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Defender o Quadrado

Nesta casa serve-se tudo a quente. As cadeiras são de pau e têm as costas direitas. Há sempre pão a cozer e o conforto da desarrumação. A porta está sempre aberta... mas fecha-se rapidamente aos vermes que infestam alguns cantos do quadrado. Sejam

Um dia como os outros (154)

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Preservar a privacidade das pessoas é um objetivo estimável. Devia ser aliás preocupação de toda a gente - afinal, é um valor fundamental, consignado em todas as constituições de Estados modernos democráticos. Daí que, à partida, não veja nada de escandaloso na criação de um sistema que vise acautelar a consulta indevida, por parte de funcionários da administração, de dados fiscais - e mesmo, admito, num sistema que detetando um universo de contribuintes que atraiam mais a "curiosidade" vise apertar a malha no que respeita à devassa das suas declarações contributivas e respetiva utilização indevida.

 

Não é democrático e há até quem avente crime numa lista desse tipo? Não sei que crime pode estar em causa, mas, se vejo todas as privacidades igualmente dignas de recato, sei que não são todas atacadas por igual, o que poderá, em teoria, justificar medidas específicas. O problema será sempre a prática: quem, com que critérios e fito, definiria o universo dos contribuintes com proteção reforçada? E quem tem legitimidade para aprovar tal definição? E aí, já se percebeu, tudo nesta estória está errado. Não só a lista terá sido pensada na sequência de revelações sobre o historial contributivo do PM como ninguém quer assumir a sua existência, paternidade, responsabilidade e critério, o que nunca é um bom sinal.

 

Ontem, não só vimos a revista Visão comprovar documentalmente a existência da dita lista como foi difundida a informação de que esta conteria apenas quatro nomes (o do PM, do PR e do vice-PM, mais o do secretário de Estado da Administração Fiscal). A ser assim - difícil crer, apesar de tudo -, a lista não seria uma medida de preservação de privacidade de pessoas avaliadas como sendo de alto risco de "ataque", aceitável embora discutível, mas uma clara instrumentalização da administração pública por parte de interesses privados. Os interesses das personalidades em questão e das forças e setores políticos que representam, assim protegidos por uma aplicação informática especialmente criada para o efeito pelo Estado - e em ano eleitoral.

 

O mesmo ano eleitoral em que assistimos diariamente à "revelação", nos media, de alegadas peças processuais e informações apresentadas como estando em segredo de justiça, incluindo matérias do foro privado (e até político) sem que no governo uma sobrancelha se levante, quanto mais se proponham medidas, por exemplo de alerta informático?, para o evitar. O mesmo ano em que o governo propõe uma outra lista - a de abusadores sexuais com pena cumprida, obrigados a viver em perpétua exposição e infâmia - alegando para tal dados falsos sobre reincidência. Proteger a privacidade (intocabilidade) de uns, atacar e anular as de outros, usando o aparelho de Estado, a insídia e a demonização como meio para os dois fins: o método tem barbas e bastos exemplos históricos. Dá ideia é que há muita gente sem memória. Ou distraída.

 

Fernanda Câncio

Aos amigos

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 Herberto Helder

 

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,

com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

— Temos um talento doloroso e obscuro.

Construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

 

Vitorino & Pedro Caldeira Cabral & Janita Salomé

Do próximo Presidente da República (3)

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A estratégia para resgatar o país a esta direita que nos governa não se prende apenas com a discussão das eleições legislativas. Passa também pelas eleições presidenciais.

 

O Presidente da República ainda em funções não foi capaz de galvanizar os cidadãos nem de os representar, sendo uma voz cuja autoridade se deveria fazer sentir nestes tempos de amargura, crueldade e arame farpado que temos vivido, dentro do país e internacionalmente. O respeito institucional pela Presidência da República desintegrou-se e, com ele, o respeito pelas outras Instituições democráticas e pela própria democracia.

