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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Bur(r)ocracia

Há cerca de três anos precisei de passar uma procuração para resolver um assunto, pois não me encontrava presente na altura aprazada.

Pensando que estava a realizar um grande feito, resolvi escrever o documento no computador, com letra Arial 11, a espaço 1,5, com justificação à direita e à esquerda, sublinhados e bolds, datas e nomes completos, todos os números de que me consegui lembrar, enfim, a parafernália dos documentos oficiais.

Faltava apenas a assinatura, que tinha que ser presencial e reconhecida. Daí a ida ao notário.

Foi antes da privatização. O notário ficava no 2º andar de um prédio velho, sem elevador, e deitava filas por fora, já na escada do 1º andar.

Depois da senha e da respectiva espera, por acaso até nem foi muita, apresentei o papel impresso com os dizeres e as identificações, preparada para assinar, pagar e sair.

Que não, que não podia ser assim, que tinha que ser um documento manuscrito, presencial, assinado na altura, em frente dela (a funcionária), que era o que a lei dizia.

Apeteceu-me pedir-lhe logo a tal lei, para que constatasse com os meus próprios olhos o anacronismo da mesma, mas estava com pressa.

Por isso, estiquei-me toda (sou muito baixa) para escrever com letra legível (o que para mim é sempre uma tarefa árdua) um documento na presença da funcionária, para que ela atestasse da veracidade do dito.

Qualquer medida que este governo tome para mudar este estado de coisas (burocracia e funcionário(a)s pouco iluminado(a)s) tem o meu apoio incondicional, aplaudido e agradecido!

MARL - realidade virtual


Alguém sabe o que é o MARL? Já alguém foi ao MARL?

O MARL é o Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, SA. Como o próprio nome indica, serve para que os comerciantes se vão abastecer de comida, fruta, peixe, congelados, vinho, queijos, flores, etc.

O meu contacto com o MARL deveu-se à vontade de comprar um produto dos Açores, mais precisamente vinho da ilha do Pico, comercializado pela Companhia dos Açores, que, depois de vários e-mails sem resposta, informou que os seus produtos estavam à venda no “El Corte Inglês” e no MARL. Apesar de estremecer de horror, lá se foi ao “El Corte Inglês”, que não tinha pois estava esgotado na origem. Pouco depois a Companhia dos Açores informou que lamentava que tivessem dito isso, mas que havia vinho do Pico no MARL.

Excursão até ao MARL, que imaginava eu seria uma babel de gente formigando e comprando e transportando, com estrépito e confusão, com as cores das vozes e das flores, os sons dos camiões e os cheiros do peixe, assim como uma praça monumental.

Engano meu.

Ontem, às 22 horas, já que passámos perto, resolvemos ir ao MARL. Pouco iluminado e com muito poucas indicações, lá chegámos a um recinto enorme, com grandes estruturas de tipo armazéns, fechados, dispostos paralelamente, divididos em 2 grandes grupos, com nomes que não fazem minimamente lembrar o que se poderá lá encontrar.

Ninguém à vista. Deserto noctívago e melancólico. De vez em quando passava uma camioneta. Parámos num café, que lá estava perdido, e perguntámos onde poderíamos encontrar a “Companhia dos Açores”. Ninguém fazia ideia. Perguntámos na estação de serviço, única coisa bem iluminada de todo aquele conjunto, que nos indicou um aglomerado de armazéns dispostos junto a uma rua que subia com inclinação assustadora.

Encontrámos um segurança (finalmente!) que nos assegurou que havia uma “Companhia dos Açores”, mas que estava fechada, àquela hora.

Lá pagámos 1.15 euros.

Hoje decidimos que às 18 horas devia estar aberto. E rumámos à CREL, depois desviámos para o MARL, onde vimos placas indicadoras para S.Julião do Tojal, indo direitos aos tais armazéns mais acima.

O deserto noctívago reproduziu-se nesta tardinha, não havia quase ninguém, nem placas a indicar onde estão as frutas, ou o peixe, ou os automóveis, ou outra coisa qualquer.

Quando desistíamos, um senhor que passava por lá disse-nos que lhe parecia que a “Companhia dos Açores” era ali atrás.

De facto, eureka, encontrámos, na parede, letras que diziam “Companhia dos Açores”, com um número de telefone. Como parecia tudo fechado (há vários anos) resolvemos telefonar. O telefone nem sinal dava, mesmo com rede. Subimos umas escadas íngremes e suspeitas, com a promessa dos “escritórios”, mesmo ao lado dos "sanitários". Fomos dar a uma porta fechada. Depois de muitas campainhadas não correspondidas, abandonámos o MARL (não esquecer mais 1.15 euros, a dinheiro, pois não se podem usar cartões).

Portugal no seu melhor!!

Manobras publicitárias

Independentemente do mau gosto associado ao título do livro de João Pedro Jorge, ao incluir o nome de Margarida Rebelo Pinto (na minha opinião, claro está), parece-me ainda de pior gosto a tentativa desta de impedir a venda do livro.

Ou será uma manobra publicitária de João Pedro Jorge, a escolha de tal nome? Ou será uma manobra publicitária a acusação de Margarida Rebelo Pinto a João Pedro Jorge pela diminuição da venda dos seus livros? Ou será uma manobra publicitária das editoras Oficina do Livro e Objecto Cardíaco?

