolas, centros de saúde, hospitais, tribunais, serviços de finanças, etc.

Deixemo-nos pois de gritinhos de espanto e poses de virgens ofendidas e desvirginadas quando o ouvimos dizer, alto e claramente, por quem deve zelar para que as coisas mudem.

Deixemos pois de clamar contra o governo e contra o parlamento e contra o presidente. Somos nós, como sociedade, que temos que nos exigir mais. Premiar quem merece, punir quem não merece.

As reestruturações das várias carreiras são indispensáveis. As progressões por mérito, por concursos públicos, por capacidades, por dedicação, são imperiosas, como imperioso é avaliar a competência dos profissionais, desde os mais altos responsáveis.

Não se admitem mais conjuntos de frases bombásticas da parte de quem diz que defende mas só desacredita os verdadeiros profissionais.

Cortar

Ontem, Medina Carreira no seu melhor. Penso que não devemos preocupar-nos com a despesa, com os impostos, com o emprego, com o país, visto que não tem solução, visto que ainda não estamos preparados para as verdadeiras, as fundamentais, as profundíssimas reformas que ele, Medina Carreira, sabe que são necessárias. Não diz é quais.

Sabe que Teixeira dos Santos diz uma parcela da verdade, mais precisamente 20%, mas que os restantes 80%, em que estão incluídos os serviços de saúde, de educação, subsídios de desemprego, de maternidade, etc, estão envoltos em brumas e cortinas de fumo.

Porque não nos disse ele então como cortar nesses 80%? Passamos a ter que pagar a educação, as consultas médicas, os internamentos hospitalares? Deixamos de receber 13º e 14º meses, subsídio de desemprego, subsídio de alimentação? Deixamos de ter direito aos 4 meses de parto, subsídios de funeral, abonos de família?

O quê? Eu estou preparada! Acho é que Medina Carreira não está preparado para mo dizer!

Abafante


Todos os esforços para que haja o maior contacto possível entre a pele e o ar, se fosse possível a suspensão no ar. Quente, pesado, peganhento, como uma grande mão suada que nos envolve e sufoca.

Não há diferenças de temperatura entre o ar exterior aos pulmões e o ar que está nos alvéolos, tão preguiçoso que demora a trocar dióxido de carbono por oxigénio. Tudo se mexe devagar, para não fabricar calor.

Fecham-se todas as persianas e abrem-se todas as janelas. Ao lusco fusco, junto a um copo de água e ouvindo cds da Dinah Wasington, espero dolentemente que arrefeça.

(Pintura de Jon Schueler: summer storm)

14 meses

Medina Carreira é um catastrofista emérito, senhor de previsões apocalípticas e azedume no olhar.

Mas, infelizmente, tem muitas vezes razão. E tenho que concordar que os cortes na despesa pública têm que ser feitos de imediato.

Quando se fala do novo cálculo das pensões, que irão afectar os próximos pensionistas, isto se houver pensões a distribuir, porque não reduzi-las já, agora, este ano? Porquê adiar o que, todos concordam quanto a esse ponto, é inadiável?

E depois, se não há dinheiro para pagar um 14º mês aos reformados, como se vem ouvindo murmurar, qual boato insidioso que se lança a ver se pega, então porque não deixar de pagar o 14º mês a toda a gente? Mas toda mesmo, incluindo administradores e directores, função pública e sector privado. Parece-me mais justo e mais solidário, em vez de, demagogicamente, acenar com o facto de os reformados já não trabalharem.

Em quantos países os trabalhadores recebem 14 meses?

Mais avaliações

As avaliações são sempre injustas porque é impossível reduzir a zero os imponderáveis que podem influenciar a prestação de um indivíduo num determinado momento.

Mas as avaliações são indispensáveis, principalmente se feitas por actores externos a quem está a ser avaliado, e se forem usados critérios objectivos.

Vem isto a propósito da anunciada avaliação dos professores, para efeito de progressão na carreira.

Hoje os títulos dos jornais são menos bombásticos que os de ontem. Hoje os pais já só vão participar, juntamente com as autarquias, os alunos e os próprios professores (auto avaliação) numa nota final. Continuo sem conhecer o documento.

Mais uma vez, somos bons a produzir documentos esdrúxulos, que contém muitas palavras que querem dizer pouco. Muitas (boas?) intenções, mas pouco rigor e pouca aplicabilidade.

A avaliação dos professores faz-se determinando se os alunos aprendem ou não. Ou seja, através dos resultados de exames nacionais.

