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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

...


As letras arrumadas
descodificam
a solidão
na ausência de sentidos.
Movo os olhos
e recebo a luz.
Esqueço as mãos
descomprometidas
do mundo.

(pintura de Mary Ann Guliov)

...


O céu ficou silencioso e de olhos baixos,
Os pássaros calaram todos os seus cantos;
O vento emudeceu; a música das águas acabou
De repente; o murmúrio da floresta
Morreu lentamente no coração da floresta.
Na margem deserta do rio tranquilo,
Nas sombras do anoitecer desceu silenciosamente
O horizonte sobre a terra muda.
Nesse momento no silencioso e solitário alpendre
Beijámo-nos pela primeira vez.
Nesse momento exacto, ao longe e perto
Repicaram os sinos e soaram os búzios
Nos templos dos deuses apelando ao culto.
Um estremecimento percorreu o infinito mundo das estrelas
E os nossos olhos encheram-se de lágrimas.

(poema de Rabindranath Tagore, tradução de José Agostinho Baptista; pintura de Sujata Bajaj)

Neva



Há cerca de 30 anos que aqui vivo. Hoje, pela primeira vez, está a nevar. Não consigo tirar os olhos da janela, a ver os flocos brancos a precipitarem-se para o chão, desfazendo-se em água.

Lá fora, as pessoas puxam dos telemóveis para avisar amigos e familiares. Subitamente, estamos contentes.

(foto de Andy Grider)

Manuel Alegre - ser ou não ser deputado

Um movimento de cidadãos que se propõe abordar e discutir temas da nossa sociedade, com vontade e capacidade de intervir publicamente, sem ambições de poder partidário, parece sempre uma boa ideia.

A sociedade portuguesa tem um défice (mais um!) de debate. Quem gosta de dar a sua opinião é imediatamente catalogado dentro do espectro partidário, e nunca pensa o que diz por ter cabeça para pensar, mas porque pertence, ou quer pertencer, a um clube ou família política.

É de mau gosto falar de política. É de bom tom dizer que “eles são todos iguais”, “são todos uns corruptos”, “o que eles querem é poleiro”, “só se querem encher”.

No rescaldo das presidenciais, os apoiantes (e será que os votantes?) de Manuel Alegre querem aproveitar o embalo e ir mais além. Tudo o que for no sentido de abrir a sociedade à participação cívica dos cidadãos tem o meu apoio e, eventualmente, a minha participação.

Outro assunto é o abandono, por Manuel Alegre, do seu lugar de deputado. Manuel Alegre é um dos fundadores do PS. São necessárias personalidades que, do interior do PS, lutem pela alteração de práticas e remodelem a lógica “aparelhística”. Os movimentos de cidadãos são autónomos e estão fora do combate político partidário, não são concorrentes nem competem com os partidos, têm outros objectivos e outros planos.

Os partidos são indispensáveis à democracia. É preciso lutar pelo poder e exercê-lo. Manuel Alegre deve continuar a ser deputado do PS, independentemente dos movimentos de cidadãos que liderar. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Reorganizar

Nós mudamos todos os dias; o mundo muda todos os dias e até Portugal se vai modificando. Se compararmos o país de hoje com o que existia há 25 ou 30 anos, a diferença é enorme. Temos melhor qualidade de vida, mais acesso aos bens de consumo, mais informação, enfim, no geral vivemos melhor.

No entanto o país modificou-se demograficamente. Passámos a ser um país de imigração, a população envelheceu e distribuiu-se maioritariamente pelos grandes centros urbanos do litoral.

Não tem sido feito nenhum esforço de reorganização do território, não só no que diz respeito à implementação de medidas que promovam a descentralização e o desenvolvimento do interior, como também no redimensionamento dos serviços relativamente às necessidades reais das populações.

Muito se tem falado sobre o fecho de maternidades e de serviços de urgências nos centros de saúde. A realidade é que não será nunca possível reestruturar o atendimento nos serviços de urgência enquanto não se resolver o problema dos cuidados primários. O recurso à urgência deve ser apenas para as situações, de facto, urgentes. É claro que para quem está doente, a situação é sempre urgente. Mas se houver a possibilidade de recorrer a um médico com rapidez, esse médico será quem melhor pode avaliar a gravidade do caso, e enviá-lo, se for caso disso, a um centro de atendimento suficientemente equipado e com pessoal de saúde mais diferenciado.

