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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

O baú de Hamburgo (2)

O baú de Hamburgo começa em 1966 com a entrega de um baú proveniente de Hamburgo, numa espécie de hotel/ dancing/ bar de uma vila no norte de França, dirigido a uma misteriosa Rosa Friederich. Um dos amigos da mulher que explora o dito hotel - Madame Olga - para além de actor amador, é um curioso vigarista (chama-se Louis Clovis). Logo que pode abre o baú, abandonado numa cave visto que ninguém sabe quem é Rosa Friederich, e descobre uma fotografia de um copo-de-água realizado em 1938, em que se vê o noivo - Paul Lassenave, a noiva - Rosa Friederich, o padrinho do noivo - Julien Lassenave, irmão de Paul, e outra pessoa que não conta para a história.

 

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Paul Lassenave (Paul le Person) & Germain Lassenave (Julien Thomast) & Louis Clovis (Raymond Bussières)

 

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 Julien Lassenave (Jacques Monod) 

 

A partir daqui, e enrolando as personagens umas nas outras, a trama desenvolve-se à volta do desaparecimento e possível assassinato de Rosa Friederich, 9 anos antes (1957).

 

Devo confessar que me foi bastante difícil perceber o enredo, pois o meu francês não é particularmente fluente. Além disso, não se pode dizer que o som estivesse nas melhores condições. Felizmente, no início de cada episódio, há um resumo do(s) anterior(es), feito por um narrador com muito boa dicção, o que ajudou imenso.

 

O ritmo desta série é cerca de 1/10 do ritmo das séries actuais. A qualidade da representação vai do razoável/ aceitável ao muito mau. Ao contrário das séries americanas não há música ambiente, os actores aparecem como de facto são, sem preocupações de maquilhar imperfeições ou escolher modelos/ estrelas de beleza e sedução, não sei se pela época em que foi filmada se por causa do estilo europeu, neste caso o francês. Provavelmente pelos dois motivos. Contrasta com a música alegre e saltitante de abertura de cada episódio; pelo contrário, a música com que terminam é lenta, triste e lúgubre. O guarda-roupa também é bastante parco, vendo-se Paul Lassenave usar um casaco crivado de nódoas do princípio ao fim da história. A fealdade das personagens e do local, a rigidez dos costumes e a sobriedade da encenação, contribuem para a sensação de realidade, que nunca se perde.

 

Lúgubre é uma boa palavra para classificar a história e a forma como foi filmada. Mas, apesar de tudo, mantém o interesse até ao fim e o desfecho é inesperado. Não tem um final feliz, combinando bem com o tom de toda a série.

 

Foi, portanto, um êxito! Desvendou-se o mistério de Rosa Friederich e eu passei umas belas horas a (re)ver uma série que me tinha deixado encantada há cerca de 40 anos e que, ainda hoje, mantém o espectador em suspenso. Entretanto, apercebi-me que havia mais quem se lembrasse e procurasse a série, alguns tão obcecados como eu.

 

...la fin.

 

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ADENDA: Deram-me a informação preciosa de que O baú de Hamburgo passou na RTP, aos domigos à tarde, a partir de 13 de Junho de 1976.

 

O baú de Hambourg (1)

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Este foi um projecto ganhador, na tradição das melhores histórias policiais que tenho lido, passe o auto elogio.

 

O baú de HamburgoLa malle de Hambourg – é uma série francesa de 1972, que passou na nossa TV há muitos anos, talvez em 1976 ou 1977, não consigo precisar, da qual eu devo ter visto alguns bocados de alguns episódios. Naquela altura a quantidade de televisão que víamos era muito inferior e os nossos interesses bem mais diversificados, pelo que fiquei sempre sem saber exactamente o fio da história, assim como a sua conclusão.

 

Tudo girava à volta de um baú proveniente de Hamburgo, embrulhando-se depois o enredo em crimes, teatro amador e muito mais de que não me lembrava. Mas a curiosidade ficou e durante todos estes anos tenho tentado descobrir a série para ver se ainda mantinha o interesse que na altura me despertou.

