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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

...


Às vezes tenho ideias, felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...


(Álvaro de Campos)



Hoje falou-se muito de poesia, de Fernando Pessoa e seus heterónimos, de Mário Cezariny, daquelas coisas que é politicamente correcto e culto falar de vez em quando. Que bom, que bem, Fernando Pessoa era um génio, levou Portugal a todo o mundo, imprimiu a nossa língua, a nossa forma de estar, a dele, mais precisamente, que quando vivia o país desconhecia-o.
Mas os poetas só servem para os líderes encherem o peito e enevoarem os olhos, que isto de sermos um país de poetas até dá jeito, para termos a sensação de que, pelo menos, temos poetas.
Que eles sirvam para mais alguma coisa, isso não, que eles coitados são muito sonhadores, muito dores, muito ores, que até rima, mas não sabem de política, nem de deputados, nem de candidatos, a eles apenas ninguém os cala.
Pobre país o nosso, que se ri dos seus poetas e se enfeita com os seus poemas!

...

Neste caminho apressado
relectem as cores
dos vitrais
a ternura da esperança.
Passos leves
ao teu lado
meu amor,
muito amado.

...

(pintura de Elloy Pereira)
Biografia
Tive amigos que morriam, outros que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz no mar no vento.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

...

Se estou só, quero não star,
Se não stou, quero star só,
Enfim, quero sempre estar
da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

(Fernando Pessoa; pintura de Catarina Castel Branco)

As pessoas mais novas (à volta dos 30 anos), que trabalham comigo, não fazem ideia do que foi o 25 de Novembro. Mas também não fazem ideia do que foi o 25 de Abril, a implantação da República, quem foi John Kennedy, etc. Penso que demonstra bem a que nível chegou o ensino.
Li, algures, que cerca de 60% dos juízes comunicou que estava em greve, tendo por consequência o desconto de um dia no ordenado. Ouvi, posteriormente, um dos representantes dos juízes, explicar que estes não eram obrigados a comunicar a falta, porque não estavam obrigados à assiduidade (?????). Ou seja: ou apenas 60% dos juízes aderiram à greve (e não 95%) ou há 30% de juízes que são... vigaristas: fazem greve e recebem, na mesma, o dia. Qual destas duas hipóteses é verdadeira?
O Papa não quer que sejam ordenados sacerdotes com manifestas tendências homosexuais. Apesar de não perceber a lógica (se os sacerdotes estão obrigados ao celibato, não se entende qual a relevância de serem homo, hetero ou bisexuais), a Igreja Católica tem toda a legitimidade de fazer as suas próprias leis e fazê-las cumprir. Só adere quem quer.
Finalmente, o ministério da educação mandou retirar os crucifixos e outros símbolos católicos que ainda pululam nas nossas escolas. Uma coisa é os frequentadores da escola usarem símbolos religiosos, sejam eles de que religião forem, para o que devem ter toda a liberdade. Mas o Estado é laico, portanto deve abster-se de ostentar símbolos de qualquer religião.
Outra coisa bem diferente é deixar de se falar ou de ensinar factos, lendas e histórias da nossa cultura judaico/cristã, deixar de se comemorar festas que fazem parte do imaginário colectivo, como a Páscoa, o Natal, etc, embora sem o cunho religioso que ainda se lhe dá. A bíblia é património da humanidade, não é só dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos.

Respiro


Respiro.
Convenço-me do ar.
Olho.
Sinto a luz.
Respiro e olho.
O mundo tem cor, nuvens e gritos.
Convence-me, Deus,
De que existo.
(pintura de Graça Morais)
A manipulação da informação, nomeadamente dos dados das sondagens, é triste, venha ela donde venha. Tanto o Público como o DN, nas suas parangonas, induzem uma interpretação fantasiosa e enviesada dos resultados das sondagens, mas a TSF, ao gritar, como é costume, de meia em meia hora, que Cavaco Silva tinha descido para 44%, presta um mau serviço ao país, e ainda mais aos apoiantes dos candidatos de esquerda.
Não sei como explicar o sentimento de espanto e pena ao ler mais um dos posts de Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro, sobre Miguel Cadilhe. Acho que Medeiros Ferreira está doente, com uma doença servil e pegajosa, que transforma os homens em moluscos.
Gostei da entrevista ao Manuel Alegre, no Público.
Gosto dos CDs de Jazz que estão a sair todas as terças-feiras no Público.
Parece que sou accionista do Público!

A noite abre os seus ângulos de lua


A noite abre os seus ângulos de lua
E em todas as paredes te procuro

A noite ergue as suas esquinas azuis
E em todas as esquinas te procuro


A noite abre as suas praças solitárias
E em todas as solidões eu te procuro

Ao longo do rio a noite acende as suas luzes
Roxas verdes e azuis

Eu te procuro.