A acessibilidade de que falo não tem apenas, nem principalmente, a ver com a distância. Tem a ver com o tempo de espera entre estar doente e ser atendido pelo seu médico. Por outro lado a experiência acumulada é muito importante para a excelência do atendimento. Se um cirurgião não tiver um número mínimo de determinadas cirurgias por ano, nunca adquirirá suficiente experiência para ser um bom cirurgião. O mesmo é verdade no caso das maternidades.

O que é indispensável é assegurar que haja médicos de família que, em tempo útil, atendam os seus doentes, e meios de transporte adequados para que estes possam ser transferidos, também em tempo útil, para centros hospitalares equipados com os recursos humanos e técnicos necessários e suficientes. Um médico ou um enfermeiro que passam uma noite num centro de saúde que não tem um aparelho de RX para radiografar uma fractura, nem um mini laboratório para excluir uma infecção grave, gasta dinheiro e não resolve os problemas aos doentes.

Quando se trata da saúde é na prevenção da doença e no tratamento dos que estão doentes que o estado deve pensar, não nas famílias políticas que ocupam os cargos de Presidentes de Juntas de Freguesias ou de Câmaras Municipais.

Virar a página

Iniciei este “blogue” sob o signo das presidenciais. Virei a página.

Novos assuntos, novo “template”. Confesso que para quem, como eu, não percebe nada de computadores, tem de socorrer-se dos “templates” já existentes.

Depois de muito experimentar, fiquei-me por este.

(confesso que também não queria ter o mesmo “template” do “Bicho Carpinteiro”. A única coisa de que gosto é mesmo dos bichos a passearem no título…)

Sábado


A pouco e pouco, sem o atropelo dos sonhos, vai apercebendo-se dos contornos ao seu lado, da quentura dos cobertores, da macieza do corpo dele. Nem se mexe. A manhã espreita pelas persianas. Acende o rádio e goza a preguiça, misturada com os sons da falta de notícias do fim-de-semana.

É sábado!

(pintura de Raquel Martins)

Flamenco

Música e dança originárias de Andaluzia, mistura das culturas árabe, cigana, indiana, judaica e outras, é rude e melancólica, cheia de sensualidade, drama e cor.

Vale a pena ver o Ballet Nacional de España (Director artístico José António) o espectáculo no Centro Cultural de Belém: La Leyenda e Aires de Villa Y Corte.

Só até amanhã!

www.flamenco-world.com

(pintura de Jo Slater-Thomas)

Dois dias depois

(…) Manuel Alegre (…) conseguiu provar que ainda há espaço político em Portugal para a social-democracia de esquerda, e que a emergência desta pode travar a ascensão do BE, como se notou nos resultados de Louçã (as picardias entre os dois mostram que queriam ambos crescer para o mesmo espaço). Alegre teve ainda o mérito de mostrar que existe quem, na esquerda democrática, não morra de amores pela UE, e foi consequentemente republicano em questões como a lei da nacionalidade ou os direitos dos imigrantes (onde foi mais longe do que o actual Governo quer ir). (…)
Ricardo Alves, Esquerda Republicana (esquerdarepublicana.blogspot.com)

No programa “prós e contras” da RTP1, ontem à noite, e no “forum” da TSF, hoje de manhã, ouvi opiniões acaloradas sobre o significado político do resultado da votação em Manuel Alegre, e o que vai ele fazer com isso.

Parece-me que o PS, nomeadamente o seu secretário-geral, José Sócrates, deveria pensar no facto de Manuel Alegre ter provado estar certo, e ele errado. Deveria pensar que há muita gente que não se reviu na escolha feita pelo PS para candidato à presidência, ou seja, que o PS, poucos meses após uma maioria absoluta, não soube interpretar os anseios do seu eleitorado. Talvez não fosse má ideia repensar o método de decisão ou mesmo a formação dos órgãos de decisão do partido.

Mas não é o que vai acontecer. Na maior parte dos casos continua a subvalorizar-se o fenómeno da candidatura de Manuel Alegre, e a enterrar-se a cabeça na areia, não vendo o óbvio.

A verdade é que também não se percebe muito bem o que Helena Roseta quer dizer com “não deixar morrer este movimento de cidadania”, ou coisa parecida. Este movimento de cidadãos formou-se com o objectivo de eleger um presidente, mesmo sem o apoio de máquinas partidárias, pelo que foi pioneiro na demonstração de que isso era possível. Mas agora Manuel Alegre deve usar esse capital de experiência e de peso político na reforma do seu próprio partido.

E, se for necessário, por uma qualquer outra causa, liderar outros movimentos de cidadãos para atingir outros objectivos.
(pintura de Awiakta)

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