Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Na voz de Amália

Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

 


(poema de Alexandre O'Neill; pintura de Joaquim Rodrigues: fado)

Pseudo-anarco-esquerdista disparatada

Bem sei que é irracional, imaturo, se calhar totalmente infundado, e pseudo-anarco-esquerdista disparatado, mas não deixei de sorrir escarninhamente ao ler este artigo sobre as remunerações dos administradores do BCP, saído no “The Wall Street Journal” de ontem, onde se afirma que “estão a encher os bolsos à custa dos accionistas”.

A golbalização é irreversível, o mundo mudou, temos que nos adaptar às novas ordens mundiais económica, política e social, temos que prescindir dos privilégios que adquirimos nestes últimos 50 anos. Todos já conhecemos esta retórica e, em maior ou menor grau, todos concordamos com ela, é inevitável.

Mas há um sentimento incómodo de que qualquer coisa está virada do avesso. Num país em crise há tanto tempo, em que não aparecem sinais de melhoria, mesmo com políticas de austeridade que, muitos clamam, são insuficientes, muito provavelmente com razão, não deixa de fazer eco na lógica das coisas simples a reflexão de Rui Tavares, no "Público de hoje: “Socorro: somos todos uns privilegiados - Um dos aspectos mais proeminentes do discurso político contemporâneo é que as castas dominantes, que não perfazem juntas mais do que um por cento da população, têm por hábito chamar privilegiados à maior parte dos restantes 99 por cento”.

Populismo? Pois, pois é, mas desconfortavelmente a fazer sentido.

Reflexo


Olho o vidro fixamente, como quem o limpa
do reflexo de mim, da luz baça que sobra,
da memória do que segundos antes acontecera.

Sopro no vidro ar quente e morno,
nevoeiro cúmplice do esquecimento,
impressão digital que carimba a sombra
dos olhos que não vêm esta penumbra.



(fotografia Nelson Hankock: fog)

Opinião

É muito interessante observar, ler e ouvir as análises dos jornalistas e dos comentadores políticos (que se confundem cada vez mais), a propósito da actuação dos governos, das oposições, e do que pensam ser a repercussão destes nas opiniões públicas.

Tenho cada vez mais a sensação de que um grupo fala de um grupo para um grupo, e que o grupo é sempre o mesmo, muito pequeno, muito homogéneo, sem qualquer relação com o resto da enormemente maioritária população.

É claro que a verdade é um conceito que varia de pessoa para pessoa. Filosoficamente podemos discutir se um facto existe independentemente ou se só existe se quando falado, sendo diferente para cada diferente pessoa que discorra ou reflicta sobre ele.

Mas as verdades ou factos que vemos, ouvimos e lemos são totalmente diferentes dos que nós apreendemos.

Perigoso é se os responsáveis políticos decidem tendo em conta o pequeno grupo que fala sobre ele, ou o outro grupo gigante silencioso. Desconfio que o próprio governo pertence ao primeiro grupo.

E se o governo só existe porque falamos dele?

Amigos


Mal nos conhecemos
inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo
uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
amigo vai ser, é já uma grande festa!


(poema de Alexandre O'Neill; pintura de Olexander Sadovsky: friends)


Amigos são os desconfiam da nossa dor, e que nos afagam com uma palavra, um sorriso, uma gargalhada. Amigos são os que nos mantém a alma acesa. Amigos são os que queremos inundar com a nossa alegria. Amigos são os que nos ouvem, mesmo quando estamos em silêncio.

Para os meus amigos, os meus queridos amigos.

Chernobyl


O acidente na central nuclear de Chernobyl, há 20 anos, transformou em medo tudo o que diga respeito à energia nuclear.

Claro que continua a haver armamento nuclear, claro que o poder continua a ser proporcional à possibilidade de construção de armas nucleares. Mas na realidade, há um manto diáfano e obscuro de medo e sensação de assunto intocável quando se fala em energia nuclear.

É óbvio que a ciência evoluiu muito em 20 anos e que não há verdades inamovíveis, é óbvio que as condições das centrais mais modernas são outras, é óbvio que o regime ditatorial que existia na antiga União Soviética impediu que a informação fosse mais veloz e que a ajuda exterior fosse mais eficaz (também no caso do acidente no submarino Kursk, bem mais recente, os mesmos “tiques” se notaram). Bem a propósito vem um artigo assinado por Mikhail Gorbatchov, no "Público" de ontem, em que afirma que o que verdadeiramente fez desmoronar a União Soviética foi a catástrofe de Chernobyl.