 

O Presidente da República tem a legitimidade do voto universal e o poder que essa legitimidade lhe confere. Por isso não pode assumir a defesa de uma determinada área política e guerrilhar a área contrária, não pode nunca aparecer aos olhos dos cidadãos como alguém que subalterniza as funções de servidor do Estado, optando por remunerações alternativas àquelas que o cargo lhe confere, não pode nunca esquecer-se que as suas palavras não serão esquecidas, usando a despropósito o seu exemplo pessoal, seja para jurar honestidade, seja para se lamentar da sua pensão.

 

O próximo Presidente da República terá a espinhosa tarefa de tentar restaurar a confiança e a esperança das quais tanto necessitamos para enfrentar as agruras que ainda nos aguardam, para afirmar Portugal como um país soberano na Europa, para concretizar a colaboração com todo o espaço lusófono, para defender os valores da liberdade, o estado de direito, tudo o que caracteriza uma sociedade que valoriza a solidariedade, a dignidade, a liberdade individual e a igualdade de oportunidades entre todos.

 

O PS tem a árdua tarefa de motivar os cidadãos para o voto, para a fundamental escolha entre o continuar o afundamento progressivo do país e a tentativa do ressurgimento com ideias, realismo, coragem e determinação. É precisa mais intervenção, mais ousadia, mais iniciativa. É preciso tentar inverter o domínio dos media pelos donos disto tudo, que englobam todos aqueles que durante estes anos apregoaram a maravilhosa terapia que nos receitaram e que depois renegam a solução.

 

Se à esquerda existir um candidato presidencial que seja uma referência, que levante os cidadãos deprimidos, que seja alguém de quem nos possamos orgulhar, esse candidato ajudará o PS a fazer-se ouvir e a ganhar espaço de manobra, o que poderá reduzir a imensa multidão de abstencionistas que se perfila para as próximas legislativas. O mesmo se passa à direita: na presença de um candidato credível como, por exemplo, Rui Rio, a derrota do PSD/CDS poderá ser menor.

 

Henrique Neto avançou para a Presidência. Ainda bem que alguém deu o tiro de partida. Falta ao PS uma estratégia para as presidenciais pois não julgo que Henrique Neto seja o candidato que corporize o Presidente de que necessitamos. Acho que começa a ser tarde para que se posicione um bom candidato da esquerda que, até agora, não se vislumbra. Nem Sampaio da Nóvoa, nem Ferro Rodrigues, nem Maria de Belém Roseira, nem António Vitorino me parecem capazes de levantar grande entusiasmo nem de alargar o espaço político necessário a uma maioria absoluta. Espero que não seja já demasiado tarde.

Desmonto

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Maurice Blik

1.

Neste canto do meu manto

cada santo que desmonto

sopra vela que revela

o desvelo desta tela

em que pinto o que sinto

o que minto e me cala.

 

2.

Já não sei se sou palavra

ou se apenas serei lava

um vulcão que arrefece

neste corpo que envelhece

uma alma que estremece

no silêncio que lhe fala.

Sentinelas

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Virgil Scripcariu

 

Ao meu lado correm ventos

árvores sentinelas de um templo cíclico

em que as almas e a terra vivem paralelas.

 

Ao meu lado repousam casas

vazias de olhares sonoros

de mundos finitos que teimam em perdurar.

Não houve quem ouvisse...

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Aqui

Portugal dos Poetas

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Ontem, através do magnífico recital de poesia, tive o privilégio de viajar pelos vários séculos portugueses (desde o XVI) até à contemporaneidade, no Teatro Meridional. Com Natália Luíza, a sua escolha de textos, o seu encadeamento de palavras, a sua voz e a sua interpretação, vi Portugal desfilar, mais especificamente os Portugueses, a crise, a mediocridade, o sonho, a pequena e lampejante esperança, a doçura, o desespero e a Queixa das Almas Jovens Censuradas, o extraordinário poema de outra Natália musicado e cantado por José Mário Branco.