(Sophia de Mello Breyner Andresen; pintura de Bual - Cristo)

Não vi todo o programa "prós e contras". Do pouco que vi, gostei da serenidade da ministra da Educação, da sua seriedade e da capacidade para ouvir estrondosas idiotices ditas pelos representantes dos professores. A ministra só precisa de usar o senso comum e terá Portugal com ela.
Os professores precisam de encontrar outros representantes. Estes só os descredibilizam.
Não gosto de ouvir a campanha de Manuel Alegre perder tempo com acusações de traições, ou a debater quem tinha a preferência do PS. Isso não interessa! Quero ouvir o que pensa o Manuel Alegre sobre a cultura da qualidade e da excelência, sobre a exigência da cidadania responsável, sobre a dignidade e a legalização dos imigrantes, sobre a paz, etc. Não quero ouvir arrufos de comadres. Quero empolgar-me e comover-me, quero sentir que vale a pena ir votar.

Regressada da Invicta

Regressada da Invicta, retomo o ritual domingueiro do "café e jornal". Começa a ser difícil, mesmo para os espíritos mais optimistas, vislumbrar uma luz ao fundo do túnel. Somos completamente inundados por informações e comentários de desgraça, crise e previsões de catástrofe, mesmo por aqueles que consideramos merecedores da nossa atenção.

Ao mesmo tempo, nas páginas da revista, o-ócio-ao-domingo-para-as-esposas, lêm-se anúncios de televisões para as casas de banho.

É óbvio que as notícias, cirurgicamente libertadas, relativamente ao absentismo dos professores e ao número exorbitante de médicos em determinados hospitais, por exemplo, são manobras governamentais para facilitar a adopção de medidas que possam ser sentidas como ataques, por essas classes profissionais. Não é correcto nem ético. As generalizações e a criação de bodes expiatórios são demagógicas e populistas.

Mas como é que é possível que os representantes das mesmas classes profissionais defendam o indefensável? A ministra só divulga o número de faltas mas não divulga o número de presenças nas aulas??? Os médicos não fazem leis e portanto não são responsáveis pelos quadros hospitalares? Quem pede vagas? Quem faz concursos? Quem permite que não se cumpram minimamente os horários? Quem avalia o trabalho (ou a falta dele) de cada profissional?

Somos todos virgens e inocentes.

Somos feitos


(pintura de Amadeu de Souza Cardoso)


Somos feitos de pequenos usos
quotidianos,
gestos que usamos,
desumanos.
Inseguros os medos
que guardamos,
em muros de silêncio,
em segredos,
que em momentos insanos
libertamos,
sem dedos.
Fiquei muito preocupada com a notícia do DN, em como seria criada uma época de avaliação extraordinária para os alunos já retidos num determinado ciclo. Será que é com manobras que pretendem acabar com o insucesso escolar?
Penso que a resposta está em maior exigência a professores e alunos, melhor formação, avaliação de escolas, alunos e professores com exames, maior disciplina e dignificação do estatuto do professor, maior responsabilização e promoção da autonomia dos alunos, mais trabalho a todos os níveis. Qualidade e controle de qualidade.
Não é o que se exige a todos os serviços?

...

Nádia

Em
tépido caudal
de velho rio
me flutuo.

Na cálida praia
nenúfar desaguo
em tua foz

(Poema de José Craveirinha, pintura de Merello)


Vi a maior parte da entrevista da Constança Cunha e Sá ao Cavaco Silva, na TVI. A entrevistadora não facilitou a vida ao entrevistado. Este parecia pouco à vontade na pele de explicador de atitudes passadas e de ambições futuras, no que diz respeito ao papel que a si próprio atribui, caso seja eleito. Um presidente crispado, repetitivo, entre chavões, frases feitas, e sorrisos forçados, sem falar do que pensa sobre o mundo.

É este o presidente que queremos? Por isso é que ele não quer dar entrevistas nem fazer debates.

Por outro lado, o anúncio do controle de qualidade dos livros escolares e o alargamento do intervalo temporal de vigência de cada livro, assim como o fornecimento de livros gráteis para as famílias com dificuldades financeiras, são boas notícias. Parece que o bom senso regressou ao ensino!

E porque é que os professores se opõem com tanta veemência a aulas de substituição de professores que, por qualquer motivo, tiveram que faltar?

O Ministro Correia de Campos anunciou que uma enorme quantidade de funcionários no Hospital de Sta. Maria vão passar a excedentários. É preciso dizer, com toda a frontalidade, que há quadros que estão, neste momento, hiperdimensionados, assim como os há que estão hipodimensionados. Espero que esta medida signifique uma reestruturação a sério.

Sr. Ministro, quando é que, de uma vez por todas, acaba com a promiscuidade entre público e privado? Porque não faz uma revolução inteligente na saúde, transformando os hospitais do estado em empresas, em que os seus trabalhadores não façam concorrência com o próprio estado? Porque não implementa trabalho por turnos, de modo a rentabilizar os blocos, os aparelhos de radiologia, etc? Porque é que não há consultas de especialidades nos centros de saúde?

Olho


Olho, sem perceber,
que o rosto que me olha,
sem me ver,
é o outro lado do espelho
de viver.


(pintura de Tuti Nunes - Brasil)

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