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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Dos inconseguimentos da esquerda

Depois de ouvir Porfírio Silva, João Ferreira e Catarina Martins, respectivamente do PS, do PCP e do BE, convém notar o seguinte:

  • O PS não se manifestou em relação ao resultado que desejava no referendo grego, com a justificação de querer respeitar a soberania da Grécia. Não posso concordar com esta visão, pois o interesse de Portugal, como dos restantes países europeus, é que haja uma mudança na política europeia como o PS, aliás, sempre defendeu. Como disse Porfírio Silva, o mais importante é o reinício imediato das conversações para que se chegue a um compromisso. Mas do PS esperava-se a coragem na defesa das ideias que proclama. A estratégia do equilibrismo não dá confiança nem mobiliza ninguém. Além disso fica-me a dúvida, ao ouvir falar dos socialistas europeus, do que pensará o PS sobre as declarações do Presidente do Parlamento Europeu.
  • O PCP aproveitou oportunisticamente o resultado do não para se colocar do lado de quem ganhou. É demasiada desfaçatez se observarmos as declarações proferidas antes do referendo, nunca se comprometendo.
  • O BE foi o único partido com representação parlamentar que defendeu abertamente este resultado. Não concordo com quase nenhuma das bandeiras do BE mas, neste caso, gostei do radicalismo.

Mas covém que ninguém se esqueça que a Grécia respondeu a uma questão sobre um acordo e não sobre a sua permanência no euro ou na Europa.

Do (NÃO ao) medo

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É muito difícil decidir o que eu, caso fosse grega, responderia à pergunta que se faz hoje a todo o povo grego - aceito a proposta dos credores ou não aceito? Esta é a dúvida. No entanto toda a direita europeia a transformou numa noutra - quero ou não sair da União Europeia?

 

É claro que a primeira pergunta pode condicionar o resultado implícito na segunda. Pelo menos é isso que a direita europeia quer que todos sintam e receiem.

 

O medo. O medo de rejeitar uma política de empobrecimento e de destruição dos valores democráticos. Os países deixaram de ser donos do seu destino, as eleições para os parlamentos nacionais transformaram-se numa caricatura da democracia pois ninguém, nas mais altas instâncias europeias, tem a mínima intenção de respeitar seja o que for das escolhas eleitorais, caso elas não sejam consentâneas com a ideologia dominante.

 

O medo. É nisto que se baseia a relação entre as Instituições europeias e os povos que deveriam representar.

 

Olho para a minha forma de encarar a vida e sinto-me tantas vezes medrosa, tantas vezes de uma moderação que não cabe bem na minha natureza bipolar e impulsiva. Mas também sei que há alguns limites que, ao contrário de algumas figuras nossas conhecidas, não ultrapasso.

 

E esta é uma delas. Não é possível continuar a ignorar o atropelo democrático que se tem verificado na Europa, condenando os países e as suas populações à miséria, sem que tenham quaisquer hipóteses de mudar o seu destino. Gente hipócrita, que obriga nações inteiras a fingir que não existem ou nunca existiram, gente ignorante e arrogante, que vive em mundos paralelos sem contacto com a realidade, gente perigosa que decide o destino daqueles que, diariamente, contribuem com o seu esforço e trabalho para que haja alguma esperança de felicidade.

 

Por isso, muito provavelmente, se fosse grega, votaria hoje não. E tenho muita pena que as explicações do PS, que tenta a moderação sobre todos os assuntos difíceis, ao contrário da clareza e da assertividade, que tenta o equilibrismo quando se desejaria um mergulho, ou um salto, ou asas para voar, se enrede em palavras de circunstância, sem que ninguém perceba exactamente a sua posição. E isto é verdade tanto em relação à candidatura presidencial, como ao problema da Justiça, à herança dos anteriores governos de Sócrates ou à crise grega. Por medo.

O indizível susto da democracia (3)

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Tsipras recuou nos seus propósitos democráticos de dar a oportunidade aos gregos de decidirem se aceitava ou não os novos (velhos) dictates dos donos disto tudo. Afinal a democracia poderia ser adiada de novo. A voz do povo só seria uma afirmação democrática se respondesse afirmativamente às necessidades da sua posição. Em vez de manter o desafio, Tsipras tudo tentou para que o referendo fosse chumbado.

 

Realmente os heróis já não moram cá, nem em Bruxelas nem em Atenas, muito menos em Lisboa ou Madrid. Com a convocação do referendo, o governo grego tinha desafiado os poderes não democráticos com a essência do exercício da legitimação do poder e a Troika ressentiu-se, com a retórica a clamar pelo reinício das conversações. Mas a fibra de Tsipras é outra - perante a hipótese de ter que se demitir caso ganhe o "sim", preferiu dar o dito por não dito.