 

Não vi nenhum dos nossos governantes, nenhuma daquelas personagens que preenchem o espaço mediático, que nos embaraçam precisamente com a sua ignorância, incompetência e banalidade. Ninguém que se olhasse naquele espelho onde todos nos olhámos, confortavelmente embrulhados numa manta que, gentilmente, o Teatro Meridional proporciona à plateia, depois de um átrio acolhedor, com chá e café à discrição e fatias de bolo a 1€, num mealheiro que confia na boa-fé de quem lá está.

 

Pelo bilhete de 5€, recebemos muito mais que qualquer dinheiro possa pagar - a magia, o estímulo, a emoção, a lição de História, o reencontro connosco, com este Portugal tão dilacerado e, no entanto, tão apelativo. Como nos parece impossível que este país sempre tenha sobrevivido a revoadas e a esta sina fatalista de ciclicamente se destratar, se envergonhar, se dividir, sempre por aqueles em quem confiamos e nos desmerecem, sempre pelas atitudes de resignação enfastiada e triste, d'Esta Gente/ Essa Gente que paga para ser humilhada, que não enterra o dente, embora permanecendo, no fundo da noite da desilusão, num qualquer espaço de alma, esperança.

 

Passa o tempo e nós vamos reinventando o sofrimento, de várias formas e nas várias modas, com a circularidade do inevitável, ou dos golpes e contragolpes que nos empurram para breves instantes de clarividência.

 

O Teatro Meridional habituou-me a espectáculos de luxo. Do luxo da qualidade da escolha dos textos representados, do espaço cénico, do jogo de luzes, do enquadramento musical. Habituou-me ao maravilhoso que é perceber quanto a inteligência, a sobriedade e a criatividade podem ser os motores do desenvolvimento, quanto a arte é indispensável a este animal que somos.

 

À Natália Luíza tenho até pudor de lhe dizer o quanto a admiro, o quanto me orgulho por poder fazer parte do público que a aplaudiu de pé, após um pouco mais de 1 hora em palco, a preto, branco e cinza, em círculos concêntricos do nosso destino marítimo, com essa voz que nos envolve e estimula, nos agride e acarinha.

 

A toda a equipa do Teatro Meridional os meus parabéns, renovados e embevecidos, por mais um momento de rara beleza. Já só faltam 3 recitais, nos próximos dias 19, 20 e 21 de Março (21:30h) - dêem-se ao luxo de não os perder.

Cansada

APAV

Estou cansada -  ainda agora chorei tanto
Outra noite -  o terror andou à solta
Vai e volta e promete que não volta
Vai e volta e promete que não volta

Estou cansada  - chorei tanto outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez
Haja paz -  que o terror só vai não volta
Que a tua mão não se fecha contra mim

Estou cansada - não há fim nesta demência
Ou ciência que preveja que me mates
E quem bate depois chora e promete
Que não mais a mão se levanta fechada

Estou cansada - acho que não quero nada
Que não seja uma noite descansada
Sem ter medo ou chorar na almofada
Sem pensar no amor como uma espada

Tão cansada de remar contra a maré
O amor não é andar a pé na noite escura
Sempre segura que a tortura me espera
Insegura tão desfeita humilhada

Tão cansada de não dar luta à matança
À dança negra que me dizes que é amor
Que não concebes a tua vida sem mim
E que isto assim é normal numa paixão

E eu cansada nem sequer digo que não
Já não consigo que uma palavra te trave
Não tenho nada que não seja só pavor
Talvez o amor me espere noutra estrada
Mas tão cansada não consigo procurá-la
Já tão sem força de tentar não ser escrava
Já sei que hoje fico suspensa outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez…

Do próximo Presidente da República (2)

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Pegando no assunto abordado imediatamente abaixo, considero a eleição do próximo Presidente da República um facto determinante para o país, tanto em termos nacionais como internacionais.

