Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos que morreram pelos cravos

Guerra colonial: 1961 - 1974 (13 anos)

  • cerca de 10% da população portuguesa e mais de 90% dos mancebos foi envolvida na guerra;
  • terão morrido 8.831 militares portugueses, 4.027 em combate
  • embora de difícil contabilização, mais de 140 mil portugueses terão sido afectados psicologicamente

 

Mãe, a guerra

O capitão que quase enganou a tristeza

 

Manuel Alegre & Adriano Correia de Oliveira

 

 

Já lá vai Pedro Soldado

Num barco da nossa armada

E leva um nome bordado

Num saco cheio de nada

Triste vai Pedro Soldado

 

Branda rola não faz ninho

Nas agulhas do pinheiro

Não é Pedro Marinheiro

Nem no mar é seu caminho

 

Nem anda a branca gaivota

Pescando peixes em terra

Nem é de Pedro essa rota

Dos barcos que vão à guerra

 

Onde não anda ceifando

Já o campo se faz verde

E em cada hora se perde

Cada hora que demora

Pedro no mar navegando

 

Não é Pedro pescador

Nem no mar vindimador

Nem soldado vindimando

Verde vinha vindimada

Triste vai Pedro Soldado

 

Já lá vai Pedro Soldado

Num barco da nossa armada

Deixa um nome bordado

E era Pedro Soldado

 

Branda rola não faz ninho

Nas agulhas do pinheiro

Não é Pedro Marinheiro

Nem no mar é seu caminho

 

Deixa um nome bordado

E era Pedro Soldado

E era Pedro Soldado

A música dos cravos

Manuel Alegre & António Portugal & António Correia de Oliveira

 

 

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

 

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que não se diz

a fúria em riste

do meu país?

 

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escrevem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

 

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

 

 

 

Sérgio Godinho

 

 

Viemos com o peso do passado e da semente

Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada

Só se pode querer tudo quando não se teve nada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver

A paz, o pão

habitação

saúde, educação

Só há liberdade a sério quando houver

Liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

 

 

 

Zeca Afonso

 

Vejam bem

Que não há

Só gaivotas

Em terra

Quando um homem

Se põe

A pensar

 

Quem lá vem

Dorme à noite

Ao relento

Na areia

Dorme à noite

Ao relento

Do mar

 

E se houver

Uma praça

De gente

Madura

E uma estátua

De febre

A arder

Anda alguém

Pela noite

À procura

E não há

Quem lhe queira

Valer

 

 

Vejam bem

Daquele homem

A fraca

Figura

Desbravando

Os caminhos

Do pão

 

E se houver

Uma praça

De gente

Madura

Ninguém vai

Levantá-lo

Do chão

 

Vejam bem

Que não há

Só gaivotas

Em terra

Quando um homem

Se põe

A pensar

 

Quem lá vem

Dorme à noite

Ao relento de areia

Dorme à noite

ao relento do mar

Da revolução dos cravos

salvador dali.jpg

Salvador Dali

 

Aquilo que move e embala o colectivo (nós - o povo), aquilo que nos faz sentir unidos e em marcha, é a partilha de um objectivo comum que nasce de um valor universal, algo que nos seja exterior e interior, que se ancore naquilo que podemos fazer pelos outros, pela comunidade, logo por nós próprios.

 

Somos capazes dos maiores sacrifícios se os entendermos necessários a um bem maior. Por isso prescindimos até da vida - seja por amor à liberdade ou aos filhos. Essas emoções são muito bem aproveitadas por todos os totalitarismos e também, mais raramente, pelos regimes democráticos, em épocas especiais e que se revelam revolucionárias, pelas consequências nas organizações e prioridades das sociedades em que nos inserimos.

 

Estamos a precisar de algumas ideias libertadoras, que nos unam e nos inspirem como comunidade, tal como aconteceu a 25 de Abril de 1974. Nessa altura a esperança e a mobilização pelos ideais de liberdade, democracia e desenvolvimento foram o cimento que nos uniu, com muitas dores mas com muita paixão e alegria.

 

Estou convencida de que precisamos de um novo contrato social, de uma nova organização laboral, de uma nova relação com a natureza, de uma nova realização na maternidade e na paternidades, de uma nova relação entre o individual e o colectivo. Precisamos de nos renovar e de nos inovar, reaprender a essência e redistribuir os excedentes. Precisamos de políticas que subordinem a economia ao bem público e aos cidadãos, que repense o território, que invista na criatividade e na cultura, que incentive o auto conhecimento e a solidariedade, que mobilize a generosidade, que semeie a igualdade de oportunidades, que saiba gerir as capacidades e que seja inclusivo.

 

Parecem palavras vagas e ocas. Mas convinha que lhes déssemos o seu verdadeiro significado e lhes retribuíssemos o seu verdadeiro valor. Às vezes são as coisas mais simples as que geram maior felicidade. Não vejo melhor forma de reafirmar a revolução dos cravos.

