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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Da desatenção museológica Presidencial

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 Museu da Presidência

 

Hoje decidimos ir visitar o Museu da Presidência da República, que fica no conjunto de edifícios e jardins que constituem o Palácio de Belém.

 

O Museu ocupa dois andares de um edifício mesmo ao lado da rampa de acesso ao Palácio e de uma delegação de Correios. À entrada precisamos de passar por um detector de metais. Os bilhetes custam 2,50€. Inicia-se por uma pequeníssima explicação do que foi a implantação da República e dos seus símbolos – hino e bandeira. Depois aparecem os retratos de todos os Presidentes, com uma pequena nota, num tablet (alguns estão desactivados ou avariados), sobre cada um deles. Numa parede podem observar-se três vídeos, com áudio (auscultadores), sobre a Primeira República, o Estado Novo e a Democracia (têm que se ver e ouvir de pé). Há ainda um e-book que podemos folhear sobre as Primeiras-Damas, bastante resumido.

 

Segue-se uma exposição de objectos ofertados aos Presidentes da República de Portugal, por vários dos convidados presidenciais e/ou reais de outros países e/ ou reinados, aquando das suas visitas oficiais. Há ainda alguns expositores das condecorações honoríficas, com escassas explicações. Termina com uma maqueta do Palácio de Belém e uma pequena história do mesmo e de como se transformou em Palácio presidencial.

 

Se gostei? Sim, gostei, mas soube-me a muito pouco. A sensação com que se fica é que haveria muitíssimo mais a dizer, que se poderia ter aproveitado, por exemplo, cada Presidente para o enquadrar historicamente, contar um pouco da sua história e das suas circunstâncias. Não há menção à história dos retratos, de quem os fez, algo sobre os artistas, nada. As informações sobre as Primeiras-Damas também são muitíssimo sumárias, não se percebendo exactamente qual o papel, se é que o tiveram, na altura em que os respectivos maridos (ou companheiros) tinham assumido a Presidência.

 

Quanto às condecorações, não há quaisquer explicações sobre o que são, como surgiram, a quem se destinam, qual a mais importante e porquê. O mesmo em relação ao Palácio – o que é que se passa e aonde – o Palácio é enorme – fotos ou vídeos ou documentos sobre acontecimentos que lá se teriam passado e aonde, etc. Os vídeos que estão disponíveis deveriam ter, pelo menos, uma cadeirinha para os visitantes se sentarem.

 

A loja não tem muita oferta, nomeadamente os tais vídeos que poderiam ser um bom e útil motivo de lembrança.

 

Enfim, parece-me que o anterior Director do Museu (Diogo Gaspar) não ficará célebre pela excelência do seu trabalho. Isto para não mencionar a tímida divulgação e promoção que tem (o site também está pouco atractivo, convenhamos). Acho um desperdício pois é uma excelente e interessante ideia, mas com uma concretização desleixada.

 

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Maqueta do Palácio de Belém

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Vacancy

Paul Hazelton 

 

 

Levanto pó quando desloco os olhos para o infinito.

Não há infinito que se mova sem pó

nem movimento sem olhos que o observem.

Nem eu.

 

Desato o ruído quando leio o pó que cobre o mundo.

Não há mundo que se escreva sem pó

nem ruído que se desate sem o sopro que o cobre.

Nem tu.

 

Amasso o barro quando arrumo o pó que molda o corpo.

Não há corpo que se molde sem pó

nem barro que se arrume sem o amasso das mãos.

Nem nós.

Solidão

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João Queiroz

 

Escorro pelas paredes e encaixo-me num canto

evito as janelas sedenta de ar e de nuvens

cerro todas as portas por onde anseio partir.

 

Lá fora pode parecer que a vida se mostra

e que os olhos se habituam à luz

quando a verdade descai dos ombros e evapora.

 

Aquilo a que chamamos alma é a culpa

concentrada e a mais antiga prova

da nossa eterna e inescapável solidão.