 

O problema é que eu não sabia nada da série – não sabia se era francesa, belga ou outra qualquer nacionalidade onde se falasse o francês. Não me lembrava do nome – sabia que tinha algo ver com um porto e o nome que me vinha à memória era Amsterdão. Aliás, provavelmente condicionada por Jacques Brel, procurava afincadamente o nome Le port d’ Amsterdam. Não conhecia qualquer dos actores, nem tão pouco o realizador. Enfim, descobrir o rasto de uma obscura série televisiva que tinha passado por Portugal há cerca de 40 anos era uma tarefa árdua e quase impossível de concretizar.

 

Já não sei como me surgiu o verdadeiro nome da cidade portuária – Hamburgo! E depois, de imediato, o resto do título – A mala de Hamburgo!

 

porto de hamburgo.jpg

Porto de Hamburgo 

 

A Internet, mais uma vez, demonstrou ser uma prodigiosa ferramenta para detectives modernos e pesquisadores de tesouros enterrados nas brumas do tempo e da memória. Devolveu-me rapidamente La malle de Hambourg. Portanto não era uma mala mas sim um malão, ou um baú.

 

E pronto, reconheci de imediato a cara do actor que aparece no trailer. Sim, era mesmo aquela. O problema era encontra-la à venda – pode comprar-se através do INA, como me confidenciou alguém que encontra séries ainda mais arrevesadas que esta. Outro problema era compreender o francês, pois nem pensar em legendas de qualquer tipo, nem mesmo na língua original, o que ajudaria bastante.

 

Mas a satisfação era tanta e a possibilidade de, finalmente, ver a série de fio a pavio, que arrisquei. Chegaram 10 DVD, pelo correio, pontualmente 10 dias após a encomenda, tal como prometido…

 

…à suivre…

 

De marfim

clockworklove paper burning.jpg

Tjep.

Clockwork love paper - burning

 

 

Seria de marfim

etérea a cor e suave de mãos

o doce olhar final sobre o teu rosto.

Seria de coral

firme cantata que os lábios reconheceriam

por entre todas as flores que se enterram

nascentes de água perfumada na estranha

pálida e sombria palavra de escravidão

pelo amor

pelo reino

pelo pão.

 

Ao chegar ao cume da montanha

para lá de qualquer horizonte perdido

as ruas de um passado já deserto

abrem as neblinas encrespadas

e as velas dos navios naufragados

desfazem-se nas asas dos pássaros

de ébano

de fumo

de lume.

 

E assim terá que ser.

Encolhemos de terror e de bravata

lambemos os dedos e choramos as perdas

decididamente mergulhados no tempo que nos resta

por dentro da dor da preguiça do lodo

vamos criando raízes e sugando o mundo

por ti

por mim

por nós.

 

Curtíssimas

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Jacob and the Angel

Sir Jacob Epstein

Tate

 

São de Verão, mas poderiam ser de qualquer outra estação.

 

  • O palavreado dos nossos políticos/ figuras públicas é cada vez mais vulgar - a lengalenga dos comentadores é sempre a mesma, os assuntos repetem-se ciclicamente nesta época, a aridez e a secura informativa queimam tudo.
  • É impressionante a desfaçatez, também eterna, das exigências de medalhas olímpicas a atletas e a modalidades de que ninguém fala durante os 4 anos de intervalos inter olimpíadas. Quanto à importância da participação independentemente do pódio, já não se disfarça a culpabilização de não se fazer parte da percentagem dos vencedores.
  • É uma pena que as experiências anteriores não ensinem nada - os secretários de estado que viajaram a expensas da GALP já se deveriam ter demitido. Independentemente dos contornos criminais que a conduta possa configurar, é uma ponta solta para o ataque político a que o governo não se pode dar ao luxo.
  • Tenho a sensação de que a Procuradoria-Geral da República abre inquéritos ao arrasto do ruído mediático.
  • Já todos sabemos que a apresentação de imagens e filmes de fogo vivo excitam e motivam os pirómanos, tal como a multiplicação mediática dos corpos e das chacinas perpetradas pelos criminosos e terroristas apenas servem para propagar o medo, mas não há o menor vislumbre de um sobressalto de consciência e de sensatez da parte das televisões que, pelo contrário, rivalizam entre si medindo os minutos dedicados à exposição das chamas, dos desgraçados que perderam tudo, do desespero das populações - a tudo isto chamam o direito à informação.
  • A informação veiculada pelos jornais está cada vez mais ao nível da que usufruímos ao ler as opiniões e as partilhas requentadas do facebook.