 

Voltámos portanto à estaca menos mil, menos milhões - a força está, de novo, do lado da direita europeia, do FMI e da total ignorância irresponsável das Instituições Europeias.

 

Os Heróis são verdadeiramente personagens míticas e inexistentes. O objectivo do referendo deixou de existir, Tsipras traiu aquilo que, com a decisão de referendar a assinatura do acordo, dizia defender. Após uma vitória do "sim" terá que haver uma demissão do governo grego e novas eleições. Se o "não" vencer, Tsipras perdeu toda a credibilidade e toda a força negocial.

 

Vivemos no tempo da mediocridade e dos chacais, no tempo das desilusões sistemáticas e da destruição de tudo o que sempre pensámos com bases de sustentabilidade de uma sociedade decente.

Mar me quer

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 Mia Couto

Natália Luíza

Alberto Magassela, Cucha Carvalheiro, Daniel Martinho

Marta Carreiras

Rodrigo Leão

Miguel Seabra

 

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 Teatro Meridional

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Um dia como os outros (160)

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 (...) Mesmo moderando a linguagem, e como aconteceu há 75 anos no caso do colaboracionismo com a Alemanha, fica-nos a sensação que entre os parlamentares socialistas europeus, anda tudo a apanhar bonés na atitude comum a adoptar por eles em relação à crise grega. Ainda muito recentemente, Martin Schultz, o presidente do parlamento europeu e também a cara mais conhecida desse socialismo europeu deixou-se apanhar numa troca de galhardetes com um eurodeputado grego do Syriza com ar de avozinho (acima), de onde só pôde sair mal na fotografia. Mas, para quem pense que a outra esquerda, a comunista (dialéctica), mostrar-se-á mais lúcida na estratégia e nos princípios políticos em discussão, pode desiludir-se acompanhando o comportamento do Partido Comunista Grego (KKE) que num dia convoca uma manifestação contra a austeridade para a frente do Parlamento grego para, no dia seguinte, e lá dentro, votar contra a proposta de realização de um referendo a esse respeito. Isto deixa o caminho aberto para quem, opondo-se ao projecto dito europeu por muito que não gostemos de os ouvir, tem discursos (aparentemente) consistentes a esse respeito – caso da Frente Nacional francesa de Marine Le Pen. O que, por sua vez, torna, finalmente, ainda mais patética a conduta dos descendentes dos parlamentares da esquerda de 10 de Julho de 1940, personalizados na figura de um Manuel Valls que apela ao governo grego para regressar às negociações (abaixo). Numa confrontação em que não sabe muito bem o que há-de fazer, Valls não recolhe autoridade para apelar seja ao que for e faz uma triste figura de si a apanhar bonés por ser socialista mas também a apanhar ainda mais bonés por ser francês.

 

A.Teixeira

O indizível susto da democracia (2)

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De novo, a Grécia quer que a escolha do povo decida o seu destino. De novo há um Primeiro-ministro grego que, perante a impossibilidade de cumprir o mandato para o qual se comprometeu, quer perguntar aos cidadãos se aceitam ou recusam a proposta que a Europa lhes está a impor.

 

Não tenhamos dúvidas - esta não é uma Europa democrática. Esta é uma Europa que pretende manter a todo o custo a direita conservadora no poder, fazendo letra morta de conceitos tão nobres como solidariedade, liberdade e democracia, ideias fundadoras da União Europeia (vale a pena ler Pacheco Pereira no Público).

 

A nobreza não paga dívidas e a democracia deixou de ser um valor para passar a radicalismo extremista. Foi assim classificada a escolha eleitoral do Syriza, são assim rotulados os Ministros gregos, é por isso que a direita impõe as escolhas políticas internas para uma suposta ajuda internacional.

 

Pela postura de Passos Coelho e de Cavaco Silva, Portugal coloca-se do lado antidemocrático. Admiro Tsipras e Varoufakis e o seu radicalismo que se revela no respeito pela dignidade do seu País, pela convicção de que é a vontade do povo que prevalece e que o governo pertence a cada um dos países soberanos que fazem parte desta caricatura em que se transformou a Europa.

Dos donos disto tudo

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Não há opiniões nem estados de alma do FMI, do BCE ou do Eurogrupo que não sejam gritadas nas primeiras páginas dos jornais, em todas as televisões, partilhadas nas redes sociais. Mas há conferências e discursos que, não fossem alguns blogues atentos, não chegariam a ninguém.

