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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da desigualdade no acesso à Universidade

A desigualdade gritante no acesso à Universidade tem décadas e é um assunto a que ninguém quer dar atenção. No último Expresso e, agora, na RTP 2, falou-se da divulgação de um estudo de Gil Nata e Tiago Neves, que demonstra que há uma acentuada inflação das notas, mais no ensino privado que nos público, mais em certas regiões do país que noutras, estudo esse que não consegui encontrar no portal InfoEscola.

 

vários anos que defendo que seria preferível fazer exames nacionais a todos os candidatos, sendo a nota de exame aquela que se considerava para o acesso à Universidade. Ou então permitir que cada Universidade tivesse as suas próprias provas de acesso. Pelo menos colocaria todos os candidatos em pé de igualdade. Por muito injusta que seja uma prova na avaliação de conhecimentos, é menos injusta que a situação presente, em que há uma elite que paga e compra as notas de entrada nas Faculdades.

 

É um escândalo que nada se tenha feito em tantos anos, permitindo esta claríssima violação do princípio Constitucional que se convoca para outras matérias (e bem) - o da igualdade.

Da revolução democrática

alexis.jpg

Alexis Tsipras 

 

A vitória do Syriza, na Grécia, é a demonstração de que, em democracia, o poder está no voto. Ao arrepio dos avisos que lhe fizeram os eurocratas, a Grécia decidiu dar a maioria, se calhar absoluta, a quem defende o fim da política de austeridade que tem dominado a Europa durante estes últimos anos.

 

Vamos ver o que se vai passar e como é que os outros países intervencionados se vão posicionar na necessária recomposição das negociações. Portugal, com Passos Coelho, tem feito sempre marcha atrás. Será que agora, também em período pré-eleitoral, vai desdizer tudo o que disse e fez, como parece ser a intenção ao ouvir o que o PSD e o CDS afirmam sobre a decisão de Mário Draghi, no BCE?

 

Pode ser o início de uma mudança que é urgente. A revolução vem do exercício democrático e de eleições livres. É tão bom relembrar estas verdades.

Um dia como os outros (149)

UmDiaComoOsOutros.jpeg

A insistência de António Costa na recusa do conceito de arco da governação é uma ruptura de grande impacto na dinâmica do sistema partidário português. Talvez a mais importante desde que Ernesto Melo Antunes garantiu que o PCP permaneceria legal, na sequência do 25 de Novembro. Resta saber que efeitos terá. (...)

(...) A lealdade do PCP ao bloco soviético e a sua posição contrária à adesão de Portugal à então CEE eram esteios suficientes para esta marginalização tão imposta pelos partidos do "consenso europeu" quanto desejada pelo próprio PCP. 

Se o "arco da governação" rejeitou o PCP, também este sempre procurou fugir dele, mesmo quando teve oportunidades históricas para não o fazer. (...)

(...) PS ganhador é PS em busca do centro. Compreende-se. Com o PCP fora do jogo de formação de maiorias, afastar o PS do centro seria perder espaço eleitoral sem qualquer compensação política expectável. (...)

(...) Apesar da camada superficial cosmopolita, a dinâmica profunda do BE vive dos complexos da extrema-esquerda do PREC e amarrou este partido, para as grandes questões estratégicas, à posição do PCP quanto a possíveis convergências de governo à esquerda. (...)

(...) Na verdade, a teoria do arco da governação construiu em Portugal um espaço político tripolar: (...) o PS ou governa sózinho (como entre 1976 e 1978, 1995 e 2002 e  2005 e 2011) ou à direita (como entre 1978 e 1979 e entre 1983 e 1985). (...)

(...) o sistema político transformou esta tripolaridade numa espécie de triângulo em que cabe ao PS reformar sózinho, apertado sempre por uma tenaz direita-esquerda (muitas leis importantes foram aprovadas pelo PS sózinho no Parlamento com cómoda rejeição com argumentos cruzados da direita e da esquerda). Assim, a direita, quando em maioria, avança no sentido conservador, o PS quando em maioria avança no sentido progressista-realista  e o PCP e o BE ficam isentos de jogar o jogo da definição do futuro, numa especialização de funções muito conveniente para a capitalização de descontentamentos, mas contrária à governação progressista equilibrada.

As declarações de António Costa ameaçam este equilíbrio perverso e prejudicial para a possibilidade de governar Portugal pela esquerda e são um ponto de viragem. Não creio que elas tenham qualquer impacto no comportamento de curto prazo do PCP e do BE em relação ao PS ou em relação à governabilidade do país. Mas têm méritos tácticos e estratégicos e podem, quem sabe, abrir uma janela de oportunidade. 

No plano táctico, o PS pode agora dizer aos portugueses que a exclusão do PCP e do BE das eventuais soluções de governo para o país é apenas e só uma auto-exclusão. O que nunca fez com a clareza com que António Costa o faz agora. 