 

Cavaco Silva protagonizou um Presidente da República que usou o cargo para condicionar a política partidária, mesmo negando-o e proclamando o seu contrário, beneficiando a sua família política, dando largas ao seu desprezo pelo resultado das eleições legislativas, nomeadamente as de 2009, tendo um papel central no escândalo das pseudo escutas de Belém, deixando o país suspenso das suas declarações e utilizando os discursos para fazer oposição declarada ao governo anterior, enquanto a sua cumplicidade com este governo e com o total atropelo das normas constitucionais em que o mesmo esteve envolvido, para não falar da subserviência ao poder económico e aos donos disto tudo, reduzindo a sua margem de manobra como escape do sistema.

 

Associado a este conjunto de erros e de incapacidades políticas, soma-se o papel de transformação da Presidência da República num cargo bicéfalo, dando destaque, na página da Presidência, a Maria Cavaco Silva cujo papel é ser mulher do Presidente - lugar que não consta na Constituição da República Portuguesa, nada tendo a ver com o respeito que merece qualquer esposa de qualquer titular de órgão público.

 

Por isso, e perante a aparente modorra desta pré campanha para as presidenciais, em que os candidatos vão dizendo que sim ou que não, fazendo de conta que estão ou que não estão, num impasse que nunca mais acaba, o PS, caso António Guterres não queira mesmo ser candidato, não parece ter alternativas credíveis ou um candidato que possa mobilizar o país e fazer esquecer os últimos 10 anos de Presidência da República. É difícil aceitar que o leque de escolhas esteja entre António Vitorino, Maria de Belém Roseira, Sampaio da Nóvoa, Marinho e Pinto, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa. E acho totalmente descabida a hipótese de qualquer dos anteriores Presidentes se recandidatar. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins poderia ser um excelente candidato presidencial. É um homem culto, honrado, sério, sensato, que sempre deu provas de estar disponível para o serviço público. Tem experiência política - deputado e membro de mais de um governo - e ocupa uma posição mais ou menos central no espectro político. Não tem medo de ser impopular e sabe o valor da Língua Portuguesa, da Economia, do rigor, do combate à mediocridade e ao facilitismo, da solidariedade e da importância da tolerância e da preservação dos laços sociais e do bem comum, da igualdade e do acesso ao conhecimento.

 

Penso que seria um excelente Presidente, capaz de congregar uma vontade mobilizadora que nos fizesse ter alguma esperança numa representação de cidadania digna e merecedora de todo o respeito, interno e externo.

 

Nota: Pedro Correia já tinha falado nesta hipótese, no seu bolgue, nomês passado.

Do próximo Presidente da República (1)

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O nosso Excelentíssimo Presidente, do alto da sua eminência silenciosa, apenas oraculando de quando em vez aos cidadãos sedentos das suas pérolas de sabedoria e presciência, resolveu desenhar o perfil de quem acha digno de lhe suceder como Mais Alto Magistrado da Nação (embora sempre mais baixo do que Sua Presidência, claro).

 

Pois parece-me que todos nos deveremos pronunciar, principalmente nas urnas, sobre quem deverá ser o próximo Presidente da República. E peço que me perdoe, Excelentíssimo Sr. Presidente, mas a minha opinião é assustadoramente simples e directa - deverá ser o seu contrário total e absoluto, desde o rictus acidus e amarus, de quem se sente incomodado pela persistente atmosfera de decomposição, à sua inigualável honestidade (e moralidade) pois, como temos obrigação de reconhecer (e de nos curvarmos perante esse reconhecimento), ninguém ainda conseguiu nascer duas vezes.

 

Portanto, com a oportunidade a que já nos habituou, estamos perante um importantíssimo contributo para a clarificação deste clima malção e infecto - procurar alguém que faça o exacto contrário daquilo que Sua Excelência tão relevantemente corporizou.