Anda tudo a brincar uma brincadeira de muito mau gosto

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Bruxelas propõe suspensão de 16 fundos estruturais como sanção contra défice excessivo

Expresso - 23/07/2016 às 16h17

 

Bruxelas propõe suspensão de 16 fundos estruturais como sanção

Diário de Notícias - 23/07/2016 às 15h03

 

Sanções: Bruxelas quer parar todos os Programas Operacionais Regionais. E outros

TSF - 23/07/2016 às 15h16

 

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Comissão Europeia desmente suspensão de 16 fundos estruturais em Portugal

Expresso - 23/07/2016 às 15h16

 

A dúvida. Bruxelas quer ou não cortar fundos?

Diário de Notícias - 23/07/2016 às 20h33

 

Sanções: proposta de corte de fundos estruturais não existe

Diário de Notícias - 23/07/2016 às 22h25

Empreendorismo caseiro

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A pouco e pouco vão aparecendo vários ingredientes para novos licores. O empreendedorismo em acção e a rede informal de alimentadores de empresários sazonais (que, no meu caso, já se estende do 4º trimestre para o 2º semestre), baseados na troca de géneros e de afectos, tão na moda após a tomada de posse do nosso irrequieto e hiperactivo Presidente.

 

Há já alguém que me traz fisálide ou alquequenge (Physalis) ou capucha (nos Açores), outra que me colhe as folhas da figueira, outra que me enche de mirtilos, para não falar de quem me supre de aguardente velha e caseira. Tudo completamente ecológico e biológico, aproveitando o que a natureza fornece, para reduzir o desperdício e proceder à indústria transformadora de água em vinho (com algumas passagens pelo meio, porque de Jesus Cristo não tenho rigorosamente nada).

 

Já descobri, entretanto, umas garrafas descomunais para poder guardar as litradas licorosas resultantes destas tardes a destilar calor, a mexer e a filtrar xaropes. Este Natal, para não variar, sofia&companhia.bebe (e também .come) voltam a atacar.

 

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A área de artesanato correspondente ao engarrafamento, elaboração, corte e colagem de rótulos é uma empresa gémea e necessariamente associada à primeira. Nesta casa todos os anos nascem e morrem empresas uninominais e pessoais, o que também contribui para a energia laboral, mesmo que a escassa legislação não diferencie o patronato das massas trabalhadoras.

Oceanário

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Quantas vezes nos acontece ficar desiludidos após a visita a um museu ou a uma exposição, depois de ver um filme ou ler um livro, talvez porque esperámos demais ou alimentámos fantasias perante histórias e imagens para além da realidade.

 

Pois com a minha visita ao Oceanário de Lisboa aconteceu precisamente o contrário.

 

Um aquário gigantesco, muito bem orientado, com bastante informação, observando-se um enorme cuidado com os espaços, as luzes, a forma como se fornecem pequenos conteúdos educacionais e ainda os pequenos fragmentos de poemas da Sophia de Mello Breyner, para que se possam ler em pequenos cantos de admiração e descanso.

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Falo da exposição permanente, pois foi a que visitei. Os vários tipos de ecossistemas marinhos, com a fauna e a flora típicas, e aquela enorme montra em que podemos observar inúmeros tipos de peixe, majestosamente nadando de um lado para o outro, num filtro de luz azulado e crua, mas que emite uma paz e uma serenidade que casam bem com a poesia.

 

Muitos miúdos, como era de esperar, e muito bem dispostos!

 

Gostei imenso e aconselho vivamente a quem ainda não conhece que não perca.

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Iremos juntos sozinhos pela areia

Embalados no dia

Colhendo as algas roxas e os corais

Que na praia deixou a maré cheia.

 

As palavras que disseres e que eu disser

Serão somente as palavras que há nas coisas

Virás comigo desumanamente

Como vêm as ondas com o vento.

 

O belo dia liso como um linho

Interminável será sem um defeito

Cheio de imagens e conhecimento.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen (1954)

Começa a ser demasiado familiar

 

O que se está a passar na Turquia começa a ser demasiado familiar e óbvio quanto ao que move e qual o objectivo de Erdogan.

 

Tal como com Hitler, a comunidade internacional tenta não ver e desvalorizar. Ninguém sabe exactamente como actuar naquele barril de pólvora. Christine Lagarde é apenas um exemplo de quem tem as prioridades distorcidas.