No plano estratégico, inicia um degelo necessário entre os partidos de esquerda que há-de dar frutos em futuras direcções, daqui a uma ou duas décadas que seja, quando estiverem verdadeiramente reformados os protagonistas que vêm de 1975. Põe uma porta onde havia uma parede. Algum dia, alguém, a abrirá. (...)

 

Paulo Pedroso

A Rita

Chico Buarque

 

A Rita levou meu sorriso

No sorriso dela

Meu assunto

Levou junto com ela

O que me é de direito

E Arrancou-me do peito

E tem mais

Levou seu retrato, seu trapo, seu prato

Que papel!

Uma imagem de são Francisco

E um bom disco de Noel

 

A Rita matou nosso amor

De vingança

Nem herança deixou

Não levou um tostão

Porque não tinha não

Mas causou perdas e danos

Levou os meus planos

Meus pobres enganos

Os meus vinte anos

O meu coração

E além de tudo

Me deixou mudo

Um violão

Resposta da Rita

Ana Carolina

Edu Krieger

 

Não levei o seu sorriso

Porque sempre tive o meu

Se você não tem assunto

A culpada não sou eu

 

Nada te arranquei do peito

Você não tem jeito faz drama demais

Seu retrato, seu trapo,seu prato,

Devolvo no ato pra mim tanto faz

 

Construí meu botequim

Sem pedir nenhum tostão

A imagem de são francisco

E aquele bom disco estão lá no balcão

 

Não matei nosso amor de vingança

E deixei como herança um samba também

Seu violão nunca foi isso tudo

E se hoje está mudo por mim tudo bem

Samba que nem Rita à Dora

Seu Jorge

 

O Chico falou que a Rita levou

O sorriso dele e o assunto

Eu sofri seu sofrer mas pergunto

Se o meu ele ia aguentar

 

A quem tanto queria um presunto

Dei meu corpo morrendo de amar

Onde havia horizonte defunto

Pois o sol a brilhar

 

(O Chico falou)

 

O Chico falou que a Rita levou

O sorriso dele e o assunto

Eu sofri seu sofrer mas pergunto

Se o meu ele ia aguentar

 

A quem tanto queria um presunto

Dei meu corpo morrendo de amar

Onde havia horizonte defunto

Pois o sol a brilhar

 

Num instante eu tirei

Suas mãos lá do tanque

Presenteei

Máquina de lavar

Contratei pra passar

Dona Sebastiana

Testemunha ocular do esforço que eu fiz

Para ver tudo azul

E até Carvão e Giz

Teria final feliz na África do Sul

 

Acontece ô Chico

Você mesmo disse

Que a Rita levou o que era de direito

Acontece que a Dora sem ter o direito

Levou tudo que eu já iria lhe dar

 

Se não deu pra formar um conjunto

O meu som não podia dançar

Se não deu pra gente ficar junto

É um lá, outro cá

 

Lhe dediquei

Lhe dediquei

Uma trova, um soneto e um samba-canção

Mas é que a danada não tem coração

Tem não, tem não

Sem mais e sem menos, resolve ir embora.

 

Lhe dediquei

Uma trova, um soneto e um samba-canção

Mas é que a danada não tem coração

Tem não, tem não

Sem mais e sem menos, resolve ir embora.

 

O Chico falou que a Rita levou

O sorriso dele e o assunto

Eu sofri seu sofrer mas pergunto

Se o meu ele ia aguentar

 

A quem tanto queria um presunto

Dei meu corpo morrendo de amar

Onde havia horizonte defunto

Pois o sol a brilhar

 

Num instante eu tirei

Suas mãos lá do tanque

Presenteei

Máquina de lavar

Contratei pra passar

Dona Sebastiana

Testemunha ocular do esforço que eu fiz

Para ver tudo azul

E até Carvão e Giz

Teria final feliz na África do Sul

 

Acontece ô Chico

Você mesmo disse

Que a Rita levou o que era de direito

Acontece que a Dora sem ter o direito

Levou tudo que eu já iria lhe dar

 

Se não deu pra formar um conjunto

O meu som não podia dançar

Se não deu pra gente ficar junto

É um lá outro cá

 

Lhe dediquei

Lhe dediquei

Uma trova, um soneto e um samba-canção

Mas é que a danada não tem coração

Tem não, tem não

Sem mais e sem menos, resolve ir embora.

 

Lhe dediquei

Uma trova, um soneto e um samba-canção

Mas é que a danada não tem coração

Tem não, tem não

Sem mais e sem menos, resolve ir embora.

 

(Lere...)

 

Lhe dediquei

Uma trova, um soneto e um samba-canção

Mas é que a danada não tem coração

Tem não, tem não

Sem mais e sem menos, resolve ir embora.

Do diletantismo (pouco) militante

compota abobora chocolate.png

Hoje lembrei-me desta minha amiga e colega por duas vezes. Primeiro porque ouvi, por acaso, um programa na TSF (Património à mesa) sobre história da alimentação e dos alimentos, hábitos culturais ligados à gastronomia e à mesa, dos ricos e dos pobres. Ana Marques Pereira foi uma das convidadas e ainda bem. Desde há muito tempo que lhe conheço o gosto e a curiosidade por estes e outros temas, que ela não é pessoa para se esgotar num único interesse. Há cerca de 1 ano organizou uma exposição sobre licores, publicou um livro, e até eu participei numa aula sobre a confecção dos mesmos.

