Para adoçar os dias vinagrentos que vivemos, nada melhor que... doce de vinagre.
É muito fácil, muito doce e muito bom. Nunca tinha ouvido falar deste doce, fora da minha família mas, numa pesquisa pela internet, li variadíssimas receitas de doces semelhantes. Mas não iguais. Convém aceitarmos que é um doce hipercalórico, cheio de açúcar e que engorda imenso, para que não cortemos nas quantidades e não usemos leite magro, só para que aceitemos melhor o pecado. Pequemos, mas a sério e sem desculpas tolas.
Deita-se 1/2 litro de leite gordo (o do dia é melhor) num tacho largo (eu uso sempre tachos grandes, taças grandes, tudo enorme) e põe-se ao lume. Quando levantar fervura deita-se uma colher de chá (ou de sobremesa) de vinagre para cortar o leite e junta-se 1/2 quilo de açúcar. Deixa-se ao lume, mexendo, até fazer ponto de estrada (ao raspar o fundo com uma colher de pau abre-se uma estrada que não se desfaz de imediato). Deixa-se arrefecer e mistura-se, com cautela, as gemas batidas de 1/2 dúzia de ovos. Depois de tudo bem misturado leva-se de novo ao lume brando, mexendo sempre para cozerem as gemas.
Apaga-se o lume e deixa-se arrefecer. Batem-se as claras em castelo bem firme e misturam-se com o preparado anterior, quando este já esfriou. Come-se depois de uma passagem pelo frigorífico.
É mesmo delicioso. Para não me esquecer das porções lembro-me sempre que é meio de tudo - 1/2 l de leite, 1/2 Kg de açúcar, 1/2 dúzia de ovos.
Temos cada vez mais medo de ouvir as notícias. A Europa esboroa-se. A corrida aos bancos, a bolsa em descida abrupta, a vez do ataque a Espanha, a Grécia à beira do abismos e, com ela, todos nós e todos os outros.
Ninguém faz ideia do que se vai passar mas o espectro da bancarrota, de grandes tumultos sociais, do fim próximo das democracias e da paz, minam a capacidade de avaliação e de decisão das pessoas individualmente, dos governos e dos Estados colectivamente.
Como foi que nos quisemos
que pacto de sangue e lágrimas nos acamou
com que cimento nos colamos
entre rasgos de fúria e nuvens de incertezas
que profecia realizamos
nesta partilha de ser e sentir
nesta labuta de amar que nos calhou
que em tão certa aliança resultou?
C. Curkoluth
Neste lugar de confusão
em que aperta a garganta de tanto engolir silêncios
neste lugar de labirintos
em que os dias abafam de tanto espanto mudo
volto a ti em cada momento
e o mundo reencontra sentido.
Teresa Dias Coelho
Não te conheço as horas
os dias em que te debruças sobre o mar
em que as ondas esperam pelo teu olhar.
Não te respiro as fundas gotas de melancolia
que transportam as mãos nuas de vento
que inusitadamente ofereces a quem ama.
Para além de várias outras nomeações, este filme ganhou distinguido como melhor documentário pelo Directors Guild of America Awards em 2010, melhor guião para documentário pelo Writers Guild of America Awards e o Óscar para melhor documentário em 2011.
No meio de tantos especialistas em economia e finanças, de tantos comentadores sobre os mercados, a crise, a bolha imobiliária, os subprimes, o capital, a esquerda e a direita, fazendo uma pesquisa pela internet, encontrei muito poucas referências o que, só de si, é mesmo muito significativo. Vi-o hoje e recomendo vivamente. Tal como Nicolau Santos, deveria ser objecto de estudo obrigatório.
A fina e quase invisível linha que separa a civilização da barbárie ficou bem patente ontem, com a promoção do Pingo-Doce.
Populações comprimidas com tanta falta de poder de compra, sem prever melhores tempos, tudo fazem para aproveitar as oportunidades. Mas a exploração do que de mais selvático e desumano há em cada um de nós e que se revela em situações de medo, foi exactamente o que o grupo Pingo-Doce fez, com evidentes objetivos comerciais e políticos – será que também vão propor o mesmo a 25 de Dezembro? Ou há feriados mais feriados que outros? Deveríamos ponderar seriamente o significado de certos símbolos na nossa sociedade actual. E quais os valores com que assumimos as nossas vidas e as nossas dificuldades.
É sempre humilhante confrontarmo-nos com o nosso lado animalesco. Como sociedade perdemos a dignidade.
Não tenho qualquer dúvida de que é necessário reorganizar e reformular o SNS. Mas o começo destas deveria ser a definição da política de saúde. Em que apostar, em que investir, o que é que se deve assegurar.
Para isso e constitucionalmente, não poderá haver dúvidas quanto à manutenção da universalidade da prestação de cuidados de saúde, à gratuitidade, mesmo que tendencial, e à garantia de acesso em igualdade para todos os cidadãos. No entanto essa regra constitucional deixou de ser cumprida quando se introduziram as recentes taxas moderadoras, que não têm como objectivo moderar o consumo mas criar pagamentos adicionais àqueles que já são efectuados através dos impostos. O SNS não pode ser uma espécie de seguro de saúde, cujos mínimos assegurados estão constantemente a mudar e sem que os cidadãos possam rever o pagamento à seguradora, neste caso o Estado.
O aumento do número de isenções do pagamento das taxas não ilude a questão nem melhora ou garante a acessibilidade ao sistema. Mascara aquilo em que se tornou o direito à saúde – uma esmola do Estado para quem é pobre, essa palavra com que se apelida e se marginaliza uma faixa cada vez maior da população.
Taxar actos médicos que não dependem da decisão dos doentes, não dando aos mesmos a possibilidade de os negarem, é uma prepotência inaceitável, já para não falar dos problemas éticos que se colocam aos profissionais de saúde. Foi assim com Correia de Campos quando resolveu introduzir taxas moderadoras nas cirurgias, é assim com o pagamento de taxas moderadoras por tudo e por cada uma/um das consultas, cirurgias, meios complementares de diagnóstico, técnicas adicionais, tratamentos, etc.
O que neste momento está em causa não á a racionalização e optimização dos recursos do país, mas o acabar de uma conquista civilizacional que o estado social conseguiu e que, entre nós, foi possível após o 25 de Abril. Em tempo de grandes dificuldades económicas para a grande maioria da população, a assistência na saúde deixou de estar assegurada. Foi reposta a situação existente antes do advento da democracia – a saúde é só para quem a pode pagar.

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