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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

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(pintura de Susan Nares)

Nos últimos dias de todos os anos,
por entre os despojos do que somos,
prometemos heróis de futuro,
acertamos certezas e vitórias,
novas e iluminadas almas.

Que venha chuva,
muita e fria água,
que lave as nódoas do que fomos.

Para o ano, talvez....

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Neste imenso bocejo colectivo, o país assiste à dança palaciana e ridícula em que se transformou a luta política.
Volta a cabeça, e tenta acreditar no novo ano, esperando que seja diferente.



(pintura de Raquel Martins)

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No século XXI e na europa civilizada, estão difíceis as relações entre o mundo laboral e os patrões, sejam eles entidades privadas ou o estado.
O sindicalismo, tal como o conhecemos durante as últimas décadas, tende a desaparecer. Neste momento o trabalho é um bem escasso e precioso, de forma que quem reivindicar muito, nesta europa que tantas organizações tem a defender os direitos humanos, pode perder o seu ganha-pão, porque há sempre pessoas em determinados países, em que não existem sindicatos a exigir horários, remunerações condignas e direito ao descanso, que estão dispostas a trabalhar a um preço reduzido e em más condições. É claro que as empresas e os governos do mundo civilizado fecham os olhos a essas condições e a esses cidadãos, a bem da globalização, a bem do mercado, etc.
Por isso, o movimento sindical tem que se adaptar, modernizar e, principalmente, lutar por condições e remunerações realistas.
Considero intolerável a pressão que o governo fez sobre os trabalhadores da Autoeuropa, que raiou a chantagem do tipo "ou se portam bem ou os alemães fecham a fábrica e deslocalizam", quando o sindicato, os trabalhadores e a direcção da empresa têm dado mostra de grande empenho e realismo em todas as negociações, tendo-as sempre levado a bom termo.
Considero igualmente intolerável os sindicatos da função pública começarem a negociar o aumento dos salários com percentagens de 3,5 a 5%!!! É absolutamente inacreditável que, com os limites orçamentais que todos conhecem, o elevado número de funcionários públicos existentes e o fraco desempenho da nossa administração, se inicie a negociação neste nível.
Dá a sensação que o objectivo era acusar o governo de não querer negociar e de querer impôr um aumento irrisório (o que, aliás, é verdade).
Continuamos no país do faz-de-conta: o governo finge que negoceia com os sindicatos, os sindicatos fingem indignação reivindicativa.
A intervenção do presidente???? Dos candidatos a presidente????
(pintura de Leslie Duxbury)

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Cavaco Silva prepara-se para governar a partir de Belém.
Já se permite sugerir a existência de novos secretários de estado, que acompanhariam de perto as empresas estrangeiras, para as dissuadir de "deslocalizarem". Não pretende, diz ele, substituir o governo mas "é bom não esquecer que há a legitimidade que o presidente tem pelo facto de ser eleito directamente pelo povo". Isto tudo numa entrevista dada ao Jornal de Notícias, hoje.
Não sei é se Sócrates vai achar piada. Até porque me parece que se um nunca se engana e raramente tem dúvidas, o outro nunca tem dúvidas e raramente se engana.
Embora não me pareça, como a Mário Soares e a Jorge Coelho, que Cavaco Silva tenha como objectivo fazer oposição ao governo, para dissolver a Assembleia e dar o poder ao PSD, temo que a eleição de Cavaco Silva possa pôr em causa a estabilidade política, porque se vão confrontar dois primeiros-ministros: um com poderes executivos legitimados pelo voto, outro legitimado pelo voto, assumindo poderes sobre-executivos.

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Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

(poema de Alberto Caeiro; pintura de Glenda Dietrich)

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Ressaca natalícia. Tempo para digerir doces e encontros familiares, dos que se gostam e dos que não se gosta, mensagens e telefonemas, muito, muito ruído de fundo.
Para cada um de nós, que suspiramos por um canto silencioso e calmo, com chá e um bom livro, é quase doloroso retirar o que de essencial permanece. Nestes dias em que tão poucos têm tanto, em que se esbanja, se exibe e pouco de verdadeiro se dá, fica-nos um travo amargo no centro desta abundância.
Para o ano será diferente. Para o ano.
(S. José e Jesus)

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Amanhã vai haver confusão e correria,
filhós, rabanadas e aletria.

Amanhã é a véspera de outro dia.



Havemos de sobreviver a mais este Natal.

(vitral do Carmelo da Santíssima Trindade, em Spokane, Washinton)

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Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


(poema de Alexandre O'Neill; pintura de Bual))


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Não pude ver o debate entre Mário Soares e Cavaco Silva. Apenas vi excertos, no resumo da SIC notícias.
Considero absolutamente inaceitáveis e "envergonhantes" as declarações de Mário Soares relativamente à performance de Cavaco Silva nas reuniões da Comissão Europeia. Pelos vistos, o nosso presidente prestava-se à má língua internacional, em vez de defender a postura do primeiro ministro.
Realmente, Cavaco Silva é rígido, esfíngico, socialmente pouco à-vontade, não deve ser uma companhia interessante. E depois?
Talvez Cavaco Silva pudesse ter dito, se tivesse o nível de Mário Soares, que o excelentíssimo presidente dormia e ressonava nas mesmas reuniões.
Que tristeza!

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O luar quando bate na relva
Não sei que coisa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas...

Se eu já não posso crer que isso é verdade
Para que bate o luar na relva?



(poema de Alberto Caeiro; pintura de Denise Driscoll)

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