 

A segunda foi ao ver um episódio de uma série com a Miss Marple, detective amadora criada por Agatha Christie. E lembro-me de discutirmos as nossas adaptações preferidas dos detectives de Agatha Christie: Poirot e Miss Marple. Na realidade, embora concorde que a série protagonizada por David Suchet é a que melhor representa a personagem de Hercule Poirot, um detective belga muito vaidoso, pequeno e de cabeça ovóide, com um bigode magnificente e umas células cinzentas bem activas, não a acompanho quando considera que a Jane Marple de Joan Hickson é fiel ao retrato que dela faz a sua criadora.

 

Confesso  que não conheço nenhuma série nem nenhum filme que, a meu ver, consiga mostrar-nos uma velhota solteirona frágil, ligeiramente anafada, um pouco atarantada, coberta de malhas fofas, com uns olhos azuis penetrantes e inteligentes e que, sempre em conversa com os outros, deslinda os mais complicados e misteriosos crimes. A que está a passar agora no FOX Crime é muito interessante mas, mais uma vez, longe daquilo que eu imagino que seja a Miss Marple.

 

Não sei se a minha Miss Marple gostaria de cozinhar, mas suspeito que sim e que apreciaria a experimentação e a curiosidade de combinar produtos diferentes. No seguimento dessa minha hipótese já despachei uma das abóboras, fazendo um doce de abóbora com chocolate, cuja receita encontrei neste blogue fantástico, tal como o outro da mesma autora.

 

Juntei abóbora aos bocadinhos (enfim, mais aos bocadões) com açúcar (650 g por cada quilo de abóbora), canela (em pau, 2 por quilo), sumo e raspa de laranja (1 por quilo) numa grande panela que foi ao lume, e esperei mais ou menos pacientemente que começasse a fazer ponto. Nessa altura triturei a abóbora com a varinha mágica (é melhor retirar os paus de canela antes) e deixei que chegasse à tão ambicionada estrada. Depois parti chocolate de culinária (com 70% de cacau, 100 g por quilo) aos quadradinhos e deixei derreter, mexendo sempre. Foi um êxito, mais fora do que dentro de casa porque, como em tudo, Santos da casa não fazem milagres, dá Deus nozes a quem não tem dentes, etc.

 

Resta-me encontrar mais novidades para as outras arrumadas na cozinha, a estorvarem um pouco os passos de quem quer chegar à roupa. Enfim, tudo a seu tempo, que a vida não está para pressas nem inconseguimentos.

Perdidos

 

Richard Matzkin.jpg

Lovers hugging 

Richard Matzkin

 

Somos pássaros perdidos

entre os arrepios de uma vida

que nos encolhe e desabriga.

Somos trementes lábios

palavras sem nexo

perante a morte que nos desampara.

Somos únicos solitários abandonos

sem o sangue de quem nos quer.

Isto é fundamental

o pai tirano.jpg

Estive há dias a rever O Pai Tirano e, como de todas as vezes que o faço, ri deliciada com esta comédia.

 

É muito típico da nossa forma de viver dizermos mal de tudo o que somos e fazemos. Este filme estreou em 1941 e continua a ser uma excelente comédia. É uma história construída à volta do teatro, com o teatro e para o teatro, sendo um fantástico produto cinematográfico.

 

Com um argumento muitíssimo bem escrito, num jogo bem disposto e despretensioso entre o real e o figurado, brinca com os amores e desamores, com o conservadorismo e o modernismo, com as relações entre as classes e os géneros, com a pseudo intelectualidade sempre presente numa capital que se queria cosmopolita, com a vida quotidiana dos bairros da gente mediana e trabalhadora.

 

Com actores brilhantes, alguns por serem muito bons e outros por serem muito maus, é uma sucessão de situações hilariantes e disparatadas que prendem o espectador do princípio ao fim. Cá por casa há quem saiba as deixas, as do Sr. Seixas e de todos os outros, de cor e salteado.

 

Recomendo vivamente, contra todas as mazelas físicas, mas principalmente psíquicas, com repetição sempre que for preciso.

 

Isso é fundamental!

Fado triste

Vitorino

Vai ó sol poente

vai e não voltes

sem trazer no primeiro raio

notícias de quem se foi

numa madrugada amarga e triste

um navio de proa em riste

levou tudo o que eu guardei

 

Na caixa escondida dos afectos

no lembrar dos objectos

que enfeitavam o meu quarto

tudo perde a cor a forma o cheiro

ficaram só coisa esquecidas

da importância que tiveram

 

Volto sempre ao rio

às sextas-feiras p´ra lembrar

dias descuidados noites à toa

espero que o navio sempre queira

trazer de volta o sussurro

dos teus passos

numa rua de Lisboa