Acho tudo isto ridículo, muito ridículo!

Debates mensais

Pelo que percebi, os debates mensais no parlamento versam temas escolhidos pelo governo.

Uma das missões do parlamento é a fiscalização da actividade executiva. Mas se quem escolhe as matérias a discutir é o governo, é claro que só se falará daquilo que o governo quiser, por muito habilidosos que os partidos da oposição sejam.

Ora como este governo emana de um partido que tem maioria absoluta na assembleia, como o primeiro-ministro tem falado com uma autoridade absoluta, perto do absolutismo autoritário, e como a habilidade destes partidos de oposição deixa muito a desejar, os debates mensais são mais monólogos mensais, com gritos e palmas.

Uma encenação pouco atractiva para os cidadãos. Uma comédia, ou mesmo uma tragicomédia!

...


CA-DÁ-VER

Estendo-me na morte,
ainda em lençóis de vida:
as enzimas alerta,
a catálise certa
na carne arrependida.
Preparo-me sangrando
só na circulação:
bate a ritmo brando
meu áspero coração.
E assim, como um adeus,
os neurones cintilam
como a luz interior
de que meus olhos brilham.
Saberei no disperso
do ácido aminado
que a rima do meu verso
diz amor
acabado:

Ca-dá-ver…
Até ver
se sou ressuscitado.

(poema de Vitorino Nemésio; pintura de Jacques Deshaies)

Imigrantes de leste

Espera por mim, meu amor.
Por entre a multidão
saberei a luz dos teus olhos.
Desta longa noite em que te anseio,
da tua mão sem a minha,
dos meus lábios sem a tua língua.

Encontraremos as pedras lisas
do nosso amor,
a terra do nosso chão,
a chuva da nossa primavera.

Espera por mim, meu amor.


Têm filhos, alguns já cá nascidos. Têm cursos superiores que aqui não são reconhecidos. Têm que aprender outra língua para se fazerem entender, para trabalharem, para conseguirem novamente as licenciaturas. Têm que procurar o trabalho onde ele está. Têm que fazer quilómetros dentro de Portugal, em camionetas ou de comboio, porque as portagens são caras.

Trabalham, ousam, arriscam, persistem, não desistem do sonho que os trouxe.

Obrigada por nos terem escolhido. Sejam bem-vindos.

...


Sílabas

Sento-me à máquina. Dactilografo.
Vacilam-me nos dedos as teclas.
Desalinhadas enfileiram-se as letras.

É angústia da minha velha máquina
ou será da fita gasta?

É que na limpidez do papel
sobressaem nubladas
cinco letras:
Maria.

(poema de José Craveirinha; pintura de Roberto Chichorro)

Livros (2)


O “Mil Folhas” de ontem (do Público) traz um extenso artigo sobre novas editoras e a pujança do sector editorial no nosso país em crise. É uma boa notícia. Pode significar que, apesar de haver pouco dinheiro, as prioridades dos portugueses em como gastá-lo, estão a mudar.

Há uns tempos tomei conhecimento de que um indivíduo responsável pela escolha editorial de uma editora, se queria lançar no mercado por conta própria. Assim, para publicar um livro, que ele achava de qualidade e que tinha todo o interesse em ser publicado, propunha ao autor que arranjasse um patrocínio para a publicação da obra, que deveria cobrir mais de 50% do total do valor gasto.

Este futuro empresário, para além de não pensar em pagar direitos de autor, achou-se no direito de pedir ao autor um financiamento para a publicação, disfarçada de patrocínio.

No fundo, a editora fornecia alguns serviços (impressão, publicação, distribuição e marketing) e o autor dava o talento, o dinheiro e recebia apenas (e já não é pouco!) a satisfação de ver o livro publicado, à sua custa. É uma edição de autor transfigurada!

Se corresse bem, ganhava a editora, se corresse mal, perdia o autor. É o risco que alguns tipos de empresários estão dispostos a correr. Será este o método da maioria destas editoras que se estão a lançar?

(pintura de Robert Drucker: In the Time We Have Left)

Livros (1)


Fui ontem à FNAC, como quase todos os sábados. É quase uma peregrinação semanal. Procurei, entre os livros de poesia lusófona, livros de José Craveirinha. Não encontrei um único.

José Craveirinha, para além de ser um excelente poeta moçambicano, foi prémio Camões em 1991. Quando morreu, como de costume, traçou-se um panegírico dele e da sua obra. Nessa altura, encontravam-se livros dele à venda.

Dois anos depois, parece que nem existiu.

É difícil perceber os critérios de aquisição, stock e exposição de livros de algumas livrarias. Gosto da FNAC mas, ou quero um livro que acabou de sair e/ou que está a ser badalado, ou então não há.

Parece a lógica do hipermercado do livro.

Tempo


Horas gastas, esquecidas
minutos inúteis.
Que é do tempo,
da pele, dos poros, das mãos,
das sementes por lançar?
Que falta nos genes, na terra, no ar?

Igual a outros,
tantos segredos invisíveis.
Igual a tantos
medos irrepetíveis.

Que é do tempo?

(pintura de Njuguna: dancing children)

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