É claro que a assiduidade, o bom humor, o número de complementos de formação, etc, que fazem parte da vida escolar, também são importantes. Mas o que demonstra que um professor consegue ensinar é comparar as notas que ele dá, no fim de cada período, com as notas que os seus alunos têm em exames nacionais, em que os factores locais e circunstanciais estão esbatidos.

O que quer o ministério dizer com o conceito de ser necessária uma maior responsabilização dos pais? Que eles têm que fazer os trabalhos dos filhos, com os filhos, até altas horas da noite? Que são obrigados a perceber de matemática, história ou português para lhes tirarem as dúvidas? Que devem obrigatoriamente ter um computador, internet, impressoras, “scanner”, etc, para fazerem os elaborados trabalhos que são pedidos às suas crianças?

Tanto se fala da integração dos imigrantes, da luta contra a pobreza, o analfabetismo funcional, o abandono escolar. O que deveria preocupar o ministério, a par de uma avaliação rigorosa dos seus professores, deveria ser uma responsabilização dos conselhos directivos, que têm como função orientar e avaliar, uma remodelação total dos curriculae, abandonando a facilitação e instalando uma cultura de disciplina, rigor e verdadeira formação, com componentes lectivas e não lectivas asseguradas pelos professores, que deveriam dedicar-se a tempo inteiro à sua escola e aos seus alunos. Desenvolver o orgulho de pertença a uma instituição, premiando o mérito dos alunos. Melhorar as instalações escolares, de forma a ser possível, de facto, professores e alunos permanecerem na escola a trabalhar.

É claro que já há ameaças de greves da parte dos sindicatos (tudo como dantes). Gostaria de, nem que fosse só por instantes, ouvir os sindicatos a defenderem e a pedirem exames nacionais.

Avaliações

Não percebo muito bem qual o objectivo do governo ao propor, no estatuto da carreira docente, que os pais possam avaliar o desempenho dos professores, contando essa avaliação para uma possível progressão na carreira.

Obviamente aplaudo que a progressão na carreira seja feita se houver uma avaliação positiva do trabalho de um professor, e concordo com concursos e com provas, sejam elas de que tipo forem, para aceder a um grau superior, com a consequente alteração de funções, responsabilidades e, bem entendido, melhor remuneração.

Considero a participação dos encarregados de educação na vida educativa positiva, desejável ou mesmo indispensável. Mas avaliar os professores? Em que vertentes? Se é simpático ou antipático, se dá boas ou más notas, se tem muito ou pouco sucesso?

A avaliação dos professores, como a avaliação de qualquer técnico, deve ser feita pelos seus pares, com rigorosos critérios científicos, de competência técnica e, neste caso, pedagógicos.

Não conheço em pormenor a proposta do governo, mas torço o nariz a esta medida que pode ser politicamente muito correcta, mas cujos resultados serão, muito provavelmente, desastrosos.

Para variar, estou de acordo com a posição dos sindicatos, relativamente a esta matéria específica.

E se fosse dada aos professores a possibilidade de avaliarem os encarregados de educação?

Dogmas

No nosso imaginário colectivo vemos doentes lado a lado, vencedores e vencidos, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus, de esquerda ou de direita.

Será dos momentos em que a nossa humana condição nos demonstra a suprema igualdade dos seres e a inutilidade das várias distinções em que somos exímios criadores.

Mas hoje, ao ouvir dizer que em Timor, no hospital, se separavam os feridos consoante o “lado” a que pertenciam, senti ruir mais um dos dogmas por que sempre me regi.

Clandestina


Neste amolecimento quotidiano
alimento os cofres clandestinos,
estico as bandeiras do silêncio,
aguardo o abanar das fibras.

Nesta penumbra de nós enredados
aliso os lençóis. Pesa-me o sono,
alonga-me a noite de sussurros,
mil olhos que transpiram sinais.

Folheio o catálogo das emoções.
Mais tarde decido quais as gotas
De dor e desvario, de intenso amor
que liberto destas secretas prisões.


(pintura de Manel Lledòs: segredos)

Boas notícias!

Ouvi na rádio que, finalmente, vai deixar de haver direito de propriedade das farmácias (pelos farmacêuticos), que as farmácias hospitalares vão estar abertas ao público durante as 24 horas do dia, que os medicamentos vão deixar de ter preço único.

Aleluia, aleluia! Sr. Ministro, ainda falta a prescrição médica por denominação comum internacional, mas já é alguma coisa!

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