 

Manipulação informativa total e programada. O que é importante é insistir na radicalidade do Syriza ou seja, da irresponsabilidade do povo grego que teve a ousadia de escolher o governo errado, segundo a ideologia dos donos disto tudo.

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Do PS como partido da esquerda democrática

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A realidade crua do nosso leque partidário e, portanto, das nossas opções de voto, mantém-se a mesma desde 1975. Se tivermos a paciência de revermos o celebérrimo confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal antes do 25 de Novembro, podemos apreciar que a escolha principal e mais importante que se colocava aos líderes políticos (e aos eleitores) nessa altura era entre um regime democrático e um regime não democrático

Mário Soares soube estar à altura das circunstâncias opondo-se frontalmente ao totalitarismo crescente protagonizado e/ou apadrinhado pelo PCP que, apesar das eleições em 25 de Abril de 1975, pensava poder ganhar o poder com a sua vanguarda revolucionária. Por muito que, posteriormente, possamos gostar ou não da forma como Mário Soares conduziu a sua acção e vida políticas, a ele devemos essa esperança, essa força e essa capacidade de mobilizar o povo, não permitindo uma nova ditadura. 

Os discursos que hoje ouvimos a Jerónimo de Sousa são quase exactamente iguais aos de Álvaro Cunhal. Ninguém poderá dizer que o PCP não honra a sua memória e a sua coerência políticas - é o mesmo desde essa altura. Em todos estes anos o PCP acha que o PS é igual ao PSD e ao CDS, partilhando a mesma ideologia e a mesma prática política, palavras repetidas ao longo de todos estes anos, depois de tudo o que se foi passando no País, do 25 de Novembro à entra na CEE, dos governos da AD ao do PS. A todos o PCP apelida de direita reaccionária, que combate violentamente os trabalhadores

O PCP terá um lugar na História como o partido que conseguiu cristalizar no tempo e que se manteve irredutível defendendo uma sociedade inexistente, cujos exemplos que cita foram ferozes regimes ditatoriais que, entretanto e felizmente, se desfizeram.

 

Por isso não vale a pena estarmos a pensar que, em Portugal, no século XXI, 40 anos após o 25 de Abril, mais de 20 anos após a queda do muro de Berlim, no meio da espiral recessiva e da crise da União Europeia, do afundamento daquilo a que nos habituámos a considerar o paradigma de uma sociedade decente, que defende e apoia a igualdade de oportunidades, que redistribui a riqueza e apoia os cidadãos, considerando-os a todos merecedores da mesma felicidade, não é possível uma aliança política à esquerda.

 

O PS confronta-se, mais uma vez, com a impossibilidade de poder contar com outras formações partidárias para partilhar a responsabilidade do poder. Uma coligação à esquerda é contra natura pois o PS é, sobretudo e acima de tudo, o partido da esquerda democrática. E isso É a diferença.

 

Mas há outros ensinamentos que Mário Soares nos pode dar. A sua coragem e clareza políticas, a sua capacidade de perceber as prioridades num período perigoso, delicado e de grande confusão, em que o menor pretexto poderia desencadear violência e golpes ditatoriais, de esquerda e de direita. É isso que se pede ao PS de hoje, em circunstâncias muito diferentes mas que são, igualmente, delicadas e de grande confusão.

 

A Europa pode estilhaçar-se sob uma coligação de gente que se esqueceu qual o objectivo do exercício do poder, se esqueceu que a economia deve estar ao serviço das populações. As Instituições Democráticas são olhadas com distanciamento e desesperança - o desemprego, a pobreza, as hordas de descontentes e de emigrados, a falta de perspectivas de futuro, o sentimento de insegurança e de impunidade, a judicalização da política, o novo poder fiscal absoluto, tudo contribui para que a sociedade se deslace e desagregue.

 

Vale a pena rever o longo confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal - precisamos de refrescamento de prioridades e de separar o que é essencial do acessório - o PS é o partido da liberdade e da democracia. Tem que mostrar que é o partido da coragem e do desafio, sem medo de enfrentar os fantasmas do seu passado, sem medo de enfrentar a massificação da calúnia, a inversão dos valores do Estado de Direito. Não pode esconder-se atrás de dos calculismos e equilibrismos na contagem das espingardas e no assegurar de votos seguros. Há mais de 25% de indecisos nas sondagens que vão sendo publicadas. Esses 25% de pessoas esperam a clarificação dos cenários para o futuro: confiar nas Instituições, ter alguém à frente do governo que saiba defendê-los, que seja digno, que mostre que a Justiça, a Liberdade e a Democracia são, ainda, os valores da nossa sociedade.

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