Para além de todas as consequências imediatas e de médio prazo a que se assiste, nomeadamente ao enorme aumento de incidência de neoplasias malignas da glândula tiroideia e de outras neoplasias, de patologias da gravidez com hemorragias, descolamento placentar e atraso de crescimento intra-uterino, o que mais assusta é que ainda ninguém sabe como resolver o problema do sarcófago que envolve o reactor, nem quais as consequências a longo prazo, para já não falar do enorme esforço económico sem limite temporal visível.

E parece que a substituição do petróleo pela energia nuclear não resolve minimamente a dependência crescente do petróleo a que o mundo está sujeito, porque não há alternativas para combustível para os meios de transporte.

A opção ou não pela energia nuclear deve ser discutida a sério, sem enfiar a cabeça na areia, e sem perder de vista problemas técnicos ainda irresolúveis, como o lixo nuclear e, mais importante e mais preocupante, como impedir e estancar as consequências de um acidente semelhante ao de Chernobyl, que pode voltar a acontecer.

Infelizmente, em Portugal, o assunto está a ser abordado porque um senhor chamado Patrick Monteiro de Barros quer fazer uma central nuclear! Ainda não ouvi ninguém dizer quanto é que se poupa em divisas, qual a percentagem de energia que poderia ser substituída, qual o preço a que pagaríamos a electricidade, aonde se faria, quais os riscos e quais os planos de contingência na hipótese de um acidente nuclear.

Será que o Patrick Monteiro de Barros sabe responder?

Espumas


A “espuma política” – nova expressão de politiquês. Só hoje já deparei com ela duas vezes.

Pelos vistos é cada vez mais espuma e menos política.

Cavaco Silva trocou as voltas à oposição. Em vez do estafado “recado”, “ralhete” ou “puxão de orelhas”, lembrou-se da sua social-democracia e apelou a um “pacto” (mais um) para combater a exclusão social. A verdade é que deixou os bloquistas e os comunistas à nora. Como dizer mal?

Deixa-me triste o triste espectáculo dos mesmos sindicatos com as mesmas palavras de ordem, aproveitando as mesmas desgraças, a clamar pelas mesmas reivindicações, todos os anos, desde há 32.

A contestação transformou-se em espuma contestatária, na espuma da memória da espuma dos anos.

Diálogo (7)


- Já ouviste o rádio?
- Porquê?
- Já saiu!
- Quem?
- Oh pá, a tropa! Já passou por cá o Antero. Parece que agora é para valer!
- Onde está o Moço?
- Não consigo falar com ele. Estivemos toda a noite a tentar reunir o grupo.
- Vou já para aí!
- A tropa está na rua! Lisboa está na rua! Desta vez não conseguem calar-nos!

Revolucionemos!


Há 32 anos e 1 dia, éramos mais pobres, mais tristes, mais apáticos, mais desesperançados. Há 32 anos, um grupo de gente corajosa, talvez inocente, talvez jovem, talvez sonhadora, deu corpo e asas aos anseios de um país morno e sem chama.

Após estes 32 anos, a chama é pequena, minúscula, mas alumia. O país tem mais cor, vive-se melhor.

Por muitas dificuldades, défices, desempregados, injustiça, endividamento, corrupção, e outras desgraças modernas e antigas, estamos melhor. De vez em quando são necessárias roturas, para refundação de objectivos, de sonhos, de juventude.

A memória do que era deve fazer compreender que pode voltar a ser. A memória do que é deve abrir a vontade do que ainda poderá ser. Revolucionariamente, é preciso querer fazer mais e melhor, trabalhar, aprender, ensinar, partilhar.

Somos todos iguais: temos todos coração, intestinos e sangue, todos choramos e rimos, temos medo da dor e da solidão, da fome e da guerra, todos somos capazes de amar, nascemos, vivemos, sofremos, morremos.

Seja qual for o sexo, a raça, o credo ou a origem, o mundo pode ser melhor, connosco.

Pág. 1/6