 

Da emoção dos cravos

Salgueiro Maia.jpg

 

 

Todos os anos, por muito que já as conheça de cor, as imagens do dia 25 de Abril de 1974, as ruas apinhadas de gente e esperança, os soldados, as espingardas, o megafone de Salgueiro Maia, as senhas musicais na madrugada,  Posto de Comando do MFA, a alegria dos locutores, o frenesim de quem queria explicar o que se passava, a calma dos protagonistas, todos os anos me emociono.

 

Não há cerimónias dispensáveis para a celebração de um tempo novo que diariamente se reinventa. O esquecimento e a banalização da liberdade são, simultaneamente, a celebração da mesma e o maior perigo para a sua preservação.

Da vermelhidão dos cravos

carnation-revolution.jpg

Adres

 

 

Consternada dei-me conta de que não tenho nenhuma peça de roupa, lenço de pescoço ou sapatos de cor vermelha.

 

Não faz mal. O meu amor pela liberdade e pela democracia fazem-me a alma tão vermelha quanto a mais vermelha paixão, o mais vermelho sangue, os mais vermelhos cravos.

Dos prováveis impossíveis

le pen.jpg

 

 

Depois do referendo inglês em que o BREMAIN estava seguro e as eleições americanas com a vitória certa de Hillary Clinton, esperemos que não venham as presidenciais francesas com a óbvia derrota à segunda volta de Marine Le Pen.

 

Nada é previsível com uma percentagem de indecisos e de abstenções tão grande. Mas ao contrário das outras duas situações, desta vez tenho uma terrível premonição.

 

O que vale é que eu nunca acerto! Tal como o princípio da anti-bússola, que cá em casa me atribuem descaradamente, pode ser que tenha também o princípio da anti-adivinhação eleitoral! Neste caso dava algum jeito!

Manhã

Banker_Mexico_clean_right_Jason-deCaires-Taylor_Sc

Jason deCaires Taylor

 

Resta-me gostar

não sei bem se da vida se das pessoas que contém

não sei bem se de ti se da vida que nos tem.

Resta-me tocar

a noite com a certeza de acordar

nem que seja no outro lado da vida

com que renovo os dias por te amar.

Das cautelosas cautelas do PCP

pcp chechenia.jpg

 

 

O PCP só tem certezas quando se trata dos desmandos dos EUA, dos seus aliados capitalistas e opressores do povo trabalhador. Quanto à Rússia e aos seus amigos e protegidos, tudo são dúvidas existenciais e cautelas adicionais.

 

Será que há uma perseguição contra os LGBT na Chechénia? Será que estão a colocar pessoas em campos de concentração devido à sua orientação sexual? Será que a Coreia do Norte é uma democracia? Será que o regime Sírio tem armas químicas e as pode usar contra o seu povo? Será?

Da manipulação participativa

russia un votacao.jpg

 

 

Vivemos tempos perigosos, se calhar como sempre, mas quanto mais dentro deles estamos mais perigosos os sentimos. O que mais mudou, pelo menos para mim, é a credibilidade das notícias que circulam pelos media, multiplicados e amplificados pelas redes sociais. Nunca se sabe o que é verdade, o que foi truncado, o que foi escondido, o que foi manipulado.

 

Por isso mesmo a cautela deve ser cada vez maior, quando pretendemos formar uma opinião e partilhar as nossas conclusões, pois os factos são cada vez mais alternativos. Tenho assistido estupefacta à divulgação e partilha de artigos, excertos de reportagens, declarações inflamadas sobre o ataque com armas sírias a 4 de Abril, correspondentes a 2013, 2014 e 2016, mas nunca a este ataque específico. Aliás a única notícia do Conselho de Segurança das Nações Unidas que encontrei em relação ao assunto, realça a impossibilidade de ter sido aprovada uma resolução que condenava o ataque e pedia ao governo sírio que cooperasse numa investigação ao incidente, pelo veto da Rússia (e da Bolívia), que foi consentânea com a do PCP em Portugal, ao recusar-se a votar favoravelmente a condenação parlamentar desse crime de guerra, redireccionando as suas críticas aos EUA por terem retaliado de imediato.

 

É tal a cegueira que muitos não se dão sequer ao trabalho de ler os artigos que linkam, pois se o fizessem aperceber-se-iam de imediato do logro. Há de tudo: repórteres a falarem de um ataque químico de 2013, excertos de um relatório das Nações Unidas, de 2013, sobre o facto dos "Rebeldes" terem acesso armas químicas, documentários de uma televisão de extrema direita sobre os sírio, enfim, um manancial de desinformação que conta com a activa participação da nossa negligência.

 

Não sei quem perpretou o ataque com armas químicas. Fosse quem fosse que o fez, é um crime e deve ser unanimemente condenado. Quanto à Administração Trump, ela é uma ameaça à estabilidade e à paz mundial, antes e depois do ataque à Síria.