Os (des)acordos (entre) parlamentares

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Causa-me muita perplexidade o que se passou ontem no Parlamento, em relação à eleição de António Correia de Campos para a presidência do Conselho Económico e Social.

 

Não está em causa o facto de cada deputado se pronunciar como quer, em sua consciência, e o voto ser secreto - ainda bem que o é. O que me espanta e não entendo é como foi possível que um acordo entre os dois partidos com maior representação parlamentar não se tenha traduzido na votação maioritária (por 2/3), o que seria o objectivo do dito acordo e o espectável.

 

Levantam-se várias questões:

  1. Qual a ligação entre os negociadores do acordo entre o PS e o PSD e os restantes deputados dos partidos?
  2. Para o referido acordo apenas se falou do PS e do PSD - foram só esses os partidos envolvidos nas negociações? Se sim, porque ficaram de fora os restantes partidos, nomeadamente aqueles que suportam o governo?

 

Gostaria de perceber o que se passou. Mas uma coisa é certa - os dois maiores partidos portugueses e o Parlamento não saíram dignificados deste episódio, tal como não tinham saído aquando da tentativa de escolha de Jorge Miranda para Provedor de Justiça, em 2009.

 

Nem Jorge Miranda nem Correia de Campos merecem este desrespeito e esta desconsideração. Não a eleição em si, pois quem vai a votos arrisca-se a perder e a ganhar, mas toda esta novela à volta de acordos que se usam para achincalhar as necessárias negociações parlamentares e, pior do que isso, personagens que tudo têm feito para elevar a política e servir os cidadãos.

O ruído do tempo

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Desde que li O papagaio de Flaubert tornei-me assídua leitora de Julian Barnes.

 

O último livro deste autor é, como habitualmente, uma reflexão violenta e irónica sobre a relação entre os intelectuais, mais propriamente os artistas, a arte e o poder. Mas não só.

 

Julian Barnes usa Dmitri Shostakovich, um compositor russo que viveu as épocas da revolução russa, das duas Guerras Mundiais, do estalinismo, da ligeira abertura do regime com Nikita Khrushchov e de Leonid Brejnev, para discorrer sobre a humanidade, a nossa capacidade de resistir e de ceder ao poder ou a tudo o que nos é contrário e nos violenta em termos ideológicos ou morais, a forma como nos defendemos e justificamos, por aceitarmos aquilo que nos incomoda e revolta. A vida e os homens são feitos de cambiantes de tons e cores e todos somos capazes dos maiores heroísmos e das piores abjecções.

 

Numa escrita muito sintética e depurada, o autor encarna Shostakovich e conta a sua vida na Rússia soviética, que alternou períodos em que foi punido por escrever música que não agradava aos ideólogos estalinistas e ao próprio Staline, sendo afastado dos empregos e dos concertos, temendo pela sua vida e pela dos seus familiares e amigos, aguardando à noite, junto ao elevador da sua casa, que o viessem prender para o deportar e/ou matar, com períodos em que era bajulado e premiado pela nomenklatura, recebendo prémios e honrarias.

 

Shostakovich vive em sobressalto, depressão, ansiedade e negação de si próprio. Despreza-se e não se perdoa por aquilo que considera actos de cobardia - apoiar decisões e deportações lendo discursos ou assinando documentos que outros escrevem, negar apoio a quem, como ele, tinha caído em desgraça, como a última e ultrajante humilhação de se ter tornado membro do Partido Comunista da União Soviética, que tinha conseguido evitar até Khrushchov ter assumido o poder. Não poupa os intelectuais estrangeiros que se dão ao luxo de admirar a sociedade mais avançada do mundo porque nela nunca tinham vivido - Romain Rolland e Jean-Paul Sarte, por exemplo.

 

O ruído do tempo é muito mais que um romance, muito mais que uma biografia, sem ser nem um romance nem uma biografia. Nos tempos que correm em que assistimos impotentes ao ascender de ditadores, convém não nos esquecermos o que é viver num regime totalitário.