 

Não sei bem porque ainda vou escrevendo alguma coisa. A total irrelevância do que escrevo deveria ensinar-me a resoluta opção pelo silêncio. Aquilo a que chamo poesia talvez só o seja para mim; os arroubos de cidadania não têm qualquer impacto, a partilha de opiniões são-no apenas para um círculo muito restrito que não necessita de ler o blogue. Porquê esta necessidade de protagonismo mediático? Nem é protagonismo nem é mediático. Suspeito que seja apenas triste e ligeiramente ridículo.

Palácio Nacional da Ajuda

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O Palácio Nacional da Ajuda - o seu projecto, construção, readaptação de projecto, etc. - é um bom retrato da forma como o País funciona. Quando as idades passam a ser mais avançadas, a tendência para vermos degradação e laxismo nas novas gerações é cada vez maior. Mas basta um pequeno conhecimento, mesmo que escasso e limitado, da nossa História, e percebemos que sempre fomos feitos da mesma massa, e que os pendentes arrastados e seculares são um princípio, um meio e um fim, uma mistura de incúria, lentidão, arrojo, capacidade de adaptação e de ultrapassagem de dificuldades, económicas e outras, megalomania e realismo.

 

O Palácio Nacional da Ajuda, projectado para residência real no rescaldo do terramoto de 1755, foi erigido como Real Barraca que, como é hábito entre nós, foi um palácio provisório por 33 anos, tendo sido destruído por um incêndio. Depois, entre projectos barrocos e reprojectos neoclássicos, invasões francesas e mortes reais, o Palácio vai sendo construído durante anos e anos, mais ou menos habitado e utilizado até ao reinado de D. Luís, altura em que foi (de novo) adaptado ao Rei e, sobretudo, à Rainha D. Maria Pia.

 

A visita ao Palácio dá-nos um vislumbre da vida doméstica de D. Luís, D. Mia Pia e da sua descendência, com os aposentos da Rainha e do Rei, a sala de bilhar, a sala da música, os quartos de dormir, as ante câmaras, as salas onde o Rei despachava, recebia os dignitários nacionais e estrangeiros, etc. Ainda hoje alguns aposentos são usados, nomeadamente para banquetes de Estado e para cerimónias de investidura de governos, tanto quanto percebi.

 

O Palácio precisa de obras e de cuidados de manutenção, como tantos outros palácios, museus e galerias, património arquitectural periclitante e a esboroar-se, parte da nossa memória colectiva. Por vezes vêem-se placas para que fiquemos a conhecer os mecenas - a GALP, o Millenium BCP - que financiaram alguma da reabilitação.

 

Outro dos motivos para a visita é a exposição (até ao fim deste mês) de pintura romena entre 1875 e 1945, constituída por quadros da Colecção Bonte, para mim uma revelação, primeiro por total desconhecimento da pintura romena e porque as obras são muitíssimo interessantes.

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Da desinformação doméstica

Aqui está como a desinformação e manipulação informativas já fizeram escola. 

 

Em abono da seriedade jornalística é bom que se reponha a verdade dos factos:

  • A hora não era assim tão matinal: eram 09:00h.

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  •  A Edna não estava a par das tardias horas de repouso do amantíssimo esposo.

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  •  O carinhoso pequeno almoço está suspenso até à necessária retratação.

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E se perder

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Maki Haku

 

1.

E se perder

não terei que mostrar nos olhos e na boca

o peso indizível dos ganhadores.

 

2.

Arrasto a pele e cubro de areia

os montes vazios em que me transformei.

 

3.

E se perder

já a lua alisará o mar

e a alma minguante secará